A religião do prato

A religião mais fascista do mundo é a do prato animalizado, porque defende a vida de uns poucos cinco bilhões de humanos que comem animais e condena uns 70 bilhões desses à morte, a cada ano. Do dogma religioso do consumo de sangue, sim, carne, leite e ovos são matérias hematogênicas, feitas com sangue, não há Papa que tenha se abstido até a presente data, nem sacerdotes, desde os tempos de Davi, nem bispos de qualquer credo, nem fiéis de qualquer tonalidade sacral.

Como esperar que venha das vontades políticas, recheadas da energia mortal que é ingerida em cada bocado de carne e de queijo, uma decisão de abolir a matança de animais? Religião significa religação. Segundo a epigenética, cada bocado de comida que ingerimos religa todas as células do nosso corpo, incluindo os neurônios da área cognitiva, ao que é digerido e assimilado.

Se ingerimos todos os dias nacos de corpos de animais mortos para compor nosso prato, como religar-se à vida, poupando cada célula da mensagem violenta da morte? A mente não pode nos dar algo diferente do que oferecemos ao nosso corpo. Somos o que comemos. E se comemos essa estranha matéria, da qual tiramos a vida antes de a abocanhar, como esperar que dela venham as informações para que tenhamos coragem de abolir do nosso prato tudo isso e desassinar esse contrato religioso de baixa frequência espiritual, moral e material? Mesmo os animais estritamente carnívoros comem a carne ainda quente, escorrendo sangue, cheia de oxigênio. Somente os abutres comem carnes mortas há dias ou mesmo em decomposição.

Dos comedores de alimentos animalizados ainda recebemos apenas o levantar de ombros, a zomba, a irritante argumentação de que “possuímos caninos” e “fazemos parte da cadeia alimentar”.

Aliás, há quem se ache ocupando o topo da cadeia, porque vê que seu corpo nunca é comido por qualquer outro animal. E, jamais questionando o batido mantra carnista, a pessoa cega. Não quer ver que há milhões e milhões de espécies que não se alimentam de cadáveres. Mas escolhe duas ou três para espelhar-se, ignorando as diferenças anatômicas, fisiológicas e genéticas que permitem a uns animais comer qualquer coisa e dela tirar o que é essencial para se nutrir e manter vivo, e a outros, comer certas coisas e abster-se de outras, sem pôr em risco sua saúde e vitalidade.

Quem alega fazer parte da cadeia alimentar jamais explica para a outra pessoa que a vaca não é carnista nem carnívora, a ovelha, a cabra, o cavalo, idem. Por que será que essas pessoas insistem em citar o tal do elo da cadeia carnista, justamente comendo animais que não estão na linhagem dos carnívoros?

Não faz sentido algum alegar que comemos carnes porque somos parte de uma cadeia alimentar. Não há cadeia alguma entre a vaca, o cavalo, a cabra, a ovelha e o humano. Somos semelhantes a esses, porque podemos obter tudo o que precisamos alimentando-nos de plantas e de seus frutos. Quando comemos carnes, o que fazemos, na verdade, é quebrar a natureza, para expropriar desses seres as carnes que constituíam seus corpos. Matamos para roubar. Latrocínio.

Mas a pessoa quer continuar a defender que come esses animais porque está escrito em seus genes que é uma comedora de cadáveres. Mas então esses genes só estão nela, porque todas as veganas estão aí provando que tudo não passou de engano para nos forçar a comer o que o agronegócio inventou de produzir.

E há quem apele à vontade de divindades para justificar a comilança e na sequência, a matança para outros fins. Para isso, usam uma das passagens do Gênesis, ocultando que essa passagem se refere somente a algum momento de escassez de vegetais, o momento pós-diluviano. Omitem que na passagem antediluviana a ordem divina foi vegana, do tipo: aí está o celeiro completo, com todos os grãos, cereais, sementes, frutos e frutas, tubérculos, raízes e folhas, para que todos vocês (essa ordem não foi especista, incluiu todos os animais) possam obter todas as proteínas, vitaminas, minerais e seja lá qual for o nutriente necessário para manter vivos e vitalizados os tecidos de seus corpos.

Em nenhuma das teogonias que já tive oportunidade de estudar encontrei uma instrução ou ordem divina para usar os corpos das fêmeas animais como meios para reprodução em massa de outros animais, para ter abundância na hora da chacina. Se uma divindade dessas existe, tô fora. Sem discriminação de rito na hora da matança. Todos os animais são iguais. Nenhum animal quer ser morto intempestivamente, inclusive os que matam os outros a rodo, a qualquer pretexto, seja da religião do prato, seja dos pátios ou dos átrios.

Por Sônia T. Felipe

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