A outra face do Caminho de Santiago

A outra face do Caminho de Santiago

Por Laura L. Ruiz / Tradução de Nelson Paim

Faz anos que peregrinos do famoso Caminho de Santiago denunciam a quantidade de cães soltos, alguns abandonados e outros não, que existem em seu caminho pelas localidades galesas. A associação APACA denuncia a inatividade da administração que não oferece resposta frente aos avisos dos peregrinos sobre cães que necessitam de ajuda.

O Caminho de Santiago é um destino turístico localizado no norte da Espanha, parte de Portugal e França, que atrai milhares de peregrinos de centenas de nacionalidades. A imagem que estes levam para casa de sua experiência é vital para que na próxima temporada o êxito se repita, e sejam muitos mais os visitantes que mexam com a economia nas localidades pelas quais passam.

Uma parte deste êxito é que o Caminho de Santiago transcorra sem incidentes, justamente o contrário que ocorre quando se encontra a um cão abandonado.

Erika, uma italiana que fez o percurso em abril junto com amigas, lembra que encontraram a um filhote sozinho. Sua primeira reação foi chamar a polícia. “Disseram-me que neste momento iriam comer e que não tinham tempo para cães”, lembra. Depois chamaram ao abrigo de animais de Santiago de Compostela e obtiveram outra negativa. “Disseram-nos que tinham muitos cães e que não havia espaço para outros mais”, Explica Erika.

Xavi teve uma experiência similar a outros oito quilômetros de Arzúa, em La Coruña. Ali encontrou a um cão que quase e que segundo o próprio peregrino “apenas podia mover-se”. Quando lhe perguntam quem o ajudou, se mostra decepcionado. “Ajudaram-me dando-me comida e uma corda, ouros peregrinos que havia conhecido. Os aldeões do local somente diziam ‘ tenho pressa’, ‘vou trabalhar’ ou ‘que vai ser meu este cão’. Chamei três vezes a defesa civil e me disseram que já vinham. Mas estive cinco horas esperando ali e não apareceu ninguém”. Finalmente, como no caso de Erika, Xavi comentou com um amigo e juntos encontraram a APACA pela Internet.

Trata-se da Associação Protetora dos Animais do caminho que oficialmente foi fundada há um ano, mas que tem bastante tempo ajudando a peregrinos e, sobretudo, a animais abandonados ou perdidos. Maria e Fátima são duas mulheres comprometidas, incapazes de olhar para o lado quando um animal tem necessidades. “Nos chamamos assim porque a imensa maioria dos cães que resgatamos vem do Caminho de Compostela”, nos comenta Maria, que indica que começaram este trabalho convencidas de que o município de Arzúa lhes ajudaria nesta tarefa, já que desde Sarria até Santiago não tem nenhuma outra protetora ou refúgio que possa ajudar nestes casos.

Mas não fosse assim. “Lhes oferecemos um convênio aberto, para que participassem da maneira que pudessem, cedendo locomoção ou com apoio econômico, mas não temos recebido nenhuma resposta desde março”, ainda que, como ela explica, coincidindo com a campanha eleitora das comunidades autônomas da Galícia, parece que tem acontecido de ser um tema interessante. De fato, faz umas semanas o prefeito de Arzúa, o independente José Luis Garcia López, anunciou que reuniria as comunidades para buscar soluções no caminho francês.

Contudo, a APACA acredita no pior. “Esta suposta solução vai significar contratar a uma empresa que recolha e faça desaparecer os cães”, explica Maria, professora aposentada que animada por suas filhas mantém aos cães que resgatam tanto ela mesma quanto os peregrinos. “Uma resposta rápida que poderia reverter em votos, poderia ser inclusive pior”, lamenta e lembra que em muitas populações se tem denunciado que as empresas encarregadas deste serviço não têm como objetivo a adoção dos cães. Ela e sua companheira Fátima insistem na necessidade de criar um abrigo, gestionado pelos amantes dos animais que desejem dar uma segunda oportunidade a cães e gatos abandonados e em torno da localidade corunhesa de Arzúa.

O verão, a época mais negra do abandono

Tendo em conta que a APACA se mantém graças aos esforços de duas mulheres e de seus recursos econômicos, surpreende falar de números: 195 cães recolhidos, dos quais 25 foram recuperados de seus tutores e outros 55 adotados por terceiras pessoas. Os demais convivem em um grupo cuidado e protegido de atropelamentos, fome ou coisas piores. “A estes dados tem que acrescentar uns 45 casos a mais que não pudemos atender”, explica Fátima, a outra fundadora da APACA, que trabalha de noite e sacrifica muitas horas de descanso pelos animais. Contam com quatro mãos e dois carros e são muitas vezes que não se pode chegar a todas as partes, e menos no verão quando podem chegar a receber três ou quatro chamados por dia. Ainda assim, jamais olham para o outro lado. “Quando não podemos recolhê-los tentamos diversificar, olhamos pela área e mesmo pagamos os gastos veterinários que necessitam”, comenta Fátima, que suspira ao pensar em todos os casos que sequer chegam a elas.

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Um dos principais problemas que enfrentam na APACA é a quantidade de animais que recolhem e que realmente não estão abandonados. “Sempre levamos um leitor de chip no carro, é uma alegria se chegamos e vemos que tem identificação. Contatamos com os tutores e levamos a um lugar seguro até que venham busca-los”, comenta Maria, consciente de que quem não tenha vivido na Galicia rural se surpreenderá que a maioria dos cães estejam soltos nas ruas das cidades e voltem de noite para suas casas.
Uma idiossincrasia galega que surpreende a assusta a muitos peregrinos é que ou se preocupam com o bem estar animal ou tem medo de que os cães se aproximem demasiado deles. Por isto a APACA lançou uma campanha para pedir aos peregrinos que sejam responsáveis e não alimentem aos animais. “Lhes dão carinho ou alimento e eles vão com os peregrinos. Muitas vezes se desorientam e não sabem voltar”. O que acaba gerando um novo problema. Por isto lhes pedem que “não permitam que o animal vá com eles, mas se acabam indo com eles que chamem as autoridades”. Ou que os adotem uma vez confirmado que se trata de um cão abandonado.

Este é o caso de inúmeros peregrinos que contataram o APACA ao recolher um animal. Muito tem que chegar até Santiago de Compostela e não podem fazê-lo com o cão já que não são todos os refúgios para peregrinos que aceitam animais e no verão as opções de abrigo estão bastante limitadas. Por isto, alguns como Erika, pedem a Maria e a Fátima que cuidem do cão até que possam voltar para adota-lo. “Enquanto tenha uma casa e espaço vou adotar um cão da APACA”, assegura com firmeza a peregrina italiana. Além das dificuldades pessoais de cada um estão as dificuldades administrativas para que um peregrino estrangeiro possa levar com ele um cão ou gato galego. “Se estão decididos a adotar ajudamos nos trâmites legais e na preparação do animal”, comenta Maria. Já que às vezes supõe quarentena e, na maioria dos casos, vacinas, documentação e certificados de saúde.

Além do APACA enfrentar as denúncias de peregrinos que denunciam o maltrato animal pelas aldeias, existem os cães permanentemente presos, alguns feridos. “Parece mentira que o Caminho de Santiago, sendo patrimônio da humanidade, não se preocupe para dar uma melhor imagem com o tema dos animais”, se lamenta Maria. O mesmo que Xavi e Erika, que esperam que as autoridades o resolvam. “Alguém tem que fazer algo, o problema são as pessoas que não se interessam pelos animais”, conclui a peregrina. Há um abaixo assinado que já está com o apoio de 82.000 pessoas no Change.org que esperam que os políticos eleitos da comunidade também apoiem e que os municípios próximos se comprometam com a erradicação do abandono.

Fonte: El Diario

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