Animais estão sendo envenenados em massa no interior de Minas Gerais

Animais estão sendo envenenados em massa no interior de Minas Gerais
Puma com a orelha machucada

Já não bastasse a ausência de políticas públicas para a pauta animal que aflige os cidadãos do município, como a inexistência de clínica ou posto de atendimento médico veterinário locais na cidade, os moradores de Morro do Pilar – que abriga o Parque Nacional da Serra do Cipó – localizada à 150 km da capital Belo Horizonte/MG, vêm enfrentando casos constantes de envenenamento, como o ocorrido no último dia 05 deste mês com a Puma, uma cadelinha em situação de rua cuidada por protetores e comunidade, na praça principal da cidade.

“A Puma (como resolvemos chamar) é uma cadela da raça Fila, que foi abandonada nas ruas de Morro do Pilar a mais ou menos uns 25 dias. Foi encontrada com uma bicheira enorme em uma das orelhas, que estava quase caindo, provavelmente, devido à uma paulada. Cuidamos dela, demos medicamento e tivemos muita ajuda! Como as pessoas estavam com muito nojo da orelha dela e do mal cheiro, ela foi muito maltratada, já se tornando assim uma cadela triste e cabisbaixa, com muito medo do ser humano.

Quando sua orelha estava quase curada Puma passou a não querer comer, andar cambaleando e como estamos num surto de cinomose aqui, eu achei que fosse esse o diagnóstico, até que ela teve convulsões e quase morreu. Mandamos ela para o veterinário da cidade vizinha, que também foi muito solidário e fez um teste de Cinomose que deu negativo.

Então??? “Bingo”!!! Provável envenenamento! Eu achei que o veterinário até faria eutanásia, de tão grave o quadro! Mas ele viu que ela tinha chance de vida! Passou os medicamentos, fizemos a vaquinha, e eu comecei a medicar ela na varanda da minha casa.” – relata Renata Diniz, uma das protetoras que ajudou no resgate e cuidados de Puma, que lamenta ainda o sumiço da “Madame” outra cadelinha, em situação de rua, batizada pelos protetores que também vivia na praça e, foi envenenada, desaparecendo sem poder receber socorro.

Gatos também estão sendo vítimas de envenenamento, como a mãezinha – que não tiveram tempo de batizar – que deixou seus filhotinhos órfãos na mesma região, conforme os ativistas Pedro e Bárbara que confirmam o surto de cinomose na cidade – doença que acomete os cães e, que pode ser evitada com a vacina V6, V8 ou V10, quando o animal é ainda filhote.

Além disso, eles alertam que não são apenas os animais em situação de rua que estão em perigo com este envenenador à solta em Morro do Pilar. Há relatos de animais tutelados que foram intoxicados dentro de suas casas. E, infelizmente, apenas um deles conseguiu ser salvo pelo tutor.

Como os sintomas estavam sendo confundidos com alguns sintomas da cinomose os Boletins de Ocorrência não foram lavrados, já que o envenenamento destes aninais configura crime de maus-tratos, como esclarece a advogada animalista Gabriela Maia. “Os animais são protegidos pelo ordenamento jurídico brasileiro, que os reconhece como seres sencientes e os protege contra crueldade. Além disso, os crimes de maus-tratos, quando praticados contra um cão ou um gato, têm previsão no artigo 32-A da Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605/98), com pena de 2 a 5 anos de reclusão e multa.”

Os ativistas alertam que têm trabalhado praticamente sozinhos para socorrer estes animais como ocorreu em junho de 2022, em outro caso cruel, envolvendo a cachorrinha Vitoria que foi atropelada e jogada num latão de lixo para morrer.

A cadela só sobreviveu porque os protetores ao serem acionados se uniram e, promoveram uma vaquinha para que ela fosse enviada para uma clínica em Belo Horizonte.

A incompreensão das leis e, também das obrigações por parte da Sociedade, no que diz respeito aos animais não humanos é outro desafio enfrentado pelos que militam pela dignidade dos bichos de Morro do Pilar. Isso porque, parece que muitos comerciantes da região não aceitam a alimentação dos cães, em situação de rua, o que contraria a lei estadual 28.863/21 do ex-deputado Osvaldo Lopes que tornou o fornecimento de água e alimento para eles – animais, em situação de rua – um direito de todo cidadão mineiro, ao acrescentar um novo artigo na lei 21.970/2016, conhecida como “lei dos maus-tratos” que dispõe também sobre a proteção, identificação e o controle populacional de cães e gatos, no estado.

Os problemas não param, já que a clínica veterinária mais próxima fica em Conceição do Mato Dentro, a 29 km e, aproximadamente 44 minutos de carro. O que pode ser um grande entrave para animais que necessitam de socorro mais imediato.

“Estão tentando fazer credenciamento com um veterinário de Conceição, mas de qualquer forma não temos transporte para levar os animais. Ou seja, ainda não deu certo” – lamenta a protetora Barbara Maia.

Pedro concorda com a protetora, acrescentando que faz bastante tempo que a Prefeitura anuncia esta ação do credenciamento, porém sem solução. Ele concorda que sem um veículo que transporte os animais nada vai adiantar, assim como, criar um abrigo local se não prestarem a devida assistência.

No último dia 04 de mês de maio, o Ministério Público de Minas Gerais, através de sua Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais (CEDA), promoveu uma ação voltada ao Legislativo Municipal mineiro, em sua sede de BH, exatamente para debater seu papel no fortalecimento do Direito Animal. Papel este que precisa ampliar cada vez mais o debate com as outras esferas, como o Poder Executivo e a Sociedade, já que os animais são seres sencientes, dotados de direitos e dignidade e, precisam ser protegidos por todos.

Em Morro do Pilar, entretanto, os protetores continuam lutando por estes direitos fundamentais dos animais e, esperam poder contar com as autoridades, população e Prefeitura para identificar o autor destes crimes de envenenamento, o quanto antes.

 

Por Daniela Sousa

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