Assassinato na GNT: um não saber sabendo…

Por Liège Copstein

Tinha uns oito ou nove anos quando me exportaram, por duas semanas, para a fazenda de uma tia. Minha irmã estava com sarampo complicado – naquele tempo todas as crianças tinham sarampo – e ninguém mais podia se ocupar de mim. Chegar naquele lugar fora do meu tempo e espaço conhecidos já foi fantástico por si; à noite, sapos e grilos rivalizavam com o ruído do gerador, que ficava ligado só até as nove. Depois, sem luz, dormia-se. De manhã, uma vaca marrom veio mugir na minha janela, e levei muitas bicadas da galinha quando, enquanto todos os adultos dormiam a sesta, tentei roubar dela um pintinho.

Encontrei no porão uma pilha de gibis velhos e no pátio um gatinho amarelo, filho da Pixirica, gata pintada que durante anos despejou ninhadas imensas e multicoloridas como ela. Esses gatos, contam, cresciam e iam para o bosque de eucaliptos, virando gatos-do-mato. Os cachorros pastoreavam ovelhas, um bezerro guaxo ganhava mamadeira. Meus tios riram quando eu disse que só comia feijão quando chovia, mas eu queria dizer é que com o calor não tinha apetite para comida pesada. E a comida campeira é pesada. Feijão, arroz, moranga, mandioca, tudo bem azeitado. E carne. E neste ponto, esta deixa de ser uma história do Sítio do Picapau Amarelo, e torna-se um conto sinistro.

Pois um dia entrei num galpão e surpreendi meu tio diante de uma ovelha, amarrada e pendurada de cabeça para baixo por um gancho e cordas. Meu tio era um gaúcho da campanha, já idoso, que usava bombachas e tomava o primeiro mate pelas 4h da manhã. Cheio de boas histórias, de fala mansa, sorriso esperto e ar de quem sabe sempre o que dizer. E é por isso que nunca vou esquecer a expressão desconcertada, de imensa surpresa e constrangimento, que vi em seu rosto quando perguntei: “O que tu vai fazer com ela, tio?”

Talvez ele estivesse segurando alguma coisa, mas não consigo lembrar. Só lembro que o tempo congelou. “Vou dar um remédio para ela, vai brincar noutro lugar”, disse meu tio. E eu fui. Passaram-se mais de quarenta anos, e nem sei bem em que momento entendi que meu tio não ia, não, dar remédio para a ovelha. Embora sempre tenha sabido bem lá no fundo que só por alguma razão muito forte ele ficaria tão desconfortável, e que algo estava muito errado ali.

Todos nós sabemos. Não importa a idade ou de onde viemos, todos nós sabemos – inclusive os 5% de psicopatas, embora não sintam remorso – que o que fazemos aos animais é imoral. É por isso que meu tio, um homem do campo experiente, criado na lida como se diz por aqui, sentiu vergonha diante dos olhos de uma criança.

E talvez o que tenha chocado a todos no comportamento do apresentador Rodrigo Hilbert, ao assassinar um filhote de ovelha diante das câmeras de seu programa culinário com um sorriso nos lábios, foi que ele não demonstrou a menor vergonha.

Os que comem carne gostam de pensar coisas que os fazem sentir-se melhor. Gostam de pensar, em primeiro lugar, que os animais não sofrem, que não se desesperam, que não gritam por socorro no momento da morte. Gostam também de pensar que os animais são tratados com respeito e reverência. Gostam das histórias de povos antigos que erigiam totens e cerimoniais em agradecimento aos animais que caçavam, e gostam de pensar que se não houver “desperdício”, utilizando-se dos despojos daquela vida de todas as formas possíveis, então tudo está justificado.

Será que todas as pessoas que não dispensam devorar cadáveres em suas refeições, e que vieram a público manifestar-se contra esse assassinato, são mesmo hipócritas como vêm sendo acusadas? Acho que não.

Hipócritas são as que fingem não saber que o que fazemos é errado, as que matam sorrindo. Aquelas que comem carne, e ainda assim se escandalizaram com a execução cruel da ovelhinha, mesmo as que reclamam apenas que crianças não deveriam assistir tal coisa, essas sentiram vergonha. Essa vergonha é o indício de que por baixo de camadas infindáveis de condicionamento, repressão, doutrinamento, existe uma tênue fagulha de decência. Mesmo aquelas que atribuem a compaixão aos animais não humanos à imaturidade, como se o egoísmo e a crueldade fossem os únicos nortes possíveis na trajetória de uma vida, mesmo essas admitem que há um princípio moral que nos diz que não podemos, que não é direito, que isso é simplesmente errado. É nessa direção que devemos andar.


Liège Copstein[email protected]

Jornalista freelancer, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre. Vegetariana, protetora independente – seja lá o que isso significa -, abolicionista.

Mestranda em Literatura Comparada pela URI-FW, onde desenvolve pesquisa sobre os mecanismos do discurso especista na literatura contemporânea e na mídia.

Escrava de sete gatos.

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