A crueldade dos rodeios não se refere apenas aos touros; bezerros são prejudicados também – como dar um fim a esta “tradição”

A crueldade dos rodeios não se refere apenas aos touros; bezerros são prejudicados também – como dar um fim a esta “tradição”
Fotos: Diane Garcia / Shutterstock

Enquanto o inverno está em plena força no Hemisfério Norte, é verão no Sul. Isso significa que nossos pensamentos se voltam às atividades ao ar livre e a participar de tudo o que nosso belo país tem para oferecer. Infelizmente, o verão da Nova Zelândia significa também a estação dos rodeios – e o abuso animal que a acompanha. Agora estamos em plena agonia, com treze dos trinta e cinco rodeios que ocorrem durante a temporada de férias.

“Abuso de animais” podem soar como palavras fortes para o que alguns veem como um passatempo divertido. Mas, ainda assim, é uma descrição adequada. Se fizéssemos aos filhotes de cachorro o que fazemos aos bezerros, o governo agiria imediatamente baseado na violação ao ato do bem-estar dos animais. A mesma lei não é aplicada consistentemente a outras espécies, incluindo aquelas usadas em rodeios. É hora de questionarmos por quê.

Nem tudo são jogos e diversão

Quando pensamos em rodeio, a maioria das pessoas tende a imaginar touros fortes e raivosos, montados por homens robustos. Mas subir num touro é apenas um dos eventos em um rodeio. Há também o roping (ou “Laço de Bezerro”), onde animais com apenas semanas de idade, vulneráveis e assustados, são forçados a correr em alta velocidade antes de serem arrancados, de repente e dolorosamente, do chão com uma corda em volta do pescoço e atirados na sujeira enquanto um “cowboy” amarra suas patas.

E, em seguida, há a luta com bois (bulldogging), onde os animais são perseguidos, montados, e têm o pescoço torcido em 180 graus para forçá-los a se render. Um animal nunca viraria naturalmente seu pescoço desta maneira.

Substitua boi ou bezerro por “cachorrinho” ou “gatinho” nesses eventos e, mesmo se você ainda estava convencido de que era uma prática aceitável, de repente parece muito menos razoável.

E aqueles bois supostamente raivosos? As coisas não são muito melhores para eles, nem para os cavalos que são montados, tampouco. Eles são obrigados a dar coices por meio do uso de uma cinta de flanco; uma correia desconfortável e apertada que circunda seu abdômen.

Um estudo científico de 2016 da Universidade de Queensland sobre laço de bezerro concluiu que o processo é estressante para os animais e que a evidência “sugere que a experiência seja aversiva.” O NAWAC – National Animal Welfare Advisory Comitee (Comitê Nacional de Assessoramento do Bem Estar Animal) recomenda que o laço de bezerro não deveria ser realizado.

Em todos os eventos de rodeio, timing (tempo) é mais importante do que o bem-estar animal, considerando que os “cowboys” competem para obter o melhor tempo.

Os animais podem morrer, e às vezes morrem, num rodeio. Eles frequentemente estão com medo e muito angustiados. E não apenas por causa da própria atividade. Esses animais são transportados por longas distâncias em caminhões ao irem de um evento para o outro e submetidos a rodadas de prática. Acrescente uma multidão zombando e música alta, e você tem uma situação muito estressante, altamente antinatural, para qualquer animal, especialmente animais tratados como presas.

A ciência nos diz que as presas frequentemente estão nervosas. Elas vão muito longe para esconder sua ansiedade e dor por medo de parecerem mais vulneráveis. E ainda, diz a veterinária neozelandesa Stephane Lane: “Não é preciso um especialista para enxergar o medo nos olhos dos animais usados ​​em rodeios”.

Então, da próxima vez que você ouvir organizadores de rodeio dizerem que os animais gostam daquilo, a pergunta que devemos estar fazendo a nós mesmos (e a eles) é: Por que diabos iriam gostar?

O governo decidiu recentemente não proibir o rodeio. Essa decisão ocorreu apesar de 62 mil pessoas terem assinado uma petição pedindo uma proibição, de provas e denúncias de especialistas e de pesquisas de opinião mostrando que a maioria desejava que a proibição acontecesse.

Em  2015, o Ato de Bem-Estar Animal da Nova Zelândia foi supostamente fortalecido. O ato declara agora que os animais são sencientes, o que arrecadou elogios ao redor de todo o mundo. Mas dizer que os animais são “sencientes” é apenas uma maneira de dizer que eles pensam e sentem. O medo que os animais sentem no rodeio é agora uma legítima preocupação legal. Mas para que servem essas mudanças na lei se elas não resultam em mudanças para os animais?

É claro que os neozelandeses não estão satisfeitos com novilhos sendo brutalmente manuseados como já fora exposto em outra investigação da indústria de laticínios, e não achamos aceitável que os animais sejam tratados cruelmente no rodeio também.

As investigações extensivas sobre rodeios mudaram significativamente a discussão pública em torno dos eventos. Está fora de questão, de acordo com a opinião pública, ignorar os 59 por cento dos kiwis (neozelandeses) que disseram apoiar uma proibição em uma pesquisa científica. Especialmente quando você considera a pequena minoria envolvida nisso.

Muitas vezes ouvimos dizer que “a Nova Zelândia tem os melhores padrões de bem-estar animal do mundo”. Mas, enquanto ainda cultivarmos mais de cem milhões de animais por ano, tivermos a crueldade na indústria de laticínios repetidamente exposta e permitirmos que os animais sejam abusados em prol do entretenimento em rodeios, não teremos muito sobre o que nos vangloriarmos. Kiwis carinhosos estão esperando o governo começar a tomar a liderança em questões animais.

Eventos de rodeios são proibidos na Grã-Bretanha, outras partes da Europa e áreas dos EUA e Austrália. Outros países proíbem certos eventos, tais como o laço de bezerros. Na Nova Zelândia, os rodeios são banidos de Auckland Council.

Não é uma prática que possa ser defendida alegando-se ser uma tradição Kiwi. Os rodeios neozelandeses só começaram há alguns anos, como uma forma de entretenimento importada dos EUA.

Os animais no rodeio são rotineiramente agarrados, perseguidos, derrubados e enlaçados em demonstrações agressivas, e podem sofrer ferimentos dolorosos tais como fraturas e equimoses, assim como sofrer de estresse e medo severos. Efetivamente bullying. Quando os animais sofrem desnecessariamente, não podemos justificar seu uso para o assim chamado entretenimento.

Há muitos eventos rurais e ao ar livre e atividades das quais as pessoas podem desfrutar sem infligir danos e tormento aos animais. Se você está preocupado com o impacto que os rodeios têm sobre o bem-estar animal, a melhor coisa que pode fazer é se recusar a frequentar e ficar longe de rodeios e outras empresas que usam animais para recreação e lucro.

Por Mandy Carter, SAFE / Tradução de Alda Lima

Fonte: One Green Planet 

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