​​UFMG: funcionário agressor de animais não é censurado pela Diretoria de Letras

Após duas semanas de investigação e até oferta de prêmio para informações que levassem à identidade dos destruidores dos comedouros dos gatos da FAFICH/UFMG e possíveis responsáveis pelas mortes de felinos, parte do mistério foi desvendado: trata-se de antigo funcionário da Faculdade de Letras (FALE) da UFMG e, para surpresa de muitos, não advertido pela Diretoria da Faculdade de Letras. Após sua identificação por uma aluna, a Diretoria da FALE continua a considerá-lo “excelente funcionário”.

A admissão de responsabilidade por parte do funcionário foi feita à uma aluna da própria Letras que o flagrou destruindo as vasilhas de ração dos gatos. Além disso, ameaçou servir “uma última refeição “ a eles, com insinuação clara de envenenamento. E ainda fez perguntas impertinentes à aluna sobre sua identidade. A pós – graduanda de Letras, sentindo-se ameaçada, quer manter o anonimato.

Informada dos fatos, a diretora da Faculdade de Letras, professora Graciela Ravetti, curso nível internacional de uma das cinco maiores universidades do país, contemporizou o problema. Em reunião com Luis Carlos Villalta, professor da Fafich, representante da ONG BastAdotar, afirmou tratar-se de “excelente funcionário” e acrescentou haver proibição legal à presença de animais em prédios públicos.

A ong BastAdotar, diante da posição da Diretoria, que interpretou como omissão em relação às atitudes do funcionário, manifestou-se nas redes sociais e vai abrir um boletim de ocorrência contra a destruição de patrimônio – já que os comedouros foram instalados com o conhecimento e apoio da Diretoria da FAFICH.

O boletim vai tratar também da questão ambiental, ameaça à vida dos animais, já que deixá-los sem alimentação e ameaça de envenenamento se configuram como crueldade. O episódio ocorrido ontem (07/3) – o flagrante da ação, ameaças do funcionário e o encontro com a Diretoria da Letras – deve ser colocado num contexto mais amplo.

Em 2001 foram eliminados nas câmaras de gás da PBH cerca de 50 gatos com a conivência da Diretoria de então da FAFICH.

Ao longo dos últimos 16 anos houve mudanças no chamado “ar do tempo” : já não existem mais as cruéis câmaras de gás, e, atualmente, desde a Diretoria do professor João Furtado, em 2002, que criou o grupo de controle de zoonose, base para o surgimento da ONG BastAdotar, há uma tentativa de “controle ético da população felina”. Os defensores que atuam na UFMG há cerca de 15 anos, conseguiram encaminhamento para mais de mil animais para castração, tratamento e adoção. Também promoveram seminário sobre a questão animal e uma dezena de feiras de adoção na entrada da FAFICH.

Mas as agressões se repetem de tempos em tempos: quatro foram motivo de boletins de ocorrência e investigação policial pela crueldade com que os animais, principalmente filhotes, foram mortos, alguns por estripamento, outros por escalpelamento. Apenas no ano passado, em 2016, foram mortos 16 gatos.

A ONG BastAdotar se preocupa com essa escalada de violência contra os animais.

“Fazemos de tudo para protegê-los, alimentá-los, mas infelizmente não conseguimos, em muitos momentos, sequer proteger suas vidas, afirma, emocionada, a professora Mirian Chrystus, diretora de Comunicação da ONG e professora aposentada do curso de Comunicação Social. Mas diante dessas agressões bárbaras de seres que se dizem melhores, porque humanos, dotados de razão, vamos agora, lutar por eles.”

Segundo a professora, “a UFMG, uma das cinco maiores do país, deveria servir de exemplo de contemporaneidade no relacionamento com animais, ao lado de outras como a Universidade do Pará, que tem um programa de proteção aos animais, USP, ou Viçosa, aqui do lado, no interior, que tem um gatil e promove a adoção constante, em vez da indiferença com matança. Ou da conivência com as agressões aos animais”.

Já o professor Villalta ressalta que o tratamento dispensado aos animais é índice de civilidade (ou falta de) de uma sociedade e de suas instituições.

“O abandono de animais no campus da UFMG é revelador da barbárie da nossa sociedade. Maiores indicativos dela são as crueldades e as omissões d dirigentes da UFMG diante do sofrimento dos animais abandonados em suas áreas de jurisdição. Inequívoco comprometimento com essa barbárie é o endosso tácito a práticas patrimonialistas e despóticas de funcionários”.

Por Luiz Carlos Villalta e Mirian Chrystus

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.