A máfia dos pássaros

A máfia dos pássaros

Mais de mil milhões de aves são mortas todos os anos na Europa. O massacre ocorre nos Balcãs e os italianos são os responsáveis

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Zeljko Vukovic é um homem duro. Veterano da guerra na antiga Jugoslávia, o inspetor da polícia combate hoje um novo inimigo: os caçadores de pássaros. Sempre que recebe uma denúncia, reúne uma equipe de agentes e avança para a batalha. Vestidos com coletes à prova de bala e armados com kalashnikovs, Vukovic e os seus homens escondem-se entre os arbustos e esperam pelo inimigo. “São pessoas importantes, quase sempre italianos”, contou à revista Newsweek. “Já apanhei polícias, militares, diplomatas, empresários e médicos. Até o cirurgião de Henry Kissinger [antigo secretário de Estado dos EUA], tinha uma arma de 25 mil euros.”

Todos os anos, no Outono, cinco mil milhões de aves atravessam a Europa para passar o Inverno nos países do Mediterrâneo e do Norte de África. Mas mais de mil milhões ficam pelo caminho. Espécies protegidas pela União Europeia, como o ganso­-de­-pescoço-ruivo, a tadorna, o maçarico-das-rochas, a marrequinha­-comum e o ganso-grande-de-testa-branca são atraídos por sons de aves emitidos por alto-falantes e ficam enleados em redes, instaladas entre as árvores.

Há quem barre ramos com cola para os apanhar e instale redes com molas em lagos para aprisionar aves aquáticas. E depois há as dezenas de milhares de caçadores que viajam até aos Balcãs, zona de corredores migratórios e que também usam alto-falantes para os atrair. Esta tecnologia faz disparar o número de pássaros mortos. Um caçador pode abater mais de uma centena de aves só até à hora do almoço.

Um negócio de milhões

Na Croácia, esta guerra está a ser ganha pelos ambientalistas. Há 10 anos, Zeljko Vukovic fazia todas as semanas apreensões de centenas de cotovias e de petinhas-das-árvores. Agora é mais raro. Mas na Roménia, na Sérvia, na Albânia e na Bulgária, o mas­sacre continua quase impune.

Impedidos de caçar no próprio país, os italianos frequentam zonas de caça nos Balcãs onde a fiscalização é mais permeável. Fazem-no por esporte e também por dinheiro. É que muitas destas aves são consideradas iguarias em Itália e podem custar mais do que um grama de cocaína no mercado negro, chegando a atingir os 150 euros, como é o caso das cotovias.
O estorninho-malhado pode ser caçado entre Novembro e Fevereiro. Os caçadores atraem os pássaros com alto-falantes que imitam o som das espécies

Nos últimos anos, têm sido apreendidos centenas de pássaros. “As aves são escondidas – depenadas e sem cabeça para não serem identificadas – em compartimentos de camiões. São tácticas mafiosas”, diz Katalin Kecse-Nagy, da Traffic, organização que combate o tráfico de animais selvagens. O contrabando de pássaros para Itália valerá por ano uns 10 milhões de euros.

São poucos os casos que chegam aos tribunais. Na Roménia, por sinal o único país do Leste onde é permitido caçar cotovias, três italianos e um romeno estão a ser julgados por caça ilegal. O procurador responsável pela acusação, Teodor Nita, comparou a forma de atuar dos detidos com o Rambo, a personagem ultraviolenta do cinema. “Eram 20 e estavam sentados a esvaziar cartuchos. Matavam todos os pássaros que viam.”.

A caça em Portugal

Matam-se as aves para serem servidas nos restaurantes. É proibido caçar pássaros, excepto o tordo-pinto, tordo-ruivo, tordo-zornal, tordeia e o estorninho-malhado. Mas há espécies, como as toutinegras e os piscos, que são capturados e vendidos a restaurantes. “Alguns pássaros migradores têm as populações em regressão acentuada, como o cartaxo-nortenho”, diz o ornitólogo Domingos Leitão.

Fonte: Sábado (Portugal) / mantida a grafia original

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