A moral tradicional e o especismo elitista

O que venho denominando moral tradicional desdobra-se, desde os primórdios da filosofia grega, em especial desde a concepção de Aristóteles (Ética a Nicômaco, escrita por volta do ano 422 a.C.), em pelo menos duas vertentes éticas difundidas na cultura ocidental: o perfeccionismo, que afirma haver uma finalidade última (telos) que dá sentido a todas as formas de existência, e o principialismo racionalista (sistematizado em Fundamentação da metafísica dos costumes, publicado em 1785), representado pela ética do filósofo prussiano Kant. Tanto uma quanto a outra tendência afirmam que todo sentido moral se dá a partir de uma finalidade última, que é preciso buscar por meio da virtude (perfeccionismo), ou de ações que seguem rigorosamente um princípio moral reconhecido universalmente como válido (principialismo, deôntica). De qualquer modo, para haver ética é preciso haver sujeitos morais capazes de entenderem o alcance de uma ação moral e a finalidade para a qual se destina.

O problema com a moral tradicional, seja ela uma ética das virtudes ou deôntica, é adotar a perspectiva do agente moral como fim para o qual a ação moral deve ser praticada. O entendimento de conceitos abstratos para reconhecer um dever moral positivo (dever de ajuda, sustento, fomento) ou negativo (dever de abster-se de ações danosas a outrem) para os filósofos tradicionais, existe apenas em humanos, jamais em outras espécies animais. Os etólogos questionam a tese, a exemplo de Frans de Waal (Good Natured), mas os filósofos resistem em suas hipóteses racionalistas antropocêntricas. Com isso, os animais ficam fora do círculo da moralidade humana, ainda que sejam todo tempo pacientes morais, isto é, passíveis de sofrerem os desdobramentos das decisões de agentes morais, sem poderem defender-se delas.

Por entenderem que apenas humanos são capazes de um raciocínio no qual o bem de outro se torna prioritário e as ações são praticadas para que esse bem seja garantido a esse outro, ainda que nenhum proveito resulte delas para o agente, os filósofos morais tradicionais, tanto perfeccionistas quanto principialistas racionalistas, continuam a seguir a hierarquização das espécies vivas, insistindo em que a espécie que deve ser servida por todas as outras é a humana, porque é dotada de racionalidade. Entende-se racionalidade como a capacidade de compreender fins e discernir, entre os meios existentes, os que melhor se ajustam para o alcance desses fins. Sem tal capacidade o indivíduo não pode ser considerado racional, ainda que seja membro da espécie humana.

O peso da tradição moral está em nossas mentes. Fomos formatados por essas convicções morais. Hábitos morais são tão difíceis de serem substituídos quanto o são os hábitos dietéticos, porque hábitos morais têm sua sede na mente, a exemplo dos dietéticos. Enquanto o cérebro é estimulado por elementos químicos oriundos dos alimentos e também do ar que respiramos, formando um ambiente que inspira nossas ideias e crenças mais arraigadas, nossa mente é inspirada por emoções que resultam em crenças profundas determinando o que pensamos. (Russel Blaylock, Excitotoxins; Carol Simontacchi, The Crazy Makers; Daniel Amen, Change Your Brain Change Your Life; Neal Barnard, Breaking the Food Seduction).

Mas “abandonar um hábito é tão desagradável que é melhor mantê-lo” (Carol Ritberger, Cure-se), dá tanto trabalho introduzir algo novo em nossa vida cotidiana, ou retirar dela algum costume, que geralmente decidimos permanecer em estado letárgico, uma espécie de expectativa da morte, anunciada, seja por uma dieta danosa para a própria saúde (danos físicos), seja por incluir produtos e processamentos industriais lesivos a animais e ecossistemas naturais. Lesamos nossa capacidade moral quando alimentamos nossos hábitos de consumo sem investigar a moralidade do seu processo de produção e sua origem.

Se o que pensamos injeta sentido no que é pensado, o que nos recusamos a pensar, por outro lado, destitui de sentido o que permanece ignorado. Se pensamos que animais são feitos para o abate e seu sofrimento e morte não têm qualquer valor moral a ser considerado, os animais são vistos por nós como meros objetos de nossa exploração. Se nos recusamos a pensar sobre o tormento que causamos a eles quando consumimos produtos que contêm derivados deles, eles simplesmente não têm valor algum para nós. Mas, no hábito de nos deixarmos ser especistas elitistas revelamos o tamanho de nossa falta de ética em relação aos seres vulneráveis à exploração humana. A mesma matriz moral que nos habitua a não pensar sobre o quanto exploramos e atormentamos animais para extrair disso algum deleite para nossa vida nos leva a cultivar igual indiferença em relação ao quanto de tormento causamos a humanos, igualmente expropriados em seu bem-estar para nos propiciar deleites. Somos especistas elitistas. Esse é um hábito moral arraigado. Ou mudamos nossos hábitos, ou morreremos moralmente dessa morte que a ética crítica anuncia. Superar o especismo elitista ainda é uma via de transformação moral disponível.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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