A protetora que cuida de 800 animais numa aldeia indígena de SP

A protetora que cuida de 800 animais numa aldeia indígena de SP
A protetora Goretti Tomé atua há 10 anos na proteção de animais (Fotos: Arquivo pessoal / Goretti Tomé)

O resgate de um cachorro em São Mateus, no extremo leste de São Paulo, foi o pontapé inicial para a mudança brusca que se daria na vida da enfermeira veterinária Goretti Tomé.

Há dez anos, ela estava em sua casa na periferia da capital quando ficou sabendo pela vizinhança que um cão abandonado circundava seu bairro e estava quase morrendo por decorrência de uma bicheira. Uma conhecida lhe contou que, toda manhã, o animal aparecia, doente e já cansado, em uma determinada praça na região. No dia seguinte, Goretti e seu filho decidiram levantar cedo com a missão de procurar o animal e tirá-lo da rua.

“Ele estava puro osso, a bicheira já tinha comido tudo”, conta. A recuperação de Bino – como o cão foi batizado –, sua primeira experiência com um resgate, fez com que ela nunca mais parasse de trabalhar pelos animais.

Além de Bino, 39 animais vivem hoje em sua casa – todos vítimas de maus-tratos no passado. Como se não bastasse o labor das tarefas cotidianas, a enfermeira ainda virou responsável pelo cuidado de cerca de 800 animais que vivem na aldeia Tekoá Pyau, uma reserva indígena no Jaraguá, no noroeste da capital paulista.

A trajetória de uma protetora de animais

Nascida em 1967 em Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo, Goretti sempre conviveu com animais. “Meu pai me presenteava com cães quando eu era criança”, relembra.

Seu amor e carinho com os bichos foram incorporados mais tarde na vida e nos gestos de seus cinco filhos, que têm entre 19 e 24 anos. Todos eles seguiram os passos da mãe e hoje trabalham com cães e gatos, em funções como tosador, banhista ou até mesmo atuando em clínica veterinária.

São eles que ajudam Goretti a cuidar dos 40 cães e gatos que vivem em sua casa, a quem ela chama de “animais especiais”.  Ivana, por exemplo, é uma gata que ela resgatou sem nenhuma das patas. A enfermeira acredita que as patas do felino foram utilizadas para um ritual de magia.

Tem também a Zoinha, que é cega, o Leandro, a Pipoca e a Roberta, todos paraplégicos, a Sukita, que não tem a patinha da frente, o Lulu, resgatado sem a língua, além de outros cães que já estão idosos, com mais de 15 anos de idade.

A gatinha Pipoca, que é paraplégica

“Todos que vivem comigo já foram vítimas de maus-tratos. Aqui em casa tenho animais sem dente, que tenho que alimentar e dar água na boca. Então, de um modo geral, não seria fácil conseguir adoção para eles”, diz.

Depois que adotou Bino, dez anos atrás, a enfermeira recebeu um convite para trabalhar numa clínica veterinária. Começou na limpeza dos animais e, depois de um tempo, passou a atuar no centro cirúrgico. Nessa época, começou a cuidar e a castrar os animais da região – segundo ela, quase todos que vivem nas ruas de São Mateus já foram castrados.

Depois, foi chamada para trabalhar no hospital veterinário público de Tatuapé, sem abrir mão do trabalho “extra” com animais de rua. De lá, a enfermeira recebeu um convite que mudou sua vida: a atuação em um projeto de dois meses no cuidado de animais na aldeia do Jaraguá.

Aldeia indígena

Localizadas ao lado do pico do Jaraguá, no limite de São Paulo, três aldeias indígenas resistem em meio ao descaso do poder público. Na maior delas, na Tekoá Pyau, vivem cerca de 1.400 índios guaranis, além de aproximadamente 800 animais – 580 cães e 190 gatos.

Há quatro anos, na primeira vez em que pisou ali para trabalhar na comunidade, Goretti ficou chocada com o que viu. “Tinham muitos cães, gatos, lagartos, coelhos e saguis no local. Muitos sem perna, sem orelha, abandonados. Era muito sofrimento”, lembra.

Goretti e o filho durante vacinação de animais na aldeia

Quando os dois meses de projeto se encerraram e o trailer onde trabalhava foi embora, a enfermeira decidiu continuar ali, mesmo que voluntariamente. “Cheguei à conclusão de que levaria anos para amenizar todo o sofrimento daqueles animais. Então acabei ficando. Eles precisavam de mim.” E é lá que está até hoje.

No começo, a protetora fez um trabalho de conscientização com os índios, dando palestras sobre temas importantes no debate animal, como a castração. “Eles não deixavam eu castrar os machos, só as fêmeas. Depois, foram entendendo a importância do meu trabalho”, conta.

Na aldeia, palestra de conscientização sobre direito dos animais

Hoje, 99% dos animais do local são castrados. “Só não são todos porque ainda tem muitas pessoas que vão até lá para abandonar os animais na entrada da aldeia.”

Dedicação integral

A rotina de Goretti Tomé é exaustiva. Todos os dias, ela acorda às 6h para cuidar dos animais de sua casa. Com a ajuda dos filhos, ela troca a fralda dos animais paraplégicos, dá remédio aos que precisam, faz limpeza e coloca ração.

Às 10h, ela sai de casa rumo ao Jaraguá, uma longa jornada de três horas de duração. Na aldeia, os índios reservaram a ela um pequeno quarto onde foi improvisada sua clínica de enfermagem. Após alimentar, resgatar os animais abandonados e trazer para o hospital os que estão doentes, ela volta para sua casa em São Mateus ao anoitecer.

É quando ela prossegue com as tarefas domésticas, tanto no cuidado dos animais quanto da família. Além dos cinco filhos, a enfermeira ainda é avó de três netinhos. “Vou dormir geralmente às duas da manhã. No dia seguinte, às 6, estou de pé de novo.”

Na porta esquerda, o quartinho onde Goretti atende os animais da aldeia

Sua motivação para não desistir? “Amor aos animais. Amo o que faço. Apesar da dificuldade imensa, eu sou capaz de tirar comida da minha boca para dar a eles. Pra eles, não deixo faltar.”

Para quem quiser ajudar Goretti doando ração, medicamentos ou dinheiro para as necessidades diárias dos animais, mande uma mensagem no inbox em sua página pessoal.

Por Fernanda Miranda 

Fonte: Catraca Livre 

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