Antropocentrismo: respeito pelo próprio umbigo

Nos diálogos entre pessoas que assumem a ética abolicionista vegana e atuam na defesa dos direitos animais sempre há não veganas pessoas que se queixam de que as pessoas veganas “dão mais importância aos animais do que aos humanos, tratam melhor os animais” do que tratam a elas, as não veganas, quando mostram a barbárie do consumo de derivados animais.

Tal queixa ocorre também contra as pessoas que se dedicam à luta pela erradicação do racismo. São apontadas como pessoas que “dão mais importância às pessoas negras do que às brancas”.

Quando se trata de mulheres que lutam pela erradicação das estruturas morais, mentais, afetivas, políticas, estéticas e éticas machistas, também elas ouvem que estão se achando “mais do que os homens”.

A queixa sempre parte justamente de quem está numa zona de conforto bem-estarista em relação àquela condição da qual as pessoas ativistas pretendem justamente sair: a de uma pessoa humana especista (mulher ou homem), a de uma pessoa branca racista (mulher ou homem) e a de homem machista (branco, ou negro) antropocêntricos especistas.

Perder privilégios e encarar a igualdade sem chance de discriminar outras pessoas por conta de terem nascido em espécies outras que não a humana, em raças outras que não a branca, em sexo outro que não o do homem, tem sido fonte de imenso sofrimento para quem idolatra apenas o que espelha seu umbigo, para quem vive pensando que é o umbigo do mundo, e que esse mundo no qual vive deve girar para lhe propiciar privilégios.

Para essas pessoas antropocêntricas especistas, tais privilégios (o de estar vivo sem ameaça de ser aprisionado injustamente, de ser privado da liberdade de autoprover-se a seu próprio modo, de escolher com quem passar suas horas do dia e da noite etc.) só são fonte de prazer se não forem tornados disponíveis aos outros que considera não iguais a si mesmo.

Há quem se queixe de que as pessoas ativistas veganas dão mais atenção aos animais. Outras pessoas se queixam de que as veganas são mais gentis com os animais do que com elas. Essas pessoas queixosas se esquecem de que comem animais sem dó nem piedade, e que não há doçura alguma no que fazem a eles, por mais adocicada que seja a torta ou a pizza que acabaram de comer. Elas se esquecem de que usam animais não apenas para comer, mas também para se enfeitar, os torturam para se maquiar, os torturam para se divertir etc. Querem ser tratadas com uma doçura que jamais tiveram para com eles.

Neste ano de 2015, por volta de 70 bilhões de animais estão condenados à prisão perpétua e à morte sem terem cometido crime algum. Cada pessoa humana que se sente desprestigiada pela luta abolicionista animalista pode lutar por si mesma. Nenhum dos 70 bilhões de animais pode lutar por seus direitos.

Privilégios deveriam ser um instrumento oferecido somente a quem tem alguma responsabilidade maior pelo bem dos outros, por exemplo, o privilégio de ter liberdade e autoridade para cortar o corpo de outro e reparar órgãos e tecidos lesados, algo exclusivo de cirurgiões. Um privilégio jamais deveria estar separado de sua contrapartida: responsabilidade.

Privilégios não deveriam ser gozados de forma vazia, destituídos do dever de compartilhar com outros um poder mais extenso do que o deles, concedido por um mérito alcançado à custa de um empenho pessoal.

Viver, ser livre e cuidar de si com autonomia específica, não é algo que os humanos tenham se empenhado para alcançar e que os outros animais tenham relegado ao segundo plano de suas metas. É uma meta comum a todos os seres sencientes, portanto, não pode ser um privilégio dos seres da espécie humana.

Se ser humano é um privilégio, esse não pode ser gozado, transformando o poder que tal vida nos concede em poder de tirar a vida de 70 bilhões de seres indefesos.

É hora de sacudir dos ombros a carga da matança. Para fazer isso é preciso desistir de gozar o privilégio de matar, ou de pagar para que outros matem, os animais que se quer comer, vestir, ou com os quais se quer enfeitar-se, lucrar ou divertir-se .

Onívoros queixosos de que veganos dão mais importância aos animais, que são mais gentis com os animais do que com eles, devem ser ignorados até que se deem conta de que a luta abolicionista não é um caso pessoal de quem é vegano contra quem não é. É um caso coletivo de abolicionistas a favor dos animais de todas as espécies, não apenas de cães, gatos ou cavalos usados para estima, companhia, tração e guarda.

Quanto ao tom adotado pelos veganos nos bate-bocas, não tem jeito. Os argumentos dos onívoros, defendendo seus privilégios dietéticos, esportivos, cosméticos e estilísticos de toda sorte, sempre pautados em algum resto de animal morto ou em alguma secreção extraída dolorosamente de seus corpos, são tão rasos (tipo, “a gente tem caninos”, “a gente é superior aos outros”, “Deus nos deu os animais para usar e comer”, “o animal nem sabe que está vivo”, “o animal não sente nada”, “a folha da alface também sofre”, “as plantas também estão vivas”, “se a gente não comesse carnes, leites e ovos, comeria o quê?”, “se a gente comer só vegetais vai faltar comida no mundo”) que, sinceramente, não é raro, sobem-nos aos nervos, por sua miserabilidade, pretextos mil para assegurar um privilégio fútil, doloroso e letal para os animais.

Como falar docemente quando se relata a agonia e tormento dos animais, isso os onívoros não sabem, porque sua doçura na voz é guardada para relatar aos amigos e parentes as experiências palatais que tiveram, saboreando esse ou aquele prato do menu refinado. Tão refinado que todos os cadáveres usados para compô-lo foram “desaparecidos” do prato. Os olhos do comedor estão cegados pelas iguarias “finas”.

Só quem fala docemente, à vista de sangue e restos mortais, ou de derivados da dor e da morte animais, refinados a ponto de não poderem mais ser vistos, é quem se alimenta disso, quem forma e alimenta sua mente com isso. Quem quer ver o fim disso não vive na doçura não, vive momentos de grande impacto, bem amargos. Idolatradores do próprio umbigo, abram os olhos para os 140 bilhões de olhos que farão paralisar neste ano nas câmaras de sangria. Sim, é de lá que as iguarias vêm todo dia. De tanques de sangue derramado. Os 70 bilhões de pares de olhos não poderão mais ver, foram assassinados naquelas câmaras, onde vazaram todo sangue que lhes corria nas veias.

Mas os olhos dos comedores disso tudo continuam bem vivos e podem ainda ser abertos. Esse poder ninguém tira dos humanos, enquanto estão vivos. E a questão não é a do nosso privilégio especista antropocêntrico, é a de tudo o que tiramos dos animais ao matá-los para nos locupletar.

Por Sônia T. Felipe

Fonte: Reprodução do Facebook

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