Ativistas esperam que opinião pública force legisladores proibirem fazendas de peles

Ativistas esperam que opinião pública force legisladores proibirem fazendas de peles
Fotos: Arquivo da ONG Freedom for Animals

Deputados irão debater um projeto de lei que poderia banir as fazendas de peles na República Checa. Uma petição a favor de tal mudança foi assinada por 50 deputados ao redor do espectro político, mas um seminário precedendo o debate revelou que esse projeto ainda tem muitos oponentes. Eu falei com a ativista dos direitos dos animais Lucie Moravcová, da ONG Freedom for Animals, para saber mais sobre o problema – como a quantidade de fazendas que atualmente estão em operação e em quais condições os animais são reproduzidos.
“Na República Checa nós temos atualmente nove fazendas de peles, onde principalmente visons e raposas são reproduzidos. Se compararmos esse número com outros países, ele é relativamente baixo. E somente quatro dessas fazendas possuem a capacidade para reproduzir mais de mil animais. As outras são menores”.

Em quais condições os animais são reproduzidos e abatidos? O ministro da agricultura diz que a autoridade veterinária do estado não encontrou nenhuma evidência de tortura. Qual é a sua visão sobre isso?

“Os animais são mantidos em gaiolas muito pequenas, de arame, sem nenhum chão sólido. É importante dizer que estes animais basicamente ainda são selvagens, eles não são domesticados. E na fazenda de peles eles não podem exibir seus comportamentos naturais. Sendo selvagens, eles também sofrem pelo medo dos humanos – e todas essas condições levam a problemas de bem-estar e de saúde. Você pode ver isso no comportamento estereotipado, que é um sinal de mal-estar – por exemplo, movimentos repetitivos, como quando uma raposa pula contra uma parede repetitivamente. Eu acho que muitas pessoas nunca irão ver tais imagens. E também o modo pelo qual os animais são mortos é muito cruel – os visons são normalmente mortos na câmera de gás e as raposas são eletrocutadas”.

Para que não ocorra nenhum dano ao pelo?

“Sim, exatamente, é o modo mais fácil de matá-los e não danificar o pelo. Mas é muito cruel”.

Uma petição apoiando o projeto de lei foi assinada por mais de 50 deputados ao redor do espectro político, incluindo o Primeiro Ministro – você diria que ainda há uma falta de vontade política de aprovar tal lei?

“Bem, veremos quando chegar a hora do voto. Mas conforme a gente conversa com os políticos nesses últimos dias, nós temos a impressão de que o tópico está se tornando mais e mais importante para mais e mais políticos. Eu acho que essa mudança também está conectada à opinião pública. De acordo com uma pesquisa de opinião conduzida pela agência CVVM no ano passado, 70 por cento dos checos são a favor da proibição das fazendas de peles e 74 por cento não concordam com matar animais pela pele. Então eu acho que mais e mais políticos estão ficando cientes de que seus eleitores se preocupam com os animais e estão interessados nesse tópico”.

“Comportamento estereotipado é um sinal de mal-estar – por exemplo, movimentos repetitivos, como quando uma raposa pula contra a parede repetitivamente”.

E o público é ativo o suficiente na oposição à crueldade para com animais – eles estão dispostos a irem até as ruas e exigirem uma ação? Você sente que possui apoio ativo?

“Sim, nós sentimos que temos apoio ativo. Quando organizamos protestos, as pessoas vêm e nos apoiam. Também lançamos uma petição para proibir as fazendas de peles na República Checa – uma petição em papel, devo acrescentar, e não uma eletrônica – e já juntamos 30.000 assinaturas, o que eu acredito ser um número significativo, e recebemos e-mails e ligações do público todos os dias perguntando o que eles podem fazer para apoiar essa proibição, então, sim, eu acho que as pessoas são muito ativas”.

Se olharmos para alguns dos contra-argumentos – alguns deputados dizem que o problema deveria ser deixado para seguir seu caminho sozinho e ser resolvido pelos consumidores – já que sem demanda, as fazendas irão fechar. O que você diz sobre esse raciocínio?

“Eu acho que os dois aspectos são importantes. É importante proibir as fazendas de peles legalmente, mas também é importante trabalhar com as pessoas, educá-las, porque a maioria delas nem percebe que as fazendas de peles ainda existem. E hoje é muito difícil diferenciar uma pele real de uma falsa. Hoje em dia, a pele é principalmente usada como acabamento somente e não nos casacos inteiros como era no passado, e essas peles frequentemente são tingidas, então ocorre que algumas vezes as pessoas compram pele real sem nem estarem cientes disso. De acordo com a pesquisa mencionada, 85 por cento dos checos dizem que não compram casacos de pele”.

A pele é exportada desde este país? Ou a produção é feita para o mercado interno?

“Esta é uma questão complicada. Normalmente a pele de boa qualidade é enviada para casas de leilões – a maior na Europa é em Copenhagen – e então é vendida para diferentes países. Então é difícil dizer se a produção vai para fora ou se fica aqui”.

Lucie Moravcová
Lucie Moravcová

Algumas pessoas dizem que uma proibição simplesmente irá levar as fazendas de peles para a ilegalidade – é isso que aconteceu nos outros lugares?

“Não, as fazendas de peles foram banidas ou severamente restritas em cerca de 12 países europeus e não temos nenhuma indicação de que isso ocorreu em nenhum lugar. Também seria muito difícil de esconder uma fazenda de peles porque você precisa de muito espaço, você pode ouvir os animais e sentir o cheiro deles por causa dos excrementos que caem embaixo das gaiolas. Então eu diria que é quase impossível esconder uma fazenda e reproduzir esses animais ilegalmente”.

Se este projeto de lei for aprovado no Parlamento, quanto tempo demoraria para que todas as fazendas de peles neste país fossem fechadas?

“Bem, o projeto de lei está programado para entrar na primeira leitura na câmera e este prevê o fechamento das fazendas de pele antes de 2018. Então isso conta com uma adaptação progressiva de um ano e dá ao Ministério da Agricultura a possibilidade de compensar financeiramente os reprodutores pelas suas perdas, até certo ponto. Eu diria que demoraria de dois a três anos, mas o período de adaptação está programado para um ano”.

Presumivelmente, você agora está fazendo uma campanha pesada no Parlamento para ganhar apoio para este projeto de lei. Que tipos de eventos você organizou?

“Bem, nós focamos em duas áreas. A primeira é a campanha, então nós nos encontramos com políticos e fazemos atividades para ganhar o apoio deles pelo projeto de lei – por exemplo, agora nós estamos organizando um seminário internacional que ocorrerá em 20 de outubro na Câmera dos Deputados, para o qual nós convidamos oradores da Grã-Bretanha e Holanda, dentre outros, onde as fazendas de peles são proibidas – e o objetivo do seminário é dar aos nossos deputados informações sobre como tal proibição funciona na prática e dar a eles a oportunidade de perguntar qualquer coisa que eles estejam preocupados”.

“Setenta por cento dos checos são a favor da proibição das fazendas de peles, e 74 por cento não concordam em matar animais pela pele”.

“E nós também trabalhamos com o público. Isso é a petição que eu mencionei e várias atividades e eventos, por exemplo, no dia 25 de novembro, que é a Sexta-Feira Livre de Pele marcado para ocorrer no mundo inteiro. Nós também trabalhamos no programa Varejistas Sem Pele, um programa mundial para varejistas que decidiram não vender mais peles. Então nós abordamos os varejistas checos e falamos para eles sobre a chance de se unirem ao programa – essa também é uma parte muito importante de nosso trabalho”.

Considerando tudo que você disse – quais são as chances desse projeto de lei ser aprovado?

“Eu devo dizer, eu acho que nunca estivemos tão perto de proibir as fazendas de peles. Eu acho que as chances são consideráveis, porque muitos políticos começaram a considerar o tópico como importante e também o público considera esse tópico como importante. Então eu acho que as chances são grandes. Eu espero que sim”.

Por Daniela Lazavorá / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.