Alternativas livres de crueldade para peles de animais ganham apoio de compradores, mas indústria ainda prega sustentabilidade e garantias de bem-estar animal

Alternativas livres de crueldade para peles de animais ganham apoio de compradores, mas indústria ainda prega sustentabilidade e garantias de bem-estar animal
A cantora britânica Billie Eilish, vegana e defensora dos direitos dos animais, usou um vestido de Oscar de la Renta para o Met Gala em Nova York depois que a grife concordou em parar de usar peles de animais em seus modelos. Foto: AFP

As bolsas enfileiradas nas prateleiras têm a aparência e o toque de couro, mas seu material pode surpreender alguns.

As peças são feitas à mão com Piñatex, um couro alternativo feito com a fibra das folhas do abacaxi. Na verdade, tudo o que é vendido na loja virtual The Lovely Things em PMQ, no distrito central de Hong Kong, é feito de couro alternativo.

“Existem diversas alternativas de couro surpreendentes, inovadoras e sustentáveis”, diz Monica Chim, fundadora da The Lovely Things.

Ela elabora uma lista: Piñatex, Malai (feito de resíduos de água de coco), couro de vinho (feito de casca de uva e fibras de sementes), AppleSkin (feito com resíduos recuperados da indústria de sucos de frutas) e Muskin (feito de cogumelos).

Monica Chim, fundadora da Lovely Things.
Monica Chim, fundadora da Lovely Things.

Chim, que em 2020 relançou em Hong Kong sua marca vegana aprovada pela organização PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), está atendendo a uma mudança crescente nos hábitos de compras do consumidor.

Assim como dietas sem crueldade e à base de vegetais têm ganhado força, os consumidores estão adotando cada vez mais a mesma mentalidade para suas escolhas de estilo. Em setembro, a organização global de bem-estar animal Four Paws divulgou os resultados de uma pesquisa onde mostra um aumento na demanda por roupas e acessórios sem crueldade.

A pesquisa YouGov, realizada com mais de 13.500 pessoas na Europa, África, América do Norte e Austrália em janeiro de 2020, mostrou que 86 por cento dos participantes querem que as empresas façam da proteção animal prioridade ao lado de metas ambientais e sociais.

“Os resultados da pesquisa mostram que os consumidores esperam cada vez mais que as marcas garantam o bem-estar dos animais usados em suas cadeias de suprimentos”, disse Jessica Medcalf, especialista da Four Paws em bem-estar animal na moda.

“Embora os resultados sejam encorajadores, precisamos que mais pessoas estejam cientes da crueldade contra os animais ao comprar têxteis, além de mais transparência nas cadeias de fornecimento de animais e alcançar bons resultados de bem-estar animal com uma redução no uso de materiais derivados de animais em geral”.

 
 
 
 
 
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Descendo a rua da loja em PMQ, na Central’s Hollywood Road, está a Aanya, uma lojinha boho-chic que vende roupas e acessórios produzidos de forma ética e sustentável.

“Os consumidores de hoje são muito mais experientes e antenados”, diz Ishita Desai, fundadora da Aanya. “Eles querem saber onde suas roupas são feitas, quem as fez e se sua produção envolveu crueldade.

“Há uma loja no TST [Tsim Sha Tsui], no bairro comercial nobre, que vende peles. É enorme, assim como o preço. Não tenho ideia de quem ainda está comprando peles.” A resposta está na fronteira com a China.

Ishita Desai é fundadora da Aanya, uma loja boho-chic que vende roupas e acessórios sustentáveis e de origem ética.
Ishita Desai é fundadora da Aanya, uma loja boho-chic que vende roupas e acessórios sustentáveis e de origem ética.
Uma bolsa feita de couro alternativo da marca de moda vegana The Lovely Things.
Uma bolsa feita de couro alternativo da marca de moda vegana The Lovely Things.

A China é o principal mercado e produtor mundial de peles, com um faturamento de produção de US$ 14,19 bilhões em 2020, segundo dados do pesquisador de mercado global Euromonitor International. Nos últimos cinco anos, as exportações de peles e artigos de pele da China aumentaram de US$ 3,5 bilhões, em 2016, para US$ 4,23 bilhões, em 2020.

Seu papel como líder global do comércio foi reforçado em dezembro de 2020, quando a Dinamarca, que já foi o maior exportador europeu de peles de vison, interrompeu o comércio de peles até 2022 após alguns visons testarem positivo para uma mutação do coronavírus, o que resultou no abate de cerca de 17 milhões desses animais.

Joanna Swabe, diretora sênior de relações públicas da Humane Society International na Europa, diz que as fazendas de peles não são apenas locais de enorme sofrimento animal, mas também podem atuar como fábricas de vírus.

Nosso comércio centenário está passando por sua transformação mais significativa até hoje. Produtos rastreáveis e sustentáveis representam uma alternativa real para o fast fashion. (Mark Oaten, diretor-executivo da International Fur Federation)

“As condições de vida nas fazendas de peles, que confinam espécies selvagens em altas densidades e em pouquíssimo espaço, não satisfazem às mais básicas necessidades de bem-estar dos animais, e deixa-os altamente estressados, e possivelmente leva ao comprometimento de seus sistemas imunológicos”, explica Swabe.

“Os surtos do vírus Sars-CoV-2 em fazendas de peles nos confrontaram com a terrível realidade de que fazendas de peles criam as condições ideais para a propagação de doenças de um animal para outro e para a mutação dos vírus em formas potencialmente virulentas para os humanos.

“Não precisamos da moda frívola das peles. E, certamente, não precisamos desses reservatórios desnecessários para coronavírus. Agora, mais do que nunca, é hora de fazer história na indústria das peles.”

Um vison enjaulado em uma fazenda de peles na Dinamarca.  Ritzau Scanpix / Mads Claus Rasmussen via Reuters
Um vison enjaulado em uma fazenda de peles na Dinamarca. Ritzau Scanpix / Mads Claus Rasmussen via Reuters

A indústria da moda tem se movido em uma direção ética há anos, com um dos maiores passos dado em 2018, quando o British Fashion Council proibiu roupas com pele de animais nos desfiles da Semana de Moda de Londres.

Cada vez mais marcas têm se comprometido com práticas mais éticas. Na última década, muitas grifes famosas, incluindo Stella McCartney, Gucci, Versace, Prada, Diane Von Furstenberg, Chanel e Burberry, deixaram de utilizar peles.

A marca Oscar de la Renta anunciou recentemente que interromperá todas as vendas de peles. O anúncio ocorreu após pressão da cantora britânica Billie Eilish, vegana e ativista dos direitos dos animais, que prometeu usar a marca no Met Gala, realizado em 13 de setembro, mas apenas se a casa mudasse sua política de peles.

 
 
 
 
 
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Um dos principais problemas que afligem a indústria de peles é a rotulagem incorreta e a rastreabilidade deficiente.

Para melhorar a situação, a International Fur Federation (IFF), uma organização global de comércio de peles com 56 associações-membro em mais de 40 países, lançou o Furmark, um sistema global de certificação e rastreabilidade que garante o bem-estar animal e padrões ambientais.

A IFF, que recebeu sugestões do Grupo LVMH (maior conglomerado de bens de luxo do mundo) e de marcas importantes; disse que as etiquetas com código QR são uma grande mudança.

Um caminhão descarrega visons abatidos para que sejam enterrados em Holstebro, Dinamarca, depois de alguns testarem positivo para uma forma mutante do coronavírus. Imagem: AFP
Um caminhão descarrega visons abatidos para que sejam enterrados em Holstebro, Dinamarca, depois de alguns testarem positivo para uma forma mutante do coronavírus. Imagem: AFP

“Nosso comércio centenário está passando por sua transformação mais significativa até hoje; produtos rastreáveis e sustentáveis representam a alternativa real à fast-fashion”, afirma o diretor-executivo da IFF, Mark Oaten.

“Isso vai mudar tudo: se as pessoas tinham dúvidas quanto a comprar ou usar pele de verdade, essas foram respondidas com o Furmark.”

Desai não está convencida. Ela diz que pele sustentável é um conceito que parece contraditório e que muitos jovens compradores teriam dificuldade em aceitar. Peles falsas, no entanto, não são necessariamente a resposta, já que geralmente são feitas de fibras não biodegradáveis que levam décadas para se decompor, e acabam em aterros sanitários.

O cantor britânico Harry Styles usou uma estola de pele falsa da Gucci no Grammy Awards 2021, realizado no Los Angeles Convention Center em Los Angeles, Califórnia. Crédito imagem: Getty Images
O cantor britânico Harry Styles usou uma estola de pele falsa da Gucci no Grammy Awards 2021, realizado no Los Angeles Convention Center em Los Angeles, Califórnia. Crédito imagem: Getty Images

Embora a indústria de peles esteja sob crescente escrutínio, Chim diz que se preocupa com a indústria do couro e com o equívoco generalizado de que o couro é um subproduto da indústria de carne.

“Todas as peles de animais precisam passar por um tratamento chamado curtimento para transformá-las em couro”, diz Chim. O tratamento altera a estrutura proteica da pele dos animais, tornando-as mais duráveis e menos suscetíveis à decomposição.

“O processo envolve produtos químicos tóxicos pesados e grandes quantidades de água, além de gerar enormes quantidades de resíduos químicos, que poluem o ar, o solo, os rios e as águas subterrâneas, e afetam, por fim, as populações humanas e animais locais”, conclui ela.

Por Kylie Knott / Tradução de Alda Lima

Fonte: South China Morning Post


Nota do Olhar Animal: Sustentabilidade sem consideração moral pelos animais não serve. Imaginem que humanos fossem criados em excelentes condições de bem-estar, com um impacto ambiental mínimo, e que após um breve período de vida tivessem suas peles arrancadas e identificadas para que, assim, pudesse se assegurar que, ainda que confinado, o humano escalpelado viveu bem antes de ser abatido. Seria aceitável? As questões éticas estariam superadas? Claro que não. Mas o que a indústria quer é que os consumidores pensem que sim, que é correto tirar a vida de um animal após tratá-lo “bem”. Aliás, o que as indústrias desejam é que o consumidor sequer pense e que apenas consuma.

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