A máquina de exterminar cachorros

A máquina de exterminar cachorros

Por Raul Marques

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O Centro de Controle de Zoonoses de Rio Preto matou 19.089 animais nos últimos nove anos. Foram abatidos 16.822 cachorros e 2.267 gatos entre 2006 e 2014. Embora a quantidade de eutanásias (sic) esteja em queda, o absurdo número de mortes revela dois problemas perturbadores. De um lado, a população não cuida de forma responsável dos bichos de estimação. Doenças, deficiências e até mesmo velhice são motivos para abandoná-los na rua.

Do outro, a Prefeitura falhou nas políticas públicas para o setor, foi omissa nos investimentos e poderia ter evitado parte dos procedimentos letais se tivesse infraestrutura adequada. Houve períodos em que mortes em série, verdadeiras hecatombes chanceladas pelo poder público, foram promovidas para “limpar” as precárias celas superlotadas do Centro Controle de Zoonoses, conforme revela Arnaldo Almendros de Mello, secretário municipal de Saúde entre 2005 e 2008.

“Eram mortos se apresentassem doenças incuráveis ou quando havia superlotação. O ambiente não era adequado. A estrutura ficava longe da que a gente gostaria. No fim da minha gestão, conseguimos várias melhorias. Sou ferrenho defensor dos animais”, afirma Almendros. Em 2006, foram abatidos 4.257 – 11 a cada dia. Em 2008 foi aprovada lei estadual que permite a eutanásia só em caso de doença grave ou enfermidades infectocontagiosas incuráveis, que coloquem em risco a saúde de pessoas ou de outros bichos.

Mesmo assim, os números se mantiveram altos no começo da gestão do prefeito Valdomiro Lopes (PSB). Somente a partir de 2012 é que as mortes foram reduzidas para menos de 600 casos por ano. “Só ocorrem eutanásias hoje em caso de doença, com laudo de veterinário e uso de anestesia. A partir de 2009 houve reorganização do serviço. Estamos investindo na castração”, afirma a titular da pasta, Teresinha Pachá, que fala em nome da administração atual.

A questão está longe de encontrar solução definitiva e ser tratada de forma transparente. A Secretaria Municipal de Saúde demorou três meses para passar as informações do setor, embora o Diário as tenha solicitado legalmente com uso da Lei de Acesso à Informação. As funestas estatísticas se tornaram públicas somente após o Ministério Público instaurar um inquérito civil.

Concomitante à resposta da Prefeitura ao MP, o prefeito Valdomiro Lopes determinou que as informações fossem disponibilizadas ao jornal. Mesmo assim, não houve total abertura. A reportagem foi impedida de entrar e conhecer as instalações do departamento de zoonoses. Mas fotos obtidas pelo Diário mostram que o lugar é insalubre, inadequado e tem estrutura precária para recuperar os hóspedes enfermos e oferecer estadia digna.

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“Sempre foi assim. É um absurdo. Parte dessas mortes poderia ter sido evitada. Havia época em que ocorriam em dia definido. Para resolver o problema, são necessárias sólidas políticas”, afirma a presidente da ONG Grupo Patas, Silvana Carvalho. Ela estima que hoje 20 mil animais vagam pelas ruas. A secretária de Saúde, entretanto, rechaça a informação. Acredita que não chegam a cinco mil.

A presidente da ONG Fauna, Maria Osvalda Prata, considera absurda a quantidade de mortes. “Isso aconteceu por um bom tempo. Agora, a gente fiscaliza se a lei é cumprida. É preciso investir na castração para controlar essa população.” “Hoje ainda morrem muitos, mas apenas os que estão doentes”, lembra Maria Cristina dos Santos, vice-presidente da Associação Rio-Pretense de Proteção aos Animais (Arpa).

No período de 2006 a 2014, foram adotados 6.287 animais oriundos do Centro de Zoonoses. Ganharam novo lar 5.275 cachorros e 1.012 gatos. Em termos matemáticos, a cada quatro que entraram na repartição, três foram mortos e um ganhou a segunda chance. O custo da eutanásia (sic) de um animal de porte médio (15 quilos) é de R$ 7,22. O valor inclui a anestesia e o medicamento para matá-lo. Se a questão tivesse recebido a importância que merece da Prefeitura, o número de mortes seria menor.

Saúde pretende construir novo Centro de Zoonoses

A Secretaria de Saúde espera disparar neste mês a licitação para construir o novo Centro de Zoonoses de Rio Preto, no bairro Sete Sul. O espaço terá 745 metros quadrados. A obra vai custar R$ 1,2 milhão – R$ 700 mil do município e R$ 500 mil liberados em emenda do deputado Ivan Valente (Psol). Terá amplas salas, laboratório e espaço para tratamento de animais de grande porte.

O atual centro funciona em um prédio acanhado, com 300 metros quadrados, e que não oferece infraestrutura necessária para que o trabalho seja realizado com excelência. Enquanto a obra não sai do papel, a secretária de Saúde de Rio Preto, Teresinha Pachá, afirma que melhorias pontuais foram realizadas desde 2009 no Centro de Zoonoses. O número de veterinários, diz, aumentou de dois para quatro.

A pasta fez parcerias com ONG’s para a promoção de campanhas de adoção. “E intensificamos as ações, a partir dos agentes de saúde, para incentivar na população a posse responsável dos animais.” A Prefeitura quer aumentar a castração, ou seja, controlar a população de gatos e cachorros da cidade. O Centro de Controle de Zoonoses começou recentemente a buscar animais nas ruas para que sejam submetidos ao procedimento médico. Depois, serão encaminhados para adoção.

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Segundo Teresinha Pachá, a proposta é fazer 34 castrações gratuitamente a cada dia. A divisão de atendimento será a seguinte: oito vagas para animais trazidos pelas protetoras, nove para os que forem recolhidos nas ruas e 17 para qualquer morador. Para ter acesso ao serviço, basta ir pessoalmente ao Centro de Zoonoses e agendar.

A repartição funciona na avenida Francisco Barbeta Júnior, 490, Jardim Herculano, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. É necessário levar comprovante de endereço, documentos pessoais e hemograma do animal, que deve estar em boas condições de saúde.

Prefeitura ignora lei e MP abre inquérito

A Prefeitura de Rio Preto descumpriu a Lei de Acesso à Informação e escondeu informações sobre a situação do Centro de Controle de Zoonoses por três meses. A negativa fez o Ministério Público (MP) abrir investigação para apurar possível improbidade administrativa. O Diário solicitou as informações para a Prefeitura no dia 2 de dezembro, com base na lei criada em âmbito federal em novembro de 2011 e regulamentada em maio de 2012 em Rio Preto. Mas não adiantou.

O poder público pediu tempo para responder os questionamentos e, ao final do prazo, não forneceu o que foi solicitado, sem justificativa plausível.O artigo 5º da lei prevê que a informação deve ser prestada de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão. Ojornal procurou o Ministério Público e registrou queixa, que resultou na investigação. A Secretaria de Saúde foi obrigada a se manifestar para a promotoria. Ao mesmo tempo, mandou os dados para o jornal.

Mas a investigação continua em andamento e o MP segue normalmente com seu trabalho. O promotor enviou a resposta da Prefeitura para o Diário e espera, no prazo de 15 dias, a manifestação do jornal, o que deve acontecer nesta semana. “A partir daí, vou analisar os fatos e decidir o que fazer”, diz o 2º promotor de Justiça de Rio Preto, Cláudio Santos de Moraes. Na documentação enviada ao promotor, a Prefeitura não respondeu por qual motivo escondeu as informações.

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Protetora de 140 gatos

Uma chacina quase dizimou os gatos que viviam na Represa Municipal em 2007. O grave crime chamou a atenção de Elizabeth Winning, 52 anos. Desde então, a telefonista aposentada alimenta esses animais, de segunda a sábado, com seus próprios recursos, algo em torno de R$ 1 mil mensais. “Não consigo parar.

Preciso apenas que voluntários se ofereçam para ajudar.” O trabalho é interminável. Somente no complexo da Represa, Elizabeth afirma que vivem 140 gatos – a maioria foi abandonada pelos próprios tutores. “Sempre que posso levo os que são adultos para castrar.” Os bichanos podem ser encontrados principalmente no fundo do Sesi e também na pista de caminhada.

Somente com a alimentação, são gastos mensalmente 12 sacos de ração, cada qual de 25 quilos – três são doados pela ONG Fauna. “É uma despesa grande para o orçamento de uma aposentada.” De vez em quando, Elizabeth ouve críticas. A principal: os animais iriam embora se ela suspendesse a alimentação. “Não é bem assim. Se eu parar, os gatos invadem as escolas e as casas da região em busca de comida.” Apesar de todas as dificuldades, a aposentada sente-se feliz com o que faz.

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Paixão e zelo pelos animais

A auxiliar administrativa Lívia Papandré, 30 anos, sempre foi apaixonada por animais. Tanto que, já nos mais tenros anos, não podia ver cachorro ou gato vagando errante pelas ruas. Levava para casa ou encontrava um novo lar para eles. Nunca parou de fazer isso. Na verdade, intensificou a atitude quando cresceu. Lívia e a mãe, Maria Lucinda, cuidam hoje de 12 cães e de 16 gatos.

A bicharada é dividida em duas casas. A maioria estava abandonada ou vivia em condições cruéis. Tem até um que foi atropelado. “Eu tenho muita dó. Não posso vêlos em condição tão horríveis e não fazer nada. É assim desde que eu era criança”, afirma a auxiliar. Por falta de espaço físico, Lívia afirma que não pretende abrigar mais nenhum bichinho por enquanto, embora tenha vontade.

“Considero absurdo abandonar um bicho indefeso. Muitas pessoas devem saber que o animal não vai ser filhote para sempre. Vai crescer e envelhecer. E merece toda a atenção.” Ela diz gastar em torno de R$ 500 mensais com ração – não entra nessa conta os gastos com vacina, xampu e sabonete. Mas Lívia demonstra não se preocupar com isso. “Eu amo demais os animais.” Se todos fossem iguais a auxiliar administrativa, as ruas de Rio Preto não teriam tantos bichos abandonados.

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ONG abriga sozinha 300 cachorros

Rio Preto não tem lugar público para abrigar animais sadios que foram descartados nas ruas. Para amenizar o problema, o Grupo Patas, ONG criada para cuidar de cães abandonados, mantém, com enorme dificuldade financeira, um alojamento canino há 11 anos. Atualmente, abriga 300 cachorros.

O canil tem animais abandonados em razão de graves problemas de saúde, cegueira, deficiência física e até idade avançada. São jogados nas ruas, sem qualquer cerimônia, como se fossem objeto que se tornou obsoleto. “As pessoas simplesmente não os querem mais”, afirma a presidente da organização, Silvana Carvalho.

Há cachorros abrigados desde o início do projeto. Não terão outra sorte. Do contrário, iriam para as ruas e provavelmente teriam um trágico fim. No mundo das adoções, cães velhos não chamam a mesma atenção que os filhotes, que ganham segunda chance com mais facilidade. O trabalho só é possível graças à ajuda de pessoas generosas, que doam dinheiro ou até mesmo o tempo para ajudar no trato da matilha.

Mas tudo é dificuldade. Só de comida, os cachorros comem duas toneladas de ração por mês, o que gera um custo de R$ 14 mil. Quem quiser colaborar com o projeto pode fazer depósito em nome da Associação Civil de Amparo dos Animais Abandonados – Grupo Patas. O CNPJ é o 123038340001-55. Banco HSBC, agência 1190 e conta 0031595.

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Fonte: Diário Web

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