Adoção de animais da Prefeitura de SP sofre redução de 48% em 10 anos

Adoção de animais da Prefeitura de SP sofre redução de 48% em 10 anos

De pelagem preta e com as quatro patas amareladas, a vira-lata Tulipa circulava, todos os dias, pelas ruas de Higienópolis, bairro nobre na zona central de São Paulo, à procura de seu dono. A cadela de médio porte cheirava outros focinhos e, às vezes, deixava ser acariciada por humanos que na região transitavam. No último 8 de agosto, porém, seguiu um deles – mal sabia que o jovem seria a ponte entre a rua e o seu futuro lar.

“O meu amigo percebeu que a cachorra estava o seguindo, daí ele decidiu levá-la para o trabalho, onde deu banho e comida”, lembra o cabeleireiro Raphael Sartori, de 32 anos. A novidade de um cachorro em suas mãos fez com que os amigos trocassem mensagens, a fim de encontrar o responsável pela vira-lata e, enquanto isso, providenciar os cuidados que o bicho necessitava.

Naquela noite, a cadela dormiu na casa de Sartori. No dia seguinte, na casa do amigo. No outro, voltou para o apartamento do cabeleireiro. A alternância de lares durou cerca de duas semanas – mesmo período em que os amigos fizeram uma campanha para acharem o responsável pela Tulipa. “Espalhamos cartazes pelas ruas dos bairros adjacentes, como Santa Cecília, Vila Buarque, República, além, é claro, do Higienópolis”, conta. “Mas nada.”

Foi aí que o cabeleireiro tomou a decisão de abrigar a cadela, que era um desejo antigo. “Eu resolvi adotar. Eu queria um cachorro havia muito tempo, aí ela apareceu e foi a oportunidade de acolhê-la”, diz. Desde então, o lar de Tulipa, oficialmente, tem um CEP: 01242030.

É comemorado, nesta sexta-feira 4 de outubro, o Dia Mundial do Animal, mas a Prefeitura de São Paulo tem visto a adoção de animais sob seu comando perder fôlego ao longo do tempo. No ano de 2008, 1.102 bichos foram abrigados. Dez anos depois, em 2018, 568 animais receberam um novo lar – o que significa encolhimento de 48%.

No ano de 2009, 1.181 bichos. Seguido de 1.148, em 2010. No ano subsequente, foram adotados 1.095. O número sofreu um aumento para 1.253, em 2012. No ano seguinte, 1.343 bichos. Em 2014, 1.295 animais foram adotados. No ano posterior, 1.205 bichos, seguido de 1.137 cães e gatos. Em 2017, 662 bichinhos e 568 em 2018. Neste ano, por sua vez, 328 animais – o número é puxado por janeiro, mês que se protocolou registros de adoção 56 vezes.

Antes de levar o animal para a casa, o solicitante precisa pagar uma taxa, um dos requisitos da adoção regulamentada pela administração municipal. No ano de 2014, o órgão arrecadou, sob o preço de R$ 17,15 por animal, R$ 22.209,25. No ano seguinte, com custo de R$ 18,50 – acumulou, ao todo, R$ 22.292,50.

Em 2016, mediante ao pagamento de R$ 21, o órgão lucrou R$ 23.877,00. No ano subsequente, R$ 13.902,00 foram arrecadados com a adoção sob o mesmo valor do ano anterior. Em 2018, por sua vez, a taxa individual era de R$ 25,20, o que resultou em R$ 13.688,80. Neste ano, a administração amparou 328 bichos, arrecadando R$ 8.265,60. A diferença entre os valores apresentados no primeiro e último ano é de 38%.

“Muitos animais chegam aqui atropelados, inclusive já sem as patas. Nós fazemos, então, todo um tratamento a fim de melhorar o mais rápido possível o quadro de saúde”, conta Leda Maria Ponti, veterinária que atua no Centro de Adoção da Prefeitura de São Paulo. “E essa condição se torna um agrave para muitos no momento de escolher o cão ou gato”, diz. O preconceito contra animais deficientes ainda é uma questão, reconhece Ponti. “São animais que precisam de um lar, e não de uma opinião intolerante.”

O cabeleireiro vai além. “Não vejo com bons olhos a pessoa que vai adotar e procura um cachorro de raça. Eu conheci a Tulipa, por exemplo, quando estava na rua, então passou por situação de abandono e descaso. Nesse caso, tudo o que ela precisava era de amor, de lar”, argumenta.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que, em 2008, foi instituída a Lei 12.916, que proíbe a eutanásia de animais saudáveis, “o que gerou aumento do número de animais alojados, redução do número de vagas disponíveis para remoção de novos, bem como necessidade de priorização na remoção dos animais que representassem risco à saúde pública”.

O órgão disse, também, que nesse contexto houve “uma alteração no perfil de animais removidos pela Divisão de Vigilância de Zoonozes entre os anos de 2008 a 2018, sendo a maior parte cães com histórico de agressão”. Para este perfil, além de não haver grande procura por parte da população, são necessárias diversas ações para socialização a fim de que a reinserção do mesmo se dê de forma segura na sociedade, aumentando o tempo de permanência na instituição. Além disso, tem-se priorizado a remoção de gatos que apresentem doenças de importância em saúde pública, a exemplo da esporotricose, para a qual são necessários meses de tratamento, retardando sua liberação para adoção.

Saiba como funciona o Centro de Adoção

O interessado em adotar um cão ou gato deve comparecer pessoalmente ao Centro de Adoção, localizado na rua Santa Eulália, n° 86, em Santana, na zona norte da capital paulista. O atendimento é realizado de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados das 9h às 15h – o serviço não é prestado aos domingos e feriados.

No local, é necessário ser maior de idade e apresentar CPF, RG, comprovante de residência, coleira para cães e caixa de transporte para gatos. Além disso, o solicitante deve efetuar o pagamento da taxa, neste ano sob o valor de R$ 23.

Os adotantes passam por uma entrevista, feita por funcionários do setor de adoção, para apresentar animais que tenham o perfil. Após a aprovação, recebem informações sobre guarda responsável e demais orientações específicas sobre o animal.

Desde agosto de 2008, o Centro de Zoonoses conta com um site, que reúne mais de 130 cães e gatos. Na plataforma, o interessado confere características e informações sobre o comportamento de cada um. É possível, também, filtrar a busca que melhor se adequa ao seu perfil. Todos os animais disponíveis para adoção são vacinados, castrados, microchipados, tratados contra pulga e carrapato, vermifugados e avaliados rotineiramente em relação ao seu comportamento.

Por Plinio Aguiar

Fonte: R7

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