A terapia de choque na educação – parte 2

A terapia de choque na educação – parte 2

Por Ellen Augusta Valer de Freitas

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Para falar de temas polêmicos em sala de aula é preciso ter jeito. Pois estes assuntos provocam os ânimos, as ideias e as mentes das pessoas das mais diversas formas. Sempre se deve começar com uma conversa informal para ir sondando os conhecimentos dos alunos e ver o que eles pensam desses temas.

Também é importante que se tenha confiança no professor; para tal este deve se dar ao respeito sempre. Se não há firmeza nas ideias do professor e em suas atitudes, dificilmente o que for dito em sala de aula vai ser levado a sério. Hoje temos milhões de coisas mais interessantes do que a sala de aula. Temos celular, computador, Ipod e todas essas tecnologias, por isso o desafio de ser original.

Depois de introduzir o assunto e provocar a discussão dos temas ligados ao vegetarianismo, ao direito dos animais e aos temas concernentes a tais assuntos, o melhor é ir mesmo para a prática, pois nela que o sujeito verá a gravidade e o fascínio que esses temas provocam.

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Comecei o trabalho em diversas turmas de forma simultânea, mas em cada uma abordei um tema diferente sobre o mesmo assunto. O que culminou com uma mostra de diversos filmes sobre direitos dos animais: Não Matarás, Terráqueos, A carne é fraca, Alimentação para uma nova América, Lisa: a vegetariana, Super Size Me – a dieta do palhaço e outros que não lembro agora, entre pequenos documentários complementares. Note que, se quisermos, podemos introduzir este tema em qualquer outro assunto, pois ele é ligado de muitas formas a outras coisas. No filme Osmose Jones, uma animação que mostra o interior do corpo humano atacado por um vírus, o personagem Frank Pepperidge (Bill Murray) é daqueles que comem muita besteira e muito “frango frito”. Pode-se muito bem aproveitar a dieta desse personagem para discutir o que é a alimentação saudável. Basta um pouco de imaginação e boa vontade.

Ao fim da mostra, também trabalhei com eles alguns temas polêmicos, como a questão das carroças na região metropolitana. Um tema que, conforme uma aluna comentou, nunca foi tocado na sala de aula! Impressionante como a escola vive separada da realidade e, no que se refere aos animais, isso é gritante.

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As diversas faces do sofrimentos dos animais são temas também de meio ambiente, como é o caso do abandono de animais nas cidades, que causa doenças e aumento da população destes. Tais assuntos estão muito relacionados às políticas de educação ambiental e devem ser abordados. A Lei que proíbe carroças em Porto Alegre também foi estudada como um exemplo de cidadania, onde podemos ver a demanda da população por esta questão, os problemas ambientais de se andar com cavalos na zona urbana e também o sofrimento desses animais e medidas possíveis.

No projeto que criei chamado “Pecuária e aquecimento global”, mostrei informei os alunos sobre as consequências ambientais, políticas e éticas da criação de animais para consumo, e sua relação com o aquecimento global. Isso causou espanto não somente aos alunos, mas aos meus colegas, que também desconheciam essas novidades.

Na época, a escola estava com um projeto maior sobre aquecimento global, por isso foi mais fácil para os alunos correlacionarem estes temas com as coisas aprendidas na minha disciplina. Muitos achavam que a criação de gado era algo distante da nossa realidade, mas uma análise bem rápida já nos mostra que todos nós contribuímos para isso. De maneiras diretas e indiretas, com o governo fomentando (entenda-se por ‘dar dinheiro a’) negócios nem sempre claros (como é o caso das fazendas irregulares da Amazônia). O que ficou bem claro é que, quando se fala em evitar o desmatamento, a poluição, o desperdício de água, não adianta apenas fecharmos as nossas torneiras. Devemos fazer isso e muito mais. Cuidar onde estamos colocando nosso dinheiro, o que estamos colocando em nosso prato também.

Por fim, convidei o Rafael Jacobsen, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira – Porto Alegre, para dar uma palestra para toda a escola sobre vegetarianismo. Após seria visto o filme A carne é fraca. Pensei nisso pois uma palestra com alguém “de fora” é bem mais aceita do que de alguém que eles já conhecem. Também colocaríamos o tema para todos os alunos, já que eu não dava aula para todas as turmas do colégio.

A palestra teve a melhor repercussão possível. Os alunos adoraram o ótimo jeito de palestrar do Rafael, fizeram muitas perguntas, elogiaram muito a palestra e o filme. A palestra até saiu no Jornal Vale do Sinos, em que deixei bem claro: é obrigação do profissional de Biologia informar que o consumo de carne contribui para o aquecimento global.

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Uma coisa fica bem clara nesta experiência que tive: dar aula é ótimo, mas falar de algo que nos apaixona é melhor ainda.

E quando temos apoio da escola é muito mais fácil, coisa que tive desde o início lá onde trabalhei.

Se acreditamos nesta ideia, não podemos nos esconder e deixar que as coisas erradas continuem como estão. Devemos dizer não, nos arriscar, falar o que nos corta por dentro. Só assim faremos nossa parte como veganos, como quem tem compromisso com sua moralidade. Como nos disse Sonia Felipe em seu artigo, a única forma de sermos éticos é sermos radicais. Muitos filósofos foram “radicais” em sua época ao defender suas teorias, e hoje são estudados e até mesmo “idolatrados” pelos mesmos que nos chamam de “radicais” de maneira pejorativa. Está na hora de minar essa maneira pejorativa (que mais é uma forma de se defender por meio do rótulo do radicalismo) e adotar a maneira correta de viver: de acordo com princípios elevados e que incluam os animais.

O resultado disto é que, por meio de nosso exemplo, possamos mostrar a outras pessoas que é possível viver em um mundo mais justo.

Fonte: ANDA


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