A onda de emigração de Hong Kong tem deixado centenas de animais de estimação para trás

A onda de emigração de Hong Kong tem deixado centenas de animais de estimação para trás

Don Yip, um mecânico de aeronaves, é uma das milhares de pessoas que decidiram abandonar Hong Kong depois da implementação da nova lei de segurança nacional, em 2020, e as manifestações pró-democracia de 2019. Mas, ao contrário de tantos outros, não vai deixar os animais de estimação para trás.

Yip, com 40 anos, gastou mais de 14 mil dólares (cerca de 11.700 euros) para levar os quatro animais consigo para a Grã-Bretanha – três huskies e um gato –, onde se vai instalar com a namorada e a filha de 22 anos. “Os animais são parte da minha família. Eu não conseguiria lidar com o facto de os perder”, afirmou.

A onda de emigração causada pelas recentes políticas de Hong Kong, que podem levar à saída de dezenas de milhares de pessoas da região administrativa chinesa para a Grã-Bretanha, Canadá e vários outros destinos nos próximos anos, tem sido uma bênção para as companhias de realocação de animais de estimação. No entanto, também tem representado uma enorme perda para os residentes menos politizados da cidade.

Cada vez mais, animais de estimação têm sido abandonados por pessoas que, simplesmente, não conseguem pagar os custos da viagem ou encontrar companhias que fiquem com eles. Vários veterinários afirmam que os preços elevados, o cancelamento de voos e os procedimentos dificultados pela pandemia da covid-19 têm complicado a transferência de animais para outros países.

Alguns cães e gatos são deixados em abrigos, durante um máximo de seis meses, enquanto a documentação que lhes permite sair da região não chega, ao mesmo tempo que outros são diagnosticados como inaptos para viajar. A Cathay Pacific, uma companhia aérea com sede em Hong Kong, anunciou, em Março, que os animais de estimação não poderiam viajar na sua frota como bagagem ou em voos de carga que partissem da região – uma proibição que dura até Maio.

Várias pessoas têm tomado decisões abruptas de sair de Hong Kong, depois da imposição da lei de segurança nacional chinesa e da violência dos protestos de 2019. Algumas são estrangeiras que recentemente perderam os trabalhos para a crise económica provocada pela pandemia. “Todas estas pessoas não tinham como plano emigrarem tão cedo, não estavam preparadas para isto”, explica Okka Scherer, proprietária de dois canis na ilha Lantau de Hong Kong.

A China já afirmou que a nova lei de segurança nacional visa apenas uma pequena minoria de desordeiros e não vai afectar a autonomia e as liberdades garantidas à antiga colónia britânica, regressada à soberania chinesa em 1997.

Registos do Departamento de Agricultura e Pesca de Hong Kong mostram que a emissão de certificados de saúde de animais para a sua exportação cresceu 35%, entre 2018 e 2020. Já a Sociedade de Prevenção de Crueldade contra Animais (SPCA), que opera várias clínicas veterinárias em Hong Kong, afirma que a quantidade de microchips exigidos por países europeus, pela Austrália e Nova Zelândia quadruplicou ou quintuplicou, no mesmo período de tempo.

Tem-se ainda registado um crescimento de 30% no número de cães abandonados nos últimos meses – em média, 20 por mês –, de acordo com dados da Hong Kong Dog Rescue.

Jana Gray, uma cirurgiã da SPCA, afirma que a organização tem recebido um grande número de chamadas de pessoas que estão a ponderar abandonar os animais de estimação e que os funcionários da mesma estão a trabalhar arduamente para convencê-las a não o fazer. “Quando se adopta um animal de estimação, deve-se considerar que é algo para a vida.”

Fonte: Público / mantida a grafia lusitana original 

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