A carne dos outros

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe  

Uma das notícias da ANDA, no dia 28 de novembro de 2012, começa assim: “Quando se fala em Bali, a imagem que vem à mente é de …”. Parodiando a notícia, por conta exatamente da matéria ali noticiada, podemos escrever: Quando se fala em Brasil, além dos cenários naturais deslumbrantes, do sexo, do futebol, do café, da corrupção, muitos se lembram de que esse é um dos países com mais seguidores do cristianismo do mundo. A religiosidade também é uma marca da cultura brasileira, como a espiritualidade é a marca da cultura balinesa.

Aqui são mortos, só no Estado catarinense, algo em torno de dois bilhões de frangos e quase 10 milhões de porcos por ano, para consumo humano, fora os animais de outras espécies, também mortos para virar churrascos, como é o caso das ovelhas, bois e vacas, cabras e cabritos. A vida desses animais é um inferno, do dia do nascimento à hora do abate. O único princípio da igualdade levado em conta pelos carnistas em relação a todos esses animais, é que todos viram apenas um naco de carne no prato dos comedores, já fartados e infartados por comerem tanta carne.

Bali não cria porcos nem galinhas, cria cães para o abate e consumo humano. É repulsivo? É. Igualmente repulsivo é comer os outros animais com a maior naturalidade, como se fossem as iguarias que suas carnes não são: porcos, galinhas, vitelos, perus, chesters, sem querer abrir os olhos para a realidade desse costume de cristãos, só porque ele é nosso, não dos balineses, e porque crescemos condicionados a olhar para essas carnes e não para a dos cães e gatos como comida.

Acontece que cada cultura religiosa tem seu especismo eletivo. Cada uma define o animal que vai ser acariciado e o que vai ser trucidado, esquartejado e comido.

Mas, antes que alguém que consome carnes se julgue limpo ou puro em relação aos animais, só porque abraça o animal de uma espécie, por exemplo, o da canina, da felina ou da equina, enquanto despreza os outros, pergunte para o porco se ele é menos do que o cão. Não pergunte a si mesmo, pois sua consciência foi formatada de acordo com o especismo eletivo de sua cultura, e vai responder de modo preconceituoso. Pergunte ao animal que vai comer agora no almoço, no jantar ou nos lanches do intervalo entre essas refeições, se ele é menos do que o outro animal que escolheu para estima.

Nosso padrão moral precisa ser julgado com o olhar do animal que trucidamos para nosso mau deleite, não com o nosso olhar viciado nos opioides que as carnes e laticínios contêm. Enfim, “de perto, ninguém é normal”. E quando julgados com o olhar daqueles a quem abatemos sem que tenham cometido agressão alguma contra nós, nossas vítimas, deixamos de ser aquele ideal de moralidade que usamos para condenar os que comem outras carnes.

Nesse sentido, a única decisão ética alimentar que pode servir para julgar a moralidade é a abolicionista vegana. Só quem para de comer todas as carnes, não importa se vermelhas, brancas ou azuladas, pode criticar quem continua comendo. Se é errado comer cães, não menos é comer cavalos, vitelos, bois, vacas, porcas, galinhas, frangos, perus, emas, coelhos, rãs etc. A carne é a matéria na qual a vida de um ser senciente e a mente própria do espírito de sua espécie podem florescer. Comer carnes é desprezar a biodiversidade do espírito.

Todos os animais são iguais: todos podem ser mortos por nós para virar um naco de carne no prato de quem está mais do que bem nutrido, de quem padece os males da hiperproteinização. Vai faltar perdão.

Fonte: ANDA


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