Após banimento das peles, couros exóticos estão na berlinda

Após banimento das peles, couros exóticos estão na berlinda

Com a pandemia do Covid-19 dando destaque ao tratamento e venda de animais exóticos, será este o ano que a indústria da moda finalmente para de usar couros exóticos? Couros de crocodilo, jacaré e avestruz – hoje consideradas antiéticos e antiquados por muitos –, há tempos foram adotadas como símbolos supremos de riqueza. Em 2017, uma Birkin da Hermès de couro de crocodilo decorada com diamantes foi leiloada na Christie’s por um recorde de £ 293.000. Uma bolsa Zumi da Gucci feita com couro de jacaré custa £ 22.280, e uma mochila de avestruz da Louis Vuitton, £ 11.800.

Enquanto algumas marcas de moda (um exemplo recente foi a Prada, em fevereiro), se comprometem a não usar mais pele de animal, o uso de couros exóticos também está sendo reconsiderado. Chanel, Hugo Boss, Victoria Beckham e Mulberry são algumas das que pararam de usar esse tipo de material recentemente. “Constantemente reavaliamos a nossa rede de fornecimento para garantir que estamos alcançando nossa expectativa de integridade e rastreabilidade”, a Chanel escreveu em um comunicado em dezembro de 2018. “Neste contexto, de acordo com a nossa experiência, está cada vez mais difícil encontrar couros exóticos que correspondem aos nossos padrões éticos.” Fatores ambientais também tem sido uma preocupação, Charlotte O’Sullivan, diretora global de marketing da Mulberry disse: “Em 2018 a Mulberry fez um comprometimento para garantir que todo o couro usado em nossas coleções seja um subproduto da indústria alimentícia.”
 
A atual pandemia, que cientistas acreditam ter originado de morcegos, trouxe questões de saúde global ao que era antes uma conversa mais focada nos direitos animais. Este motivo gerou uma pressão de grupos como PETA – que comprou ações de marcas de luxo incluindo LVMH, Hermès e Prada – para que a indústria da moda pare de usar couros exóticos. Em uma carta aberta em maio, o grupo de direitos animais pediu que a Prada banisse a venda do material.

“Ameaças virais globais e pandemias vão continuar a afligir humanos enquanto capturarmos, confinarmos e matarmos animais por comida ou moda”, explica Dan Mathews, vice-presidente senior de campanhas da PETA. “É possível que a Covid-19 foi transitada para humanos através de outros animais – assim como os vírus de SARS, MERS e a gripe aviária.

Quais são os riscos do comércio de couros exóticos?

Crocodilos, jacarés, cobras e avestruzes são os animais mais usados na industria da moda pelos seus couros. Mas, no contexto da Covid-19, cientistas apontam que a criação de tais animais representa um risco significativamente menor quando comparados a morcegos, roedores e primatas, que são responsáveis por 75 por cento de todos os vírus transferidos de animais para humanos. “No que diz respeito às pandemias, nunca houve, nem podemos prever a possibilidade de uma começar a partir de um réptil”, comenta Dr. William Karesh, vice-presidente executivo de saúde da EcoHealth Alliance. Mas isso não quer dizer que não há riscos envolvidos no manejo de animais exóticos, com infecções bacterianas associadas principalmente a répteis. “É possível que um trabalhador se contamine através de um réptil? É claro,” adiciona Dr. Karesh.

Couros exóticos (Foto: Getty Images)

Preocupações com o bem-estar animal que precisam ser abordadas

(Aviso: estamos prestes a descrever o tratamento de animais em fazendas de animais exóticos em detalhes.)

O bem-estar animal, bem como questões de conservação, continuam sendo as maiores preocupações no que se refere ao comércio de couros exóticos. Em 2016, a PETA publicou um vídeo chocante de crocodilos em uma fazenda no Vietnã, com os pescoços abertos e hastes de metal forçadas em suas colunas. Outras investigações revelaram cobras pregadas em árvores e esfoladas vivas na Tailândia ou cortadas vivas com tesoura.

As principais marcas se manifestaram, prometendo garantir que os couros de seus produtos viessem de animais devidamente tratados. Kering, o conglomerado dono de marcas como Gucci, Bottega Veneta e Saint Laurent, traçou normas de bem-estar específicas para cada espécie, além de exigir rastreabilidade de seus fornecedores. O conglomerado também afirma que fornecedores não devem adquirir espécies comercializadas legalmente que estejam quase ameaçadas, vulneráveis, em perigo ou criticamente em perigo. A LVMH, dona da Louis Vuitton, Dior e Givenchy, lançou as suas próprias normas para o fornecimento de couro de crocodilo em 2019.

Prada assina acordo histórico pela sustentabilidade na indústria da moda

Em resposta a recente campanha da PETA, a Prada disse via comunicado que a marca “conta com processos socialmente responsáveis que permitem à empresa explorar novas fronteiras de design criativo atendendo à demanda por produtos mais sustentáveis. O grupo Prada participa, junto da Câmera de Moda Italiana, de um coletivo que explora soluções alternativas para materiais de origem animal.”

Recentemente marcas de luxo forma forçadas a se distanciar do comércio ilegal de vida selvagem (avaliado em $ 20 bilhões), depois de um estudo publicado em janeiro expor que marcas de luxo tiveram mais de 5.600 produtos ilegais apreendidos pelas autoridades americanas entre 2003 e 2013. Enquanto algumas labels colhem legalmente da população selvagem, a caça ilegal geralmente envolve maus tratos a animais, afeta espécies ameaçadas de extinção, e tem ligações com redes de crime organizado.

Qual o argumento contra a proibição da venda de couros exóticos?

Apesar de pedidos que a indústria da moda como um todo proíba couros exóticos, alguns cientistas sugerem que essa não é a resposta, argumentando que o comércio legal de animais exóticos pode fornecer às comunidades locais uma fonte vital de renda e incentivar os esforços de conservação animal.

“Eu acho que uma proibição geral é uma política atraente para grupos que querem uma resposta rápida, mas na verdade apresenta muitos riscos de comercialização clandestina,” comenta Dra. Catherine Machalaba, pesquisador cientifica da EcoHealth Alliance.

É provável, porém, que o uso contínuo de couros exóticos na indústria da moda diminua devido a percepção do publico e sua demanda por esse tipo de produto. De acordo com um relatório de 2019 da Mintel, 37 por cento dos consumidores dizem que o bem-estar animal é a questão ambiental mais importante para eles, enquanto quase metade dos millennials estão preocupados em relação a transparência na cadeia de fornecimento.

“Consumidores estão cada vez mais interessados na ética por trás de suas roupas e acessórios”, diz Mathews. “Quanto mais entendemos os animais, mais difícil fica justificar matá-los por uma bolsa ou um par de sapatos.”

Por Emily Chan

Fonte: Vogue


Nota do Olhar Animal: É excelente que peles e couros estejam sendo banidos da moda. Por outro lado, deixar de fora desse banimento o couro bovino é uma incoerência que denota o forte especismo dominante, em que a vida de animais silvestres e/ou exóticos são consideradas mais importantes do que a de bovinos.

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