Babesiose, a ‘doença do carrapato’

As babesias são organismos da classe Sporozoa, que vivem dentro das células do hospedeiro e que podem acometer diversas espécies, como gatos, cães, bovinos, equinos e mesmo o humano.

O primeiro caso humano fatal foi descrito em 1956, na antiga Iugoslávia. Para humanos, é considerada uma doença negligenciada pela baixa incidência, e a classe médica, mesmo contando com profissionais competentes, muitas vezes não está preparada para o diagnóstico.

Em medicina veterinária, a doença é bastante frequente, e não são raros os óbitos. Vivemos em um país com condições climáticas muito favoráveis à multiplicação de carrapatos, principalmente os da família ixodidae que são os vetores da doença. Na verdade, a maioria dos nossos cães já teve ou terá contato com carrapatos, em casa, no banho, nos passeios mesmo no meio urbano e nem todos desenvolverão a doença clínica.

Após o contato, o período de incubação pode variar de três a quatro dias para o cão e os sinais serão febre, apatia, perda de apetite, manchas vermelhas pelo corpo, gânglios infartados, icterícia, ascite (barriga d’água) e mucosas pálidas, podendo evoluir para sinais neurológicos.

Os sinais podem variar, pois dependendo do status imunológico do cão ou da presença de doenças concomitantes, a doença pode evoluir de forma aguda ou crônica. Um agravante é que além da babesia, o carrapato pode inocular outros parasitas, como as erlichias, que causam doença semelhante à febre maculosa humana.

Em humanos, parasitas do gênero babesia têm sido incriminados por causarem alterações como artrites, problemas neurológicos, paralisia facial e meningite, apesar da carência de estudos.

O diagnóstico no cão, após um exame minucioso e havendo a suspeita clínica, pode ser feito por exames hematológicos, sorológicos ou técnicas moleculares com a pesquisa de DNA do parasita. O exame de uma gota de sangue coletada da ponta da orelha, pode permitir a visualização do parasita dentro das hemácias, mas o exame negativo não pode excluir a doença. O exame completo do sangue pode revelar alterações que aumentam a suspeita e os testes de DNA podem ser confirmatórios. Os exames sorológicos podem se confundir com outras doenças, como por exemplo a leishmaniose. Pelo exposto, o diagnóstico da babesiose pode não ser tão simples e deve ser feito com um conjunto de dados. Por questão de segurança, como a doença pode progredir rapidamente em alguns dias, é prudente se iniciar o tratamento antes da confirmações pelos exames laboratoriais.

Como dito, muitos dos nossos cães podem albergar o parasita no sangue e não apresentar a doença, ou seja, a babesia pode estar lá e não ser a causa dos sinais. Muitos cães podem conviver com a babesia por tempo indeterminado. O conjunto de dados deve ser avaliado. Um animal pode conviver com o parasita e somente apresentar sinais quando houver uma doença debilitante como a leishmaniose, o câncer ou passar por situações difíceis como a fome, o abandono ou sofrimento psicológico intenso e crônico. Se seu veterinário propôs um diagnóstico de babesiose, questione sempre se não há uma outra doença a ser pesquisada que poderia estar interferindo na imunidade.

O tratamento é feito à base de antibióticos específicos e é eficiente, porém, pode haver recontaminação, ou seja, o animal pode ter babesiose mais de uma vez na vida. Em casos de anemia mais evidente pode ser necessária uma transfusão de sangue e tratamento hospitalar.

O carrapato tem sua reprodução no ambiente e parasita o cão apenas em uma fase da vida. Os adultos se aderem à pele do cão, onde se acasalam e se alimentam de sangue. O macho carrapato é reconhecido como pequeno, rígido e avermelhado e a fêmea é de cor acinzentada e pode estar repleta de sangue adquirindo o tamanho de um grão de feijão. Esta fêmea, após se alimentar e acasalar, deixará o cão e procurará uma fresta de madeira ou na parede para fazer sua postura de mais de mil ovos. Estes ovos poderão gerar filhotes já contaminados com a babesia e podem aguardar mais de um ano para nascer. Isto revela a importância do tratamento do ambiente no controle do parasita. Muitas dedetizações serão necessárias.

Após o passeio com seu cão, faça uma inspeção rápida em sua pele para verificar a presença de carrapatos, principalmente os pés, mãos e orelhas. A retirada de apenas um carrapato pode evitar o nascimento de mais de mil indivíduos. Existem coleiras repelentes para carrapatos à disposição no mercado, mas deve-se sempre estar atento pois os carrapatos aprenderão a se defender de qualquer inseticida criando resistência, o que demanda sempre uma troca de produtos.

Fique sempre atento a sinais de cansaço, mucosas claras e perda de peso do seu amigo, e comunique sempre ao veterinário se foram vistos carrapatos, mesmo que não seja recentemente e mesmo que ele não pergunte. Participe ativamente da consulta, informe, questione, leia e se informe, pois disto pode depender a saúde e longevidade do cão sob sua tutela.

Por Leonardo Maciel

Fonte: Olhar Animal

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