Alice cresceu numa quinta de dor. Transformou-a num santuário de amor com 130 animais

Alice cresceu numa quinta de dor. Transformou-a num santuário de amor com 130 animais
É um pequeno paraíso.

Foi com Simba a ladrar à porta que fomos recebidas na Animal Save & Care Portugal. Assim que o portão de madeira abriu, dando acesso a um caminho de terra com divisões em ambos os lados, conhecemos a entrada do pequeno universo que é a organização de resgate sem fins lucrativos em Palmela, fundada por Alice Basílio e Noel Santos. Ali, não são cães e gatos que ganham uma segunda oportunidade — embora sejam também bem-vindos.

Victor, um porco rosa que chegou com uma semana de vida, foi um dos primeiros a cumprimentar-nos, acompanhado de Beatriz e Álvaro, dois porquinhos pretos. Bastou a presidente baixar-se e fazer-lhe festinhas na barriga, para Victor, hoje com dois anos, se deitar. “Eles ficam logo relaxados”, conta-nos, explicando que é pela barriga que os suínos são conquistados.

O trio de porcos é constituído por apenas três dos cerca de 130 animais que a associação acolhe atualmente. Há sempre uns a entrarem e a saírem, e Alice confessa que já não sabe, ao certo, o número exato. Cada um tem o seu espaço e as voltinhas pelo terreno são sempre organizadas de forma a deixá-los confortáveis. “Os porcos são animais muito territoriais”, sublinha. E para evitar discussões, são divididos em famílias.

Todas as cercas, casotas de madeiras e diferentes espaços foram construídos de raíz por Noel. Desde o início, o casal opta por materiais reutilizáveis para minimizar os custos. “O desafio constante é sempre arranjar fundos para levar isso para frente”, afirma. “Mas isso é sempre a mesma história em todos os santuários. Todos têm de comer todos os dias e comem muito. Temos de criar melhores condições o tempo todo”, refere.

A quinta pertence aos Basílio há 60 anos e nem sempre foi um lugar de amor. Durante várias décadas, era ali que os suínos, bovinos e aves eram mortos para serem vendidos à indústria ou consumidos. Ainda agora, com o santuário constituído há três anos, existem resquícios de um passado doloroso para muitos.

“Do outro lado, tem toda a exploração que não foi limpa nem cuidada”, partilha. “Tem lixo de décadas, muito plástico no chão, muita negligência em todos os aspetos. Esta terra foi sempre usada para agricultura com agrotóxicos, por isso nunca foi preservada em nenhum nível”. Na parte que já conseguiram recuperar, têm um horta, de onde tiram “muita comida”.

“Inicialmente, este espaço era só formiga, não tinha vida nenhuma. A única vida era das formigas”, brinca. “Hoje, faz-se um buraquinho e aparecem logo minhocas e outros bichinhos que já voltaram. Foi muito rápido, mesmo assim, a recuperação da terra porque estamos a ajudá-la. Não tinha árvores, não tinha nada. Fomos nós que plantamos”.

Noel construiu tudo de raíz.
Noel construiu tudo de raíz.

“Vinha à suinicultura, via os bebés e achava fofinhos. Mas depois ia comer entremeada”

Desde miúda, Alice estava habituada a distinguir os cães e os gatos dos “outros animais para comer”. “Isso era bastante presente em mim”, recorda. “Não me custava porque a cultura está tão enraizada em nós quando vivemos com isso, que não era chocante. As matanças de porcos também não eram porque aquilo fazia parte da minha existência”.

Na adolescência, começou até a trabalhar ao lado de associações para ajudar os patudos. “Sempre gostei de animais, de cães e gatos, que eram os animais, os outros eram para comer. Vinha à suinicultura e via os bebés e achava fofinhos mas depois ia comer entremeada”, frisa. Foi só aos 19 anos, quando saiu de Portugal, que começou a ver a vida com outros olhos.

Durante mais de uma década, esteve em França, Alemanha e Reino Unido e foi esta distância que a permitiu mudar e “fazer mais por todos”. “Já ajudava cães e gatos, já trabalhava com associações. Não fazia sentido nenhum causar sofrimento a todos os outros”.

Pouco antes de voltar para o País, ingressou no universo da Animal Save Movement, uma organização internacional que junta ativistas ao redor do mundo. “Estive 12 anos fora e quando voltei, foi para trabalhar a tempo inteiro para os animais”.

No início, ao lado de Noel, que conheceu na rua durante uma manifestação em nome dos direitos animais, só reabilitavam os animais. “Resgatávamos e encontrávamos espaços temporários para os colocar e depois, adotantes permanentes”, diz. Mas percebeu logo que tinham de ir mais além. “Tornou-se incomportável porque depois, as pessoas fartavam-se deles”.

Há cerca de quatro anos, avançaram com o santuário. “Não é imediato encontrar famílias porque não é qualquer pessoa, leva tempo. Não podemos dar a qualquer um porque correm o risco de serem mortos”, aponta. “Tornou-se difícil demais e decidimos que deveríamos ter o nosso espaço que era para não ter esse problema e para estarem sempre em segurança”.

Os primeiros a serem acolhidos foram três porcos. Entre eles, a mãe de Amor, um porquinho que cabia nas mãos dos fundadores e que hoje, aos dois anos e meio, pesa cerca de 200 quilos. “Tirámo-lo da ninhada porque ele ficou doente na primeira semana, teve uma lesão numa das pernas e com a quantidade de bebés que havia, não conseguia comer”, recorda. “Estava a ficar para trás e tivemos de o retirar se não ele ia morrer à fome”.

As três irmãs de Amor à espera da comida
As três irmãs de Amor à espera da comida

Entre homenagens, criam-se amizades

A 19 de junho de 2020, a ativista canadiana Regan Russell, de 65 anos, morreu atropelada por um camião de transporte de suínos enquanto participava de um protesto em frente a um matadouro em Ontário. A tragédia marcou a comunidade de defesa dos animais, mas para a Animal Save & Care Portugal, um ano mais tarde, trouxe esperança.

Na mesma data, Amor e as três irmãs vieram ao mundo. Alice e Noel haviam resgatado a sua mãe, pai e outra porca. Quando decidiram ficar com os quatro filhotes, sabiam que tinham de encontrar um espaço para os por. Foi aí que tudo começou. Regan, Russell e Kika, as “manas” do gigante, foram batizadas em homenagem à ativista e, ainda hoje, são inseparáveis.

Amor, por outro lado, tem de ser mantido longe. Quando bebé, foi alimentado a biberão pelos fundadores e como resultado, não foi reconhecido pelas irmãs. Porém, por vezes, comunicam-se através da cerca que o separa e o que não faltam são amigos do lado de cá.

No fim do dia, na hora da alimentação, vão todos à loucura. E os “porquinhos” de 200 quilos são os mais barulhentos — soltam a voz e não há como ignorar. “Eles sabem a hora certa”, sublinha. “Já perderam peso porque estou a por todos na dieta. Estavam ainda maiores”, brinca.

Além dos maiores, há os pequenotes, como João e Ana, os namorados que se conheceram no santuário. “São mesmo um casal porque eles amam-se e andam à porrada o dia todo”, partilha, entre risos. “Resmungam sempre um com outro mas depois andam sempre juntinhos. Para onde vai um, vai o outro”, acrescenta.

João (esquerda) e Ana (direita).
João (esquerda) e Ana (direita).

Joaquim, o porco vietnamita do Barreiro que viveu anos na rua, tem também a vida que sempre quis. E até ganhou amigos: Amélia e Oscar, que chegaram mais tarde. “O Joaquim é totalmente amigável com toda a gente. Não acho que ele sabia ser um porco”, confessa. “Não falava nem se comunicava com eles. Não sabia muito bem o que estava a passar”.

O trio de porcos fica no mesmo sítio e, apesar dos problemas na coluna, Joaquim chega a dar umas voltinhas e adora fazer a sesta com Amélia. “Agora é só dar paz e sossego”.

Do outro lado, há um espaço para as aves. Os patos e as galinhas vivem todos em harmonia. Elvis, a estrela da casa, hoje adora meter-se entre as pernas dos visitantes para pedir colo. Já Gaia, uma gansa com uma das patas ao contrário e o mais recente resgate da Animal Save & Care, ainda está a habituar-se ao ambiente.

Nos equídeos, Alma continua a ser a celebridade e nunca deixa a deficiência numa das patas a impedir de andar aos saltos. A égua Lusitana está também sempre atenda a tudo o que acontece. Já Matilde, uma mula de 30 anos, é uma velhota que só quer tranquilidade depois de vários anos a sofrer maus-tratos.

Duarte, o cabrito salvo pela falecida mãe, a cabra Helena, agora encontra conforto em Bella, que adora dar “marradas de amor”. Juntos com a dupla, ficam Gil e Amado, dois bodes loucos por atenção. Ali, por todo o terreno, criam-se amizades, novos amores e famílias. Se o ditado “a união faz a força” ainda não existisse, teria de ser criado para a Animal Save & Care Portugal.

Em seguida, carregue na galeria para conhecer o santuário e alguns dos seus animais.

Por Izabelli Pincelli

Fonte: Pit / mantida a grafia lusitana original

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