‘A culpa nunca é do cão, mas do tutor dele’, diz jornalista atacada por pit bull

‘A culpa nunca é do cão, mas do tutor dele’, diz jornalista atacada por pit bull

Nem deu tempo de tentar fugir. Do nada, o pit bull do meu vizinho saiu da casa dele, sem muro e portão, e saltou, em fúria, em direção ao meu rosto. Cães, quase sempre, tentam morder rosto e pescoço. E esse não foi diferente.

O ataque foi na Estrada de Prata dos Aredes, única via de acesso à localidade homônima, de Teresópolis. Eu estava do outro lado da rua, mas por viver solto na via pública, esse pit bull considerava a estrada parte do território dele. E, vez por outra, ataca quem ousa invadi-lo. Naquele dia fui eu, uma pedestre que passava por ali.

O terror de um ataque é brutal. Por instinto, me atirei sobre um carro, que, para minha imensa sorte, passava naquele momento no local. O cão se assustou e recuou. O carro parou e a motorista me deixou entrar, em choque.

Corri risco de morrer e o pit bull também, de ser atropelado. O tutor dele, único responsável pelo ataque, nem apareceu, como costuma ocorrer nesse tipo de situação. O tutor se omite e deixa o cão à própria sorte. Ora o cão “fugiu”, ora é “manso” e o tutor “não sabe o que aconteceu”. E há até quem negue ser o tutor, como se cachorro brotasse do chão.

Fiquei em choque pela violência e porque amo cães. Pit bulls, dobermanns, pastores alemães, SRDs (sem raça definida ou vira-latas), poodles adoro a todos, não importa tamanho e raça.

Cães fazem parte da minha vida desde que me entendo por gente. Tenho a felicidade de conviver com dois deles, amigos à toda prova, de todas as horas, companheiros de vida. E, por isso mesmo, sei que precisam ser cuidados, amados e tratados com respeito e responsabilidade, para o bem deles e da sociedade.

A culpa de ataques de pit bulls e cachorros de qualquer tipo nunca é do cão, mas do tutor dele. O perigo é o ser humano. E quem paga o preço da irresponsabilidade de tutores são as pessoas mordidas e o cão, ele próprio vítima de negligência.

Deixar um cão perambular pelas ruas à própria sorte ou andar com ele sem guia é negligência, com o animal e com a sociedade. É guarda irresponsável e, no caso de cães que podem matar, criminosa. Um ataque à segurança da sociedade.

Pit bulls têm a criação proibida ou sujeita a restrições em 41 países, dentre eles o Brasil. Apreciadores da raça alegam ser injustiça e preconceito. Mas o fato é que se trata de um cão extremamente ágil e forte, capaz de dilacerar pele e músculos sem esforço.

Com outros cães de bom porte e cara de mau, ele é muito empregado para guarda. E pode se tornar uma arma letal, se não for criado com responsabilidade. E esse é o problema. Não é a raça, mas o péssimo uso dela. No Rio, violando a legislação estadual, é comum encontra-los soltos na rua para a segurança dos tutores e insegurança de todos os demais cidadãos. Frequentemente, é exibido por indivíduos que se sentem empoderados ao desfilar com animais fora da guia, como se a força fosse deles e não do cão, usado como uma espécie de viagra em forma de cachorro.

O problema é que cães poderosos podem machucar e matar se se sentirem acuados e provocados, mesmo que a vítima não tenha feito qualquer ação perceptível nesse sentido. Não há dados consistentes no Brasil. Mas nos EUA, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), ocorrem cerca de 4,5 milhões de ataques de cães por ano e 27 mil pessoas precisam passar por cirurgias plásticas reconstrutivas.

Os prejuízos das vítimas chegam US$ 2 bilhões por ano, segundo estudo publicado no periódico Journal of American Medical Association (Jama). E, sim, uma pesquisa publicada na revista Journal of Oral and Maxillofacial Surgery em 2019 mostrou que, devido à potência de sua mordida, “o pit bull, comparado a outras raças, provoca lesões mais complexas, em ataques, frequentemente, não provocados”.

O estudo mostrou que a probabilidade de uma mordida resultar numa lesão mais complexa (superior a 5cm) era 4,4 vezes maior no caso do pit bull do que outras raças, como pastor alemão e rottweilers.

O pavor do ataque deu lugar à indignação. O boletim de ocorrência não deu em nada e tampouco a queixa à Prefeitura de Teresópolis. Ambos ignorados. O cão continua lá sem limite para atacar transeuntes, quando lhe der na telha.

Restou a indignação. Por mim, que passei a temer por minha segurança nas ruas da localidade, e pelo pitbull, que continua à mercê da negligência humana.

Por Ana Lucia Azevedo

Fonte: Yahoo! Notícias

Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes…