As prioridades de Mato Grosso do Sul

Por Jaqueline de Andrade Torres

O mês de agosto mal havia iniciado e notícias a respeito da presença de pelo menos sete onças nas cidades de Corumbá e Ladário, Mato Grosso do Sul (MS), surgiram na imprensa local e nacional. Esses animais acabaram surgindo em zona urbana na tentativa de fugir da cheia do Rio Paraguai.

Vale ressaltar que esses conflitos entre humanos e (não apenas) onças são constantes e crescentes em MS, devido ao avanço das cidades que implica em diminuição do habitat de animais silvestres; aumentando, portanto, a frequência da convivência do ser humano com outras espécies animais em centros urbanos.

Sendo assim, sentindo que há necessidade de esclarecimentos sobre as atitudes que estão sendo tomadas a respeito das onças em Corumbá e sobre o comportamento que a população (não) deve ter em relação a esses grandes felinos, o pesquisador da Embrapa Pantanal, Walfrido Tomás, escreveu o texto “Corumbá, a cidade que precisa se tornar amiga da onça” (http://www.oeco.org.br/rastro-de-onca/28591-corumba-a-cidade-que-precisa-se-tornar-amiga-da-onca). Nesse breve relato, Walfrido descreve a situação das onças, revisitando a história e chegando aos dias atuais, finalizando com: “O caminho é esclarecer a população e transformar áreas da orla mais utilizadas pelas onças em refúgios de fauna, com alambrados na interface com a cidade, além do constante amadurecimento do Comitê. Essas são as peças fundamentais na minimização dos riscos de incidentes onças-pessoas, e na maximização da proteção destes animais. Afinal, Corumbá merece o título de Capital das Onças.”.

Educação, refúgios de fauna, alambrados, políticas públicas. Nada de abater onças e nada de colocar outras espécies em situações claramente aterrorizantes para qualquer ser senciente (http://holocaustoanimalbrazil.blogspot.com.br/2006/07/crueldade-animal-em-dose-dupla-absurdo.html e http://www.abrigodosbichos.com.br/forum/Topico151.htm e http://www.arcabrasil.org.br/blog/2006/08/atracao-fatal/).

Em junho deste ano, houve outra situação envolvendo felinos e, nesse caso, ocorreu a morte da onça adulta, deixando órfãos dois filhotes e o resultado do ocorrido na conta da “fatalidade”. Devido a isso e, principalmente, levando em consideração o desabafo da analista ambiental do Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros), Rose Gasparini, no qual ela diz que “O meio ambiente não é prioridade no Brasil. Nós fazemos de tudo, mas faltam recursos” (http://www.campograndenews.com.br/meio-ambiente/comite-lamenta-morte-de-onca-e-diz-que-acoes-de-resgate-envolvem-risco-sempre), levantam-se dúvidas sobre a destinação de suficientes recursos disponíveis às equipes envolvidas nessas ações – recursos materiais (equipamentos, anestésicos, etc), disponibilização de treinamentos e afins.

Ademais, ao ler a matéria de capa do Jornal Correio do Estado, do dia 02 de setembro de 2014, a respeito da construção do Aquário do Pantanal e de outras obras, intitulada como “André garante Aquário [http://www.aquariodopantanalms.com.br/aquario-do-pantanal/], mas deixa [outras] obras para 2015”, é impossível não questionar as prioridades de Mato Grosso do Sul.

Enquanto o mundo se mobiliza contra zoológicos e afins (alguns argumentos: http://www.abolicionismoanimal.org.br/artigos/REV_NIPEDA_ZOO.pdf), o MS prioriza a construção dessa enorme jaula com paredes de vidro, avaliada em cerca de R$235 milhões, para encerrar seres sencientes, ao mesmo tempo em que pesquisadores, população, onças e demais animais silvestres precisam de recursos para não terem suas vidas expostas a riscos perfeitamente evitáveis. Um desserviço, um crime moral.

Igualmente, vale lembrar que, há alguns anos, o excelentíssimo atual governador, André Puccinelli, mostrou toda sua truculência ao expressar sua vontade de “estuprar” (sic) o então Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, contrariado pela decisão do governo federal de restringir o cultivo de cana de açúcar em regiões como a Amazônia Legal e o Pantanal.

É de apavorar! E nem saímos da área da Ecologia para entrar na de Direitos Humanos e outras questões sociais, envolvendo principalmente minorias.

Então, quem concordar com a ideia de que o MS deve optar pelo respeito aos seres sencientes e pela conservação de suas riquezas naturais em detrimento do desperdício absurdo de recursos materiais e humanos em obras imorais e desnecessárias, como o Aquário do Pantanal, entre em contato com o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e manifeste a sua opinião: http://www.ms.gov.br/index.php?templat=falecon&comp=1033 ou (67) 3318-1000.

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