A alface e a carne, outra vez!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

“O que há de errado em comer carnes?”, pergunta o jovem que acabara de nos servir em um restaurante lactovegetariano e me chamou até à janela da cozinha para fazer essa pergunta.

Pacientemente, explico: “Para você comer a carne foi preciso matar o animal”. Ele responde, com um sorrisinho de malícia no canto da boca: “Mas a alface também foi morta”. “A alface não tem consciência de nada, não sente dor”, respondo eu.
Ele: “Você já conversou com ela, para saber?” Vou perdendo a paciência, mas digo: “Não. Nunca conversei com elas, sei que elas não têm cérebro, não têm sistema nervoso central, não sentem dor. Não é o mesmo que um animal, que tem tudo isso a perder.” “E você, já conversou com uma alface? O que é que ela lhe disse?”, perguntei. E, prossegui: “Se você tem tanta pena assim das plantas, por favor, pare de comer carnes e leite, porque isso mata muito mais plantas, dadas aos animais de comer.”

Sem argumentos, ele muda o foco: “Eu não mato animais para comer as carnes, eu como as carnes já mortas.” Replico: “Você não os mata, mas paga para que outro jovem de sua idade esteja lá, matando para você!”.

Mais uma vez, sem argumento, ele muda de foco: “Você colhe toda comida que come em casa?” (O foco não era se todos plantamos e colhemos o que comemos, o foco era que algumas comidas implicam em tirar a vida dos animais sencientes e outras em tirar a vida de organismos insencientes, carnes x alfaces, tudo igual, para ele).

Olhei para ele, já no limite de minha santa e idosa paciência e falei: “Você merece continuar essa sua dieta de carnes, os animais infelizmente não merecem ser mortos para isso!” E completei: “não é possível discutir com você, você muda o foco a cada vez!”.

É muito confortável esconder-se atrás do pé de alface, que, se não comermos, apodrecerá ou secará ali mesmo na terra, enquanto passa a faca nas carnes, queijos e ovos tirados à custa da dor e da agonia dos animais, dor e agonia que nenhum pé de alface sente. E o que as plantas sentem e como reagem não tem diferença de como sentem e reagem muitos dos nossos tecidos, dos órgãos do nosso corpo, sem que sequer tenhamos consciência de suas existências ou eles da nossa existência.

Estar vivo ainda não quer dizer muita coisa. Ter vida não quer dizer tudo. Ter vida consciente sendo sujeito dela é um privilégio. E grãos e cereais, frutos e frutas não têm vida alguma própria, têm apenas um aglomerado de elementos que, no caso dos grãos e das sementes, se deixarmos cruzar com nitrogênio, aí, sim, podem vir a crescer no formato de uma planta.

E acham que estar vivo é o mesmo que ser sujeito de sua vida. Não veem a diferença entre a mente consciente e a mente inconsciente. Que a alface está viva, obviamente. Se ela tem um espírito, ou não, isso não temos como afirmar, a menos que o termo espírito seja empregado num sentido bem amplo, tão amplo quanto o empregam os budistas, para os quais as pedras são “seres vivos conscientes”. Pode ser que o sejam. Mas essa consciência não tem nada a ver com dor e sofrimento, porque não faria sentido algum ser senciente num formato para o qual a senciência não tivesse nenhum propósito.

Plantas são organismos “vivos”, sim, repletos de equilíbrios físico-químicos que mantêm suas vidas específicas, sem que ali esteja uma senciência, um sujeito consciente de si. Assim como a vida do nosso fígado, que se for cortado e mantido em certa temperatura, continua vivo por horas, quer dizer, é vivo, a ponto de pode ser costurado em outro corpo e “sobreviver”. Daí a dizer que o fígado sofre tanto quanto o porco, a vaca, a ovelha, o peru… já é passar para o delírio total. E os delirantes usam um pé de alface para esconder-se de sua própria consciência. Não temem comer as carnes, os leites e ovos de seres sencientes, mas sentem muita dó de um organismo que se tem algo parecido conosco ou com os outros animais, exatamente isso não é a capacidade de sentir dor e de sofrer, privilégio de animais dotados de cérebro e diencéfalo, a sede dos receptores que permitem a experiência trágica e desesperada da dor e onde se forjam as emoções, sem as quais tais experiências não poderiam ser gravadas.

Saí para a rua, para me despedir do grupo, passada com minha estupidez de dar trela ao jovem, e veio o dono do restaurante pedindo para eu relatar o que ocorrera. Disse a ele: “ele veio pedindo uma explicação do erro em se comer carnes e desviou sempre que já não tinha mais como argumentar. Ele veio apenas para zombar, tirar sarro de mim, me enganou direitinho, pois eu pensara que ele estava realmente interessado em ouvir algum argumento. Não estava”.
Saí passada. E esse restaurante já passou pela minha vida também. Não confio em quem não respeita argumentos e só sabe ironizar. E não confio em quem “fala com alfaces” e se lixa para o inferno no qual vivem e morrem os animais. Não confio. Acabou-se o perdão e a paciência tá longe de estar em fartura por aqui. Está mesmo é “em farta”.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.