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Animal não é brinquedo para entreter crianças nos dias de férias

A imagem de um cavalo borrado de tintas, na Hípica de Brasília, é síntese de como o Brasil trata o animal. O bicho é visto como uma “coisa” a serviço do bem-estar da sociedade. O que há de lúdico numa brincadeira que visa unicamente divertir crianças e transformar a espécime num corpo amorfo, sem vida?

Um equino não foi criado para servir à atividade tão mesquinha. Por que os animais são levados ao extremo em nome do entretenimento humano?”

Essa pergunta-limite movimenta uma frente de ativistas que luta por uma transformação entre a relação ética do homem e a fauna. Não podemos pensar só nas crianças se os animais que as divertem estão submetidos a situações de abuso psicológico e até maus-tratos, como é o caso das orcas e golfinhos encarcerados em tanques mínimos nos terríveis parques da rede Sea World, verdadeiras senzalas de cetáceos.

A sensação é de que chegamos ao extremo dessa problemática. A vida animal nos importa e não pode estar ao bel prazer de projetos lúdicos de empresas que lucram com os bichos ou de performances de artistas contemporâneos, que se projetam às custas da exposição inadequada de espécimes.

Qualquer atividade que se relacione com o ser vivo requer um código de ética”

Ninguém tem o direito de amarrar um cachorro faminto numa corda e deixá-lo morrer à míngua, numa exposição de arte, como fez o artista costa-riquenho Guillermo Vargas, em 2007, numa galeria da Nicarágua. Ou ainda prender três urubus, num espaço mínimo, como executou o artista Nuno Ramos, na Bienal de Arte de São Paulo, de 2010, que se estenderia por três meses.

Estamos falando de casos bem recentes numa história da humanidade, na qual milhões de animais foram mortos para o divertimento humano, como a desprezível caça esportiva. Daqui a pouco tempo, não teremos mais rinocerontes vivos no planeta Terra por conta de seus cobiçados chifres e esse dado deveria ser o suficiente para não suportarmos mais nenhum tipo de mau-trato ou abuso ético.

O homem se acha no direito de fazer o que quiser com o animal porque se considera superior”

A crueldade com o animal de rua no Brasil é outro sintoma dessa patologia de desprezo à vida não humana. Outro dia, circulou um vídeo de uma mulher que sentia prazer esmagando, com os próprios sapatos, pequenos mamíferos apanhados nas esquinas, como filhotes de gatos. Ela cometia essa brutalidade enquanto mantinha relações sexuais e alimentava seus desejos doentios.É um caso repugnante de desprezo à vida não humana.

Mas qual a relação disso tudo com o cavalo borrado de tintas da Hípica de Brasília? Talvez, não tenha relação alguma. Apenas seja a possibilidade de enxergarmos um risco para uma tarefa dita pedagógica e, no mínimo, questionável. Afinal, o que crianças podem aprender transformando o animal em uma cartolina em branco? Ora, depois que lambuzam o papel em mil cores, meninos e meninas costumam jogá-lo no lixo.

O desprezo e o fato de torná-lo objeto descartável foram o que mais incomodou uma parcela da população nessa história do cavalo borrado de tinta da Hípica de Brasília.

Pra que serve mesmo esse ser vivo depois que pintamos e bordamos em cima de seu corpo vivo?”

O assustador é que essa atividade foi proposta e executada por uma empresa que se capitaliza em cima da vida animal. Há nessa contradição a chave para transformar esse triste episódio numa importante discussão nacional.

A vida animal precisa entrar em debate. Não vemos políticos discutir o direito dos animais em suas campanhas fantasiosas. Há poucas leis que se debruçam sobre os maus-tratos ao bicho de rua. É preciso também discutir o uso dos animais em testes de produtos comerciais. Por que precisamos ter cativeiros de espécimes tristes? Por que os crimes de tráfico de animais têm penas tão tênues?

Se nos incomodamos com o cavalo borrado de tintas da Hípica de Brasília é porque chegamos ao momento de dar um basta em tanta crueldade e aprofundar os debates coibindo as terríveis rinhas de galos e cachorros e varrendo definitivamente os cruéis rodeios do nosso mapa.

Por Sérgio Maggio

Fonte: Metrópoles

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