Abençoando a carne que come?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Realmente, a gente vive e vai se dando conta de quão variadas são as formas de hipocrisia. Não escrevo humana, depois de hipocrisia, porque é redundante. O Natal está chegando*, e em quase todas as mesas haverá um animal morto assado e enfeitado, em volta do qual muitos unirão suas mãos e darão e pedirão bênçãos para seus corpos vivos, fingindo que o fazem sem perceber a presença de um corpo morto, o do animal de quem a vida foi tirada para o propósito “natalino” (do nascer, e não do morrer, porque aí seria Sexta-feira da Paixão) humanos.

Quem uma pessoa se julga, quando abençoa os pedaços de carne que “escolhe” pôr em seu prato, se existem alimentos ricos em proteínas vegetais para compor sua dieta?

Faço essa pergunta, porque intriga-me, para não dizer, repugna-me o gesto hipócrita. Qual é a benção que pode sair das mãos de alguém que mata para comer, ou melhor, paga para que outras pessoas matem animais, quando essa mesma pessoa está afogada em dinheiro, e pode comer muito bem, sem precisar matar mais ninguém?

O gesto de colocar as mãos sobre o corpo de outro ser vivo, para “abençoá-lo”, quando feito de modo sincero, canaliza energia ou luz para aquele corpo, como uma “recarregada” de forças para que ele não perca sua ordem físico-química, sem a qual a vida, biologicamente falando, não pode acontecer. Todas as terapias de imposição de mãos baseiam-se nisso.

Mas, impor as mãos sobre pedaços de cadáveres serve a qual propósito, mesmo?

Nossas mãos são dínamos capazes de produzir energia, de armazená-la, e de retransmiti-la para outros corpos à volta. No Reiki, pode-se fazer isso, mesmo à distância, desde que o alvo esteja bem definido, identificado. Energia só tem sentido para manter algo vivo. Matéria morta já não contém energia para autoprover-se, para sustentar as funções celulares, para renovar a nutrição. Matéria morta pode produzir gases, que poderão ser canalizados para gerar energia elétrica. Matéria morta também pode servir de adubo para ajudar plantas a nascerem. Mas, na realidade do organismo humano, não há nada que um pedaço de matéria morta tenha, em termos de nutrientes, que não possa ser encontrado em alimentos de origem vegetal.

Assim, injetar energia sobre pedaços de cadáveres, colocando as próprias mãos sobre eles, antes de começar a mastigá-los, em nada contribui para que esses pedaços voltem a se recompor e agregar-se outra vez, formando o corpo do animal que foi assassinado e cortado para ser levado ao prato de humanos. Uma vez morto, morto para todo o sempre! Os humanos que os comem, na maior parte das vezes, dizem-se superiores aos demais animais. Crêem que sua energia é mais refinada. E, dispondo de comida suficiente e farta para se nutrirem, não têm a menor necessidade de tirar a vida alheia para se manterem vivos ou saudáveis.

Impor as mãos sobre pedaços de carne no prato, alegando que o faz porque esses pedaços de matéria, agora sem energia, foram, no dia anterior, parte do corpo de um animal que estava vivo e não buscou a morte por suicídio, é pura hipocrisia. Finge um respeito pelo animal, que, de fato, não é cultivado. Quem respeita não mata.

Hipocrisia, em primeiro lugar, porque quem o faz julga-se espiritualizado. Mas, pessoas espiritualizadas de verdade não se alimentam de cadáveres. A matéria morta emite uma frequência muito baixa, e, quando fotografada com o método Kirlian, sua aura é acinzentada. A única atividade da carne morta é a da cadaverina, o hormônio cuja função é produzir a separação dos tecidos para que eles se decomponham rapidamente, pois já não têm nenhum sentido permanecerem “ligados”, quando a vida já se esvaiu deles.

Vida é ligação, como o amor é vinculação recíproca. Os que buscam uma atividade espiritual, buscam justamente algo menos denso e carregado. Buscam luz e não gases, buscam algo muito além da densidade e da fermentação cadavérica. A atividade espiritual afasta-se da carne morta, embora seja realizada pela mente num corpo vivo. Esse se nutre de luz, presente nas nuances das cores dos vegetais e frutos, que sintetizam a energia solar e preservam seu calor no organismo de cada animal que se alimenta deles.

Em segundo lugar, a hipocrisia é visível, porque exatamente quem “abençoa” seu prato com os restos mortais do animal é exatamente quem “paga” para que os animais sejam assassinados, quem transforma a vida deles, que antes fluía num corpo receptor e emissor de luz e calor, o único bem que os animais possuíam, em destroços materiais frios, cadavéricos.

Em terceiro lugar, porque a pessoa que ingere cadáveres e impõe suas mãos sobre eles para abençoá-los nada mais faz do que representar para si mesma uma “santidade” que não possui.

Em quarto lugar, porque a energia que flui das mãos de uma pessoa que pratica a violência contra os animais, ou paga para que outras sujem suas mãos fazendo isso, e come-os, não tem poder algum de “iluminar” ou “revitalizar” a carne morta, fazendo esse gesto sagrado, muito menos poder para “perdoar-se” por sua hipocrisia moral.

Quem perdoa a gente é a vítima que sofre o mal que fazemos a ela. Não adianta recorrer ao animal morto, pedindo-lhe mil perdões por tê-lo tirado da vida, quando não se tem um argumento sequer, capaz de fazer com que esse animal aceite o ato letal como justo, ainda mais quando o ato de comer animais parte de pessoas que dispõem de dinheiro para se alimentar com matérias nutritivas de origem vegetal, não de pessoas que ganharam o prato de comida por esmola.

Enfim, abençoar a carne morta, antes de ingeri-la, não resulta, de modo algum, em qualquer benefício para o animal morto, ou para seus companheiros que já se encontram no corredor da morte para chegar, pela mesma via brutal, ao prato dessa pessoa tão “espiritualizada”, na refeição seguinte. Mas, de hipocrisia em hipocrisia, muitos humanos tornam-se milionários. Primeiro desfilam com peles de animais, depois, para mostrarem que são o que de fato não são, tornam-se “ambientalistas”, e, por fim, quando fica cada vez mais difícil aguentar as trincadas de sua moralidade hipócrita e obsoleta, passam a rezar para os pedaços de carne que escolhem conscientemente colocar em seus pratos.

Pessoas assim, hipócritas, até merecem a energia ruim que os cadáveres carreiam para dentro dos corpos delas. Mas, infelizmente, os animais “não merecem” ser mortos e seus corpos picados em pedaços para que gente super bem nutrida encontre neles as proteínas que abundam nas matérias vegetais, aliás, proteínas que são dadas como alimentos para os animais, e que poderiam ser ingeridas pelos humanos, com resultado nutricional muito mais saudável do que resulta da ingestão de carnes.

Então, carnívoros, se não querem parar de comprar pedaços de carnes de animais, para atender os apetites de baixa frequência, pelo menos não venham com essa de “abençoar” os nacos de cadáveres, quando eles já estão no fundo do seu prato. A única imposição de mãos que faz sentido, é para reordenar o fluxo de energia vital que percorre todas as células do corpo de um animal ou de um vegetal, vivos. Se alguém impõe suas mãos sobre um cadáver, em vez de ressuscitá-lo, o que faz é captar a energia de baixa frequência que esses restos mortais emitem. Boa sorte, então! Mas, insisto, pobres dos animais, que, além de terem sido ceifados da vida para atender a apetites triviais, ainda têm de aguentar, do outro lado, os pedidos de “perdão” de seus matadores. Vamos combinar uma coisa? É muita hipocrisia moral, não?

Fonte: ANDA / * artigo publicado em 22/12/2011 


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