Amigos procuram nova família para cachorro que ficou órfão ao perder tutor para a Covid-19

Amigos procuram nova família para cachorro que ficou órfão ao perder tutor para a Covid-19
Depois do tutor morrer vítima da Covid, Xangô precisou ser encaminhado para adoção — Foto: Arquivo Pessoal

Um grupo de amigos precisou encarar a tristeza de perder um amigo de infância para a Covid-19 em 26 de março deste ano. Aos 49 anos, Reinaldo Romão ficou cerca de duas semanas acometido pela doença.

Com muito carinho, Luiz Fernando Roman Ayres, amigo de infância, conta que Reinaldo era muito querido por todos e e tinha um amor especial por seu cachorro de estimação, Xangô, um rottweiler de pouco menos de dois anos.

Reinaldo morava com a irmã, que, após um acidente envolvendo um outro cachorro da família, ficou debilitada. Sem outros familiares para tomarem conta de Xangô, Luiz Fernando e outros amigos assumiram a responsabilidade de cuidar da irmã e achar um novo lar para o cachorro.

“O Reinaldo amava aquele cachorro. Na verdade, a vida dele sempre foi para ter cachorro e tinha muito carinho pelo Xangô. E isso dá para ver, porque ele é um cachorro dócil. Não tem essa coisa de ser agressivo, mas é um rottweiler e é difícil achar um lar. Por outro lado, a convivência [entre o cachorro e a irmã] é sofrida para ela, porque ele brinca muito, ele pula e ela se machuca. Ele quer brincar, pular nela, mas ela não tem forças, acaba se machucando, caindo.”

Vendo essa situação, o plano do grupo é achar um lar adotivo para o cachorro e conseguirem cuidar da irmã do amigo.

“O objetivo não é abrir mão do Xangô. É encontrar um lar que ele tenha o mesmo carinho que recebia do Reinaldo. A gente sabe da relação deles e a gente só aceita fazer essa doação, se a pessoa continuar com esse carinho.”

Reinaldo Romão é lembrado como carinho por amigos — Foto: Arquivo Pessoal

Luiz Fernando conta que muitas pessoas se interessaram “por se tratar de um cachorro de raça, bonito”. “Muita gente queria colocar o cachorro em um sítio. E aí, não. A ideia é que ele faça parte do dia a dia da pessoa.”

Depois de uma grande seleção, os amigos encontraram um veterinário que mora na zona leste de São Paulo. A partir daí, eles pensaram em um plano de “transição” para que todos se sintam confiantes com a adoção.

“Não é só pegar e tirar de casa. Ele é um ser e não um objeto. Por isso, tivemos a ideia de pegar um adestrador e fazer esse processo de transição. Assim, o Xangô pega intimidade com essa nova pessoa. Queremos um processo gradual até efetuar essa adoção.”

Quando finalizado o processo da adoção, eles vão começar a se organizar para ajudar “mais efetivamente” a irmã de Reinaldo.

“A gente se dividiu para levar as refeições diárias para ela, mas a gente quer fazer mais. Nós nos unimos para dar suporte a ela. Levar as refeições, mas também bater um papo, fazer companhia. Pensamos em ter uma cuidadora para ajudá-la. Ela não é uma pessoa totalmente independente. Ela tem os movimentos do corpo, mas tem lapsos de memória.”

Amigos de infância

Reinaldo com seus amigos na adolescência — Foto: Arquivo Pessoal

Luiz Fernando e Reinaldo se tornaram amigos aos 8 anos. Os avós deles construíram casas na mesma rua, e os dois cresceram juntos.

Durante a amizade, Luiz Fernando viu o amigo passar por muitos percalços. “O que dizer? A vida deles não foi fácil. Ele perdeu a mãe ainda criança. A irmã tentou ocupar um pouco desse lugar de mãe. Depois, o pai morreu de câncer. Depois, o irmão também morreu. Também teve esse acidente que ela sofreu e ele que passou a cuidar dela.”

Segundo Luiz, durante a pandemia, Reinaldo disse que não poderia contrair Covid. “Ele sabia dos riscos. Ele falava que não podia pegar de jeito nenhum.”

Abandono animal

Apesar de não ser a situação de Xangô, os protetores animais perceberam um crescimento no número de abandonos, um movimento oposto ao observado no início da pandemia.

Um levantamento interno feito pela Ampara Animal aponta que houve um aumento de 70% no número de animais abandonados entre julho de 2020 e fevereiro de 2021. Segundo eles, os dados consideram cerca de 100 ONGs afiliadas à instituição.

Rosângela Ribeiro Gebara é médica veterinária e trabalha há 15 anos com proteção animal. Ela é uma das orientadoras dessa pesquisa e explica o que pode ter motivado o aumento de abandonos.

“O abandono sempre existiu, mas a gente crê que essa segunda onda da pandemia influenciou. As pessoas perderam seus empregos, mudaram suas vidas. Acreditamos que é reflexo do impacto social, dessa crise econômica. As pessoas veem como uma despesa e isso acaba sobrando para parte mais fraca. São muitos animais de raça definida, animais idosos, doentes, animais que precisam de tratamento, medicamento, gasto maior [sendo abandonados].”

Segundo Rosângela, as pessoas precisam ter consciência antes de adotar e evitar adoções por impulso. “Ninguém é obrigado a ter um animal, mas, uma vez que você adota, é sua responsabilidade cuidar dele, dar amor para ele para o resto da vida desse animal.”

Mas o que é preciso considerar antes de adotar um animal? De acordo com a veterinária, são seis pontos principais:

  • A pessoa precisa saber que esse animal vai ter uma vida de, em média, 15 anos;
  • É preciso ter condições para dar alimentação, vacinas e levá-lo a consultas veterinárias;
  • O tutor precisa reservar tempo para dar carinho e amor;
  • Todos da casa precisam estar de acordo com essa adoção;
  • Precisa ser uma adoção para o resto da vida desse animal;
  • Lembre-se: se vai viajar, se mudar de casa, a pessoa tem que incluir o animal em seus planos.

Por Gabriela Gonçalves

Fonte: G1

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