Sobre estudar veterinária e ser vegana

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Se alguém quer ser vegana dentro do meio médico veterinário, não espere uma forma pronta na qual se encaixar. Precisará ser essa pessoa a criar, do nada, um espaço vegano dentro da medicina animal não humana, sabendo que o seu trabalho só começará a ser respeitado daqui a vinte anos.

Fiz isso dentro de uma das piores áreas do conhecimento humano, para os animais, a Filosofia, exatamente a que pregou em primeira mão e manteve a verdade escondida, de que os animais são menos do que os humanos e existem para servi-los.

Nunca esperei aplausos nem aceitação por parte de quem não pode reconhecer a verdade, por sequer a conhecer. Reconhecer implica, em primeiro lugar, conhecer.

Então, munida dessa clareza, venho lendo e pesquisando tudo o que posso sobre os animais e tudo o que foi escrito por filósofos não levados a sério por defenderem os animais, e escrevo tudo o que aprendo, porque as pessoas precisam conhecer a verdade para poderem reconhecê-la e tomarem suas decisões éticas animalistas abolicionistas.

Após 25 anos de trabalho contínuo, sem mostrar fraqueza nem desistir, hoje, no Brasil, fala-se abertamente dos direitos dos animais, na Filosofia, no Direito e em outras áreas acadêmicas. Polemiza-se o que deveria ser encarado como óbvio. Mas fala-se da questão.

Vale a pena investir uma vida, uma biografia, dedicando-se à questão dos direitos animais, sabendo-se que na área em que atuamos não vamos encontrar eco, de pronto, para o que dissermos.

O respeito por quem se torna vegana e atua veganamente dentro de uma área antropocêntrica, especista, machista e elitista, só vem desses pares conservadores no dia em que o trabalho se confirma por sua seriedade. Eles sabem que devem, no mínimo, respeito, a quem faz algo sem visar benefício pessoal algum, faz levando pancada de tudo que é lado, sofrendo assédio moral de diferentes personalidades.

Podem não nos querer por perto, não porque o que fazemos não tem valor, mas porque conhecer o valor desse trabalho pode fazer um estrago na consciência antropocêntrica, especista, machista e elitista dos jovens que entraram para a medicina veterinária pensando que iam se diplomar para cuidar da saúde e da vida dos animais e, de repente, veem-se num curso no qual o cuidado do animal é destinado a melhor preparar seu corpo para a câmara de sangria.

Às estudantes de veterinária veganas, só posso dizer uma coisa: sigam, firmes em seu propósito abolicionista animalista, e estudem com seriedade por mais vinte anos. E escrevam, distribuindo informações que só vocês podem ter.

Vivo lendo livros de pessoas que lidam com os animais. Se houvesse mais veterinárias e veterinários veganas e veganos no Brasil, escrevendo o contrário do esperado pelo agronegócio, teríamos mais jovens entrando para a veterinária para ser o que sonharam a vida toda ser: cuidadores da vida dos animais e não preparadores de seus corpos para a esteira da sangria.

Quando o sistema de produção de carnes, leite e ovos desabar, vamos precisar de muitas veterinárias capazes de cuidar da vida dos animais, não mais para serem mortos e trucidados nas esteiras de corte dos grandes frigoríficos, mas para serem saudáveis e poderem viver, finalmente, de acordo com o éthos de cada uma de suas espécies, e a mente singular que elas permitem expressar. Abraços abolicionistas animalistas! Sempre na luz!


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *