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Assustados e desnutridos: o drama dos animais de abrigos na Colômbia

Em Bogotá, busca-se ajuda para cães resgatados de abrigos de animais de Zipacón e El Rosal, Cundinamarca. 

Por Ana Maria Velásquez Durán / Tradução de Nelson Paim

O caso de maus-tratos a animais e canibalismo denunciado no mês de abril no abrigo de animais Vida de Pelos, de Sibaté, não é o único já registrado. O site El Tiempo conheceu dois casos de outros abrigos no departamento da Cundinamarca, na Colômbia, que foram intervindos por grupos de defensores dos animais. Se trata de Casanimal e Funprevián, localizados nos municípios de Zipacón e El Rosal, respectivamente.

Segundo relatos dos grupos de defensores que chegaram até lá, o ambiente que encontraram poderia ser comparado a um campo de concentração, onde se respirava cheiro de morte. Cães amarrados, desnutridos, com sarna e tumores, pedaços de ossos no chão e buracos onde permaneciam enterrados alguns corpos eram parte do cenário.

Zipacón: um problema de mais de 10 anos

O drama em Casanimal “começou em 2004, quando a propriedade onde estava localizado o refúgio administrado por Sandra Barrera ficou sem água”. Assim corrobora Mario Disanto, protetor dos animais, empresário e membro da fundação SOS Animal Ambiental, que participou do processo de criação do abrigo de animais, onde começaram com cerca de 110 cães. “Recomendamos à encarregada que não levasse mais animais porque não havia água potável e a situação era difícil”, comentou. No entanto, o lugar foi enchendo cada vez mais e, por divergências, Disanto se retirou.

Em 2007, depois de descobrir que os cães se encontravam doentes e desnutridos, decidiu intervir. Foram tirados 68 dos 195 animais que encontraram. “Nós fomos levando todos, mas ela disse que tinha direitos de exercer sua atividade. Nós terminamos convencidos e lhe deixamos 37, mas logo nos inteiramos de que ela havia se oferecido para receber voluntariamente animais de outro programa, terminou com 130”.

Segundo Disanto, agricultores e vizinhos do local começaram a envenenar os cães e algumas pessoas, encarregadas de seu cuidado, treinavam os cães da raça pitbull usando de isca os cães do refúgio. A situação seguiu igual até cerca de um mês, quando um grupo de protetores dos animais entrou no local e conseguiu convencer a encarregada de fechá-lo. Os animais estão começando a ser realocados e, dos 107 que foram encontrados, 10 já foram entregues para adoção. No local também havia 20 gatos.

Sandra Barrera disse ao El Tiempo que apesar de ter destinado todos seus recursos para levar adiante o abrigo, os empregados que teve nunca tiveram cuidados com os animais. “Fiquei sabendo que vendiam a comida, pediam dinheiro para receber cães e que muitas vezes os deixavam sozinhos. De um grupo de 80 que tinha há um ano e meio me chegou a 200. Aumentou muito minha responsabilidade e para mim era insustentável. Recorri com pedido de auxilio à prefeitura de Zipado, mas não me ajudaram, eu não podia deixar meu trabalho para dedicar-me a cuidar deles porque sou uma pessoa idosa e já não está tão fácil conseguir um emprego”, completou.

Barrera assegura que de setembro de 2015 a março de 2016 morreram 65 cães. “Diziam-me que os vizinhos os envenenavam, o problema é que também havia desaparecidos. Chegava o fim de semana e me faltavam três ou quatro cães e ninguém me explicava nada. Eu tinha sérios problemas de saúde que não me permitiam caminhar nem carregar coisas”, disse Barrera, que destacou que chegou a um acordo com o corpo de bombeiros de Facatativá para que fornecessem água.

No entanto, Andrés Ortega Brothwick, protetor dos animais e membro da Humanos x ángeles, que chegou ao abrigo em junho de 2015, logo após realizar trabalhos voluntários em diferentes abrigos, assegurou que a situação era diferente: “fizemos os trabalhos de limpeza porque isto era uma lixeira. Havia ratos mortos por todo o lado, as condições de insalubridade eram absurdas, nem uma gota de água. Fui pelo menos dez vezes carregando galões de água porque eles tomavam água cinza que parecia ser tirada de um poço”, afirma.

Por sua vez, Nataly Parra, da Fundación Meraki, que participou do processo de resgate e que tem a seu cargo o grupo de 20 gatos, conta que os felinos viviam em um quarto escuro entre suas fezes e urina. “A troca pela luz e ar livre pode os afetar, então, é preciso começar um tratamento para aumentar suas defesas naturais. Alguns têm problemas de pele e temos três que são agressivos”, assinalou.

Ainda permanecem 87 cães no abrigo, mas todos estão aos cuidados de uma pessoa contratada pelo grupo de protetores dos animais. Ainda que tenha um carro-pipa para fornecer água potável, a prioridade é evacuar os animais o mais rápido possível por causa das condições do prédio. “Não há nenhuma pessoa que tenha estado ali e que não tenha ficado de coração partido, não há nenhuma justificativa que seres indefesos tenham vivido esta tortura. A gente estava impactado não só pelos que já estavam mortos, mas pelo estado lamentável em que se encontravam os vivos, assustados, desolados e desnutridos”, disse Disanto. “Se ela sabia que tinha empregados que roubavam, devia ter intervido e, no mínimo, devia libertar os animais, ninguém a estava forçando a nada”, afirmou.

Os “ex-funprevianos” já estão a salvo

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O pesadelo que viveram os cerca de 150 cães que permaneceram no Funprevián terminou faz um ano quando Johana Pérez, diretora da fundação Animalove, e os voluntários Fernanda Alarcón e Maria Hinestrosa chegaram ao local. Em dez dias e com a ajuda de vários protetores dos animais, Johana conseguiu alojá-los em um espaço em Chia, onde começaram seu processo de recuperação. Os animais foram batizados como os “ex-funprevianos” e assim são conhecidos nas redes sociais.

Quando os resgataram, os voluntários não encontraram um panorama diferente ao descrito em Sibaté e Zipacón: “a maioria estava sem dentes porque a pouca comida que lhes davam era atirada ao solo e o espaço tinha muitas pedras, então eles as comiam junto ao alimento e quebravam os dentes. Esse era o caso também quando os cães brigavam por um único pedacinho”, afirma Pérez, que assegura que encontraram restos de ossos e vários animais mortos. “Ao que parece, houve casos de canibalismo [igual à Sibaté]. Encontramos um buraco aberto onde havia cachorrinhos mortos e por cima lançaram cal. Uma vizinha comentou que alguns haviam se matado entre si”.

Diego Ordóñez, veterinário da clínica veterinária da Universidad Nacional, assegura que os cães podem chegar a comer uns aos outros porque “muitos dos animais que estão abandonados desenvolvem problemas de conduta e isto termina em agressão”. Além do que, segundo ele, “existem processos de enfermidades que fazem com que tenham mudanças de comportamento e se tornem agressivos”.

Álvaro Rodriguez Téllez, veterinário da clínica veterinária da Universidad de La Salle, explica, por sua vez, que os cães possuem hierarquias: “ao ver que não tem nada para comer, atacam o mais fraco ou o doente. É um comportamento de fome. Já quando se esgota a reserva de gordura corporal, começam a atacar. É um comportamento natural de sobrevivência, mas a culpa é dos humanos”, afirma.

Segundo Pérez, Patricia Ojasild, encarregada do abrigo, assegurou que não tinha recursos para manter o espaço. “A princípio ajudou a limpar e a cuidar dos cães, mas depois se desentendeu, trocou números de telefones, bloqueou as pessoas e não voltou a aparecer”, conta Pérez.

“Começamos a buscar ajuda, a tratá-los com medicamentos porque estavam repletos de pulgas, brigavam entre eles, não eram cuidadas as suas feridas e então tinham infecções, surgiam tumores, com barrigas repletas de vermes”, contou. Hoje em dia os animais parecem ter deixado seu passado para trás. Vivem em espaços amplos e limpos e com vigilância permanente. Alguns estão gordos e a maioria está bem de saúde, mas ainda restam 120 caninos que esperam conhecer o que significa viver em um lar e possuir uma família.

Por que a história se repete?

Para Mario Disanto os abrigos de animais escondem uma problemática maior, que inclui o tema da superpopulação e da falta de esterilizações. “Não são uma solução, são uma forma de esquecer e esconder que se convertem em lixeiras de seres vivos sencientes. Devemos atentar as causas o quanto antes”, conclui.

Disanto afirma também que é necessário regrar a reprodução, o registro e a comercialização de animais e impulsionar a guarda responsável de mascotes de estimação, além de quem decidir abrir um abrigo de animais deve receber assessoria profissional. A vocação sem responsabilidade, sem formação técnica e sem recursos termina criando lixeiras e superlotação de animais. “É preferível que estejam em liberdade para tomar água de uma poça na rua do que tenham que esperar que, com sorte, lhes ponham algo concentrado para brigarem como uma matilha”, disse.

Andrés Ortega e Nataly Parra concordam que a sociedade começa a ver nos abrigos de animais a solução para o problema dos animais, já que pensam que resgatar significa levá-los a ONGs, mesmo onde não existam condições para se viver bem. “O grave é que começam a deixar adoecer os animais que estão saudáveis para gerar problemas para a sociedade. Tristemente as pessoas não doam se vêm um animal em bom estado. Por outro lado, ver que um não dá mais gastos e seguir recolhendo não é adequado nem para os animais nem para o estado psicológico das pessoas”, afirmou Parra.

Com a organização Humanos x ángeles, Ortega visitou cerca de quinze casas no bairro de Santa Fe, em Bogotá, onde encontrou vários cães em péssimas condições. Além de que conheceram outros dez abrigos de cães em situação similar a de Sibaté, Zipacón e Funprevián.

A nova lei 1.774 de 2016 contempla penas de até 36 meses e multas de até 60 salários mínimos mensais a quem abusar de um animal. Para o advogado Andrés Carreño também é importante ter em conta a lei 84 de 1989: “o artigo 14 menciona que quem tiver uma instituição para abrigar animais e não puder garantir a subsistência deve se comunicar com a polícia ou com a prefeitura para que estes tomem as medidas necessárias, pois do contrário pode haver penas de 6 a 12 meses de prisão”.

Se quiser ajudar:

Para adoções e entrega de auxílio e alimentos podem comunicar-se pelos números 301 490 7030, 318 388 7799 ou 310 759 7242. Se deseja ajudar os “ex-funprevianos” ligue 312 352 6305 ou 314 370 0484.

Fonte: El Tiempo

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