A crueldade neural do cativeiro: manter grandes mamíferos em zoológicos e aquários danifica seus cérebros

A crueldade neural do cativeiro: manter grandes mamíferos em zoológicos e aquários danifica seus cérebros
Fotografia de um cérebro de elefante. Dr. Paul Magger / Universidade de Johannesburg

Hanako, uma elefanta asiática, viveu em um pequeno recinto de concreto no Parque Zoológico Inokashira, no Japão, por mais de 60 anos, muitas vezes acorrentada e sem nenhum estímulo. Na natureza, elefantes vivem em manadas, com laços familiares próximos. Hanako foi solitária na última década de sua vida.

Kiska, uma jovem orca fêmea, foi capturada em 1978 na costa da Islândia e levada para Marineland, no Canadá, um aquário e parque de diversões. Orcas são animais sociais que vivem em grupos familiares com mais de 40 membros, mas Kisha vive sozinha em um pequeno tanque desde 2011. Todas as suas crias morreram. Para combater o estresse e o tédio, ela nada em círculos lentos e intermináveis, e gasta seus dentes até a polpa na piscina de concreto.

Infelizmente, estas são condições comuns para muitos grandes mamíferos cativos na indústria do “entretenimento”. Em décadas de estudo dos cérebros dos humanos, elefantes africanos, baleias-jubarte e outros grandes mamíferos, notei a grande sensibilidade do órgão ao meio ambiente, incluindo sérios impactos na sua estrutura e função de viver em cativeiro.

Hanako, uma elefante asiática mantida em um Parque Zoológico em Inokashira, Japão e Kiska, uma orca que vive em Marineland, Canadá. Uma imagem demonstra os dentes danificados de Kiska. Elefantes no Japão (imagem a esquerda), veja animais em cativeiro em Ontário (imagem à direita)
Hanako, uma elefante asiática mantida em um Parque Zoológico em Inokashira, Japão e Kiska, uma orca que vive em Marineland, Canadá. Uma imagem demonstra os dentes danificados de Kiska. (CC BY-ND)

Impacto na saúde e alteração do comportamento

É fácil observar a saúde geral e as consequências psicológicas da vida em cativeiro para estes animais. Muitos elefantes em cativeiro sofrem de artrite, obesidade ou problemas de pele. Tanto elefantes quanto orcas têm sérios problemas dentários. Orcas em cativeiro são atormentadas por pneumonia, doenças renais, doenças gastrointestinais e infecções.

Muitos animais tentam se adaptar ao cativeiro adotando comportamentos anormais. Alguns desenvolvem “estereotipias”, que são hábitos repetitivos e sem propósito como balançar constantemente a cabeça, sacudir incessantemente ou mastigar as barras de suas gaiolas. Outros, especialmente os grandes felinos, caminham em seus recintos. Os elefantes esfregam ou quebram suas presas.

Mudança da estrutura cerebral

Pesquisas neurocientíficas indicam que viver em um ambiente empobrecido e estressante prejudica fisicamente o cérebro. Estas mudanças têm sido documentadas em muitas espécies, inclusive ratos e outros roedores, gatos e humanos.

Embora os pesquisadores tenham estudado diretamente alguns cérebros de animais, a maior parte do que nós sabemos vem da observação do comportamento animal, da análise dos níveis hormonais de estresse no sangue e da aplicação do conhecimento ganho a partir de meio século de pesquisa em neurociência. Pesquisas laboratoriais também sugerem que mamíferos em um zoológico ou aquário têm as funções cerebrais comprometidas.

A ilustração mostra diferenças no córtex cerebral em animais mantidos em pobres (cativeiros) e enriquecidos (natural) ambientes. O empobrecimento resulta em afinamento do córtex, uma queda no suprimento do sangue, menos suporte para os neurônios e queda na conectividade entre os neurônios. Arnold B. Schelbel
A ilustração mostra diferenças no córtex cerebral em animais mantidos em pobres (cativeiros) e enriquecidos (natural) ambientes. O empobrecimento resulta em afinamento do córtex, uma queda no suprimento do sangue, menos suporte para os neurônios e queda na conectividade entre os neurônios. Arnold B. Schelbel

A subsistência em cercos confinados e estéreis que carecem de estimulação intelectual ou contato social apropriado parece afinar o córtex cerebral (a parte do cérebro envolvida no movimento voluntário e na função cognitiva superior, que inclui memória, planejamento e tomada de decisões).

Existem outras consequências. Os capilares encolhem, o que priva o cérebro do sangue rico em oxigênio que ele precisa para sobreviver. Os neurônios ficam menores, e seus dendritos (os ramos que formam conexões com outros neurônios) tornam-se menos complexos, e isso prejudica a comunicação dentro do cérebro. Como resultado, os neurônios corticais em animais em cativeiro processam informações menos eficientemente do que aqueles que vivem em meio ambiente enriquecido e mais natural.

Um neurônio cortical em um elefante selvagem africano no seu habitat comparado com o neurônio cortical hipotético de um elefante em cativeiro. Bob Jacobs
Um neurônio cortical em um elefante selvagem africano no seu habitat comparado com o neurônio cortical hipotético de um elefante em cativeiro. Bob Jacobs

A saúde cerebral também é afetada quando vivem em pequenos cercos que não permitem exercícios necessários. A atividade física aumenta o fluxo de sangue para o cérebro, o que requer grandes quantidades de oxigênio. O exercício aumenta a produção de novas conexões e aumenta as habilidades cognitivas.

Em seus hábitos nativos, estes animais devem se mover para sobreviver, cobrem grandes distâncias para encontrar forragem ou um companheiro. Elefantes normalmente viajam de 15 a 120 milhas por dia. Em um zoológico, eles têm uma média de três milhas por dia, muitas vezes andando para frente e para trás em pequenos recintos. Uma orca livre estudada no Canadá nadou até mais de 156 milhas por dia; enquanto isso, um tanque médio de orca é cerca de 10.000 vezes menor do que a área de vida natural.

Alterações da química cerebral e a morte das células

Viver em recintos que restringem ou impedem o comportamento normal cria frustração crônica e tédio. Na natureza, o sistema de resposta ao estresse dos animais o ajuda a escapar do perigo, mas o cativeiro mantém os animais quase sem controle sobre seu ambiente.

Estas situações promovem o desamparo aprendido, o que impacta negativamente o hipocampo, que lida com funções de memória, e a amígdala, que processa emoções. O estresse prolongado eleva os hormônios do estresse e danifica ou até mata neurônios em ambas as regiões cerebrais. Também interrompe o delicado equilíbrio da serotonina, um neurotransmissor que estabiliza o humor, entre outras funções.

Em humanos, a privação pode desencadear problemas psiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade, transtornos de humor ou transtorno de estresse pós-traumático. Elefantes, orcas e outros animais com cérebros grandes provavelmente reagirão de maneira semelhante à vida em um ambiente severamente estressante.

Mudanças na estrutura cerebral

O cativeiro pode danificar os circuitos complexos do cérebro, inclusive os gânglios basais. Esse grupo de neurônios se comunica com o córtex cerebral ao longo de duas redes: um caminho direto que melhora o movimento e o comportamento, e uma via indireta que os inibe.

Os comportamentos repetitivos e estereotipados que muitos animais adotam em cativeiro são causados por um desequilíbrio de dois neurotransmissores, dopamina e serotonina. Isso prejudica a capacidade da via indireta de modular o movimento, uma condição documentada em espécies desde galinhas, vacas, ovelhas e cavalos até primatas e grandes felinos.

Córtex cerebral, hipocampo e amídala são fisicamente alterados pelo cativeiro, juntamente com o circuito cerebral que envolve os gânglios basais. Bob Jacobs
Córtex cerebral, hipocampo e amídala são fisicamente alterados pelo cativeiro, juntamente com o circuito cerebral que envolve os gânglios basais. Bob Jacobs

A evolução construiu cérebros animais para serem requintadamente responsivos ao seu ambiente. Essas reações podem afetar a função neural ao ligar ou desligar diferentes genes. Viver em circunstâncias inadequadas ou abusivas altera processos bioquímicos: interrompe a síntese de proteínas que constroem conexões entre células cerebrais e neurotransmissores que facilitam a comunicação entre elas.

Há fortes evidências de que o enriquecimento, o contato social e o espaço apropriado em habitats mais naturais são necessários para animais de vida longa com grandes cérebros, como elefantes e cetáceos. Melhores condições reduzem comportamentos estereotipados perturbadores, melhoram as conexões no cérebro e desencadeiam alterações neuroquímicas que melhoram o aprendizado e a memória.

A questão do cativeiro

Algumas pessoas defendem manter animais em cativeiro, e argumentam que isso ajuda a conservar espécies ameaçadas ou oferece benefícios educacionais para os visitantes de zoológicos e aquários. Estas justificativas são questionáveis, particularmente para grandes mamíferos. Como minha própria pesquisa e trabalhos de muitos outros cientistas mostram, enjaular grandes mamíferos e colocá-los em exposição é inegavelmente cruel de uma perspectiva neural. Isto causa danos cerebrais.

As percepções públicas sobre o cativeiro estão mudando lentamente, como mostra a reação ao documentário “Blackfish“. Para animais que não podem ser livres, existem santuários bem desenhados. Vários já existem para elefantes e outros grandes mamíferos no Tennessee, Brasil e norte da Califórnia. Outros para grandes cetáceos estão em desenvolvimento.

Talvez não seja tarde demais para Kiska.

A Dr. Lori Marino, presidente do Whale Sanctuary Project e ex-professora sênior da Universidade Emory, contribuiu para este artigo.

Tradução de Fátima C. G. Maciel

Fonte: The Conversation

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