Aves, baleias, renas, lobos e muitos outros animais do Ártico estão a alterar comportamentos devido às alterações climáticas

Aves, baleias, renas, lobos e muitos outros animais do Ártico estão a alterar comportamentos devido às alterações climáticas

Três décadas a monitorizar milhares de animais marinhos e terrestres que habitam ou passam grandes temporadas na zona polar ártica permitiu aos cientistas constatar que as mudanças no clima estão a alterar padrões migratórios e a forma como muitas aves e mamíferos se alimentam e reproduzem. O artigo científico que o aponta foi esta quinta-feira publicado na revista Science e conta com a colaboração de mais de cem investigadores de todo o mundo, entre os quais três portugueses.

Primaveras antecipadas, invernos mais amenos e o degelo do Ártico estão a afetar o comportamento de milhares de animais nativos desta região polar que assiste a um aquecimento do clima mais rápido do que qualquer outra parte do planeta. Com base em dados recolhidos nos últimos 30 anos, mais de 150 cientistas de uma centena de instituições de todo o mundo criaram a maior base de dados sobre o movimento de animais marinhos e terrestre em todo o Ártico e constataram que se esta região entrou num “novo estado ecológico”, com alguns dos animais a chegarem mais cedo ou a reproduzirem-se mais tarde e outros a deixarem de migrar para regiões mais quentes no Inverno.

O artigo “Ecological insights from three decades of animal movement tracking across a changing Arctic” — que dá conta das mudanças de comportamento espacio-temporal de várias espécies de aves e mamíferos que habitam ou passam grandes temporadas no Ártico — foi esta quinta-feira publicado na revista “Science”.

Entre aqueles que já passam mais invernos na Islândia do que no Reino Unido, na Galiza ou no estuário do Tejo (em Portugal) estão os ostraceiros, uma ave preta e branca que chega a pesar 400 ou 600 gramas. “Ao estuário do Tejo chegam por volta de setembro e regressam à Islândia em março, mas atualmente não são mais de 150 os que por cá invernam e são cada vez mais os que ficam na Islândia”, conta ao Expresso José Alves, biólogo da Universidade de Aveiro, coautor do artigo da “Science”.

Esta é uma das aves estudadas pelo investigador no Departamento de Biologia e no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), que se mostra preocupado com o “fenómeno de amplificação polar ártica”, já que “coloca os animais que habitam esta região na linha da frente dos efeitos das alterações climáticas”. Isto porque, explica, “apesar de os invernos estarem mais amenos naquela região, quando sucedem duas semanas com temperaturas abaixo de zero, como aconteceu no ano passado, morrem muito mais aves. E esse é um preço muito alto a pagar”. Os cientistas dão conta disso porque elas acabam por dar à costa. “Só sobrevivem as que conseguem encontrar poiso em locais onde as temperaturas nunca vão abaixo de zero, como acontece junto aos lagos onde existe atividade geotermal”, diz José Alves.

Os cientistas conseguem registar os movimentos destas e de outras aves, como a andorinha-do-mar, as águias, ou o maçarico-de-bico-direito, com recurso à colocação de mini equipamentos com precisão GPS que pesam apenas um grama. Já o maçarico tira partido da antecipação da primavera, chegando às zonas de reprodução na Islândia cada vez mais cedo. O problema, alerta José Alves, é que “os agricultores expandem a área agrícola e os maçaricos que colocam cada vez mais os seus ninhos nas zonas agrícolas perderem habitat natural e correm o risco de os ninhos serem apanhados pela máquinas durante a ceifa”.

AS BALEIAS CHEGAM MAIS CEDO E ESCASSEIA ALIMENTO

Animais de maior porte, como as baleias ou as renas, os lobos ou os ursos, também são monitorizados por GPS e revelam igualmente alterações no padrão de migração ou na forma como se deslocam, alimentam e reproduzem.

“As baleias começam a chegar mais cedo às regiões polares devido ao degelo e a maior disponibilidade de habitat”, explica ao Expresso a bióloga marinha Mónica Silva, da Universidade dos Açores, também co-autora (com o colega Rui Prieto) deste artigo da Science. O problema, diz a investigadora do IMAR – Institute of Marine Research e do Centro Okeano, é que estes grandes mamíferos marinhos que se deslocam de áreas tropicais ou subtropicais para passar o verão no Ártico “correm o risco de chegar lá antes de lá chegarem as suas presas (como o krill)”. E assim espécies como a baleia-azul, a baleia-comum ou a sardinheira “podem não encontrar a quantidade necessária de alimento e a migração seguinte para Sul, onde se reproduzem, fica mais dificultada”.

Mudanças comportamentais de longo prazo e em larga escala também têm sido identificadas em águia, ursos, lobos e renas. No caso destes cervídeos de grande porte que habitam a tundra e florestas boreais da Groenlândia, Escandinávia, Rússia, Alasca e Canadá, os investigadores americanos descobriram que as fêmeas mais a Norte estão a dar à luz no início da primavera, enquanto as das populações mais a sul não mudaram. Contudo, os partos com a possibilidade de ainda existir neve profunda na primavera pode levar a morte prematura das crias e dificuldade de encontrar alimento. Já em relação aos seus predadores, com os ursos e lobos a moverem-se menos com temperaturas mais elevadas, o confronto pode ser mais frequente.

O artigo da Science também indica que o novo banco de dados — que reúne estudos de mais de 100 instituições e centena e meia de cientistas sobre mais de nove mil espécies de animais marinhos e terrestres —é um instrumento importante para investigadores e decisores políticos tomarem decisões e enfrentarem a sexta vaga de extinção de espécies em curso.

Por Carla Tomas 

Fonte: Expresso / mantida a grafia lusitana original 

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