Balanço do 9° Bazar Vegano Floripa e sua nova data com cuidados!

Balanço do 9° Bazar Vegano Floripa e sua nova data com cuidados!

Próxima edição será sábado, dia 14 de agosto de 2021 com os protocolos de segurança (veja no fim da matéria)

Sim, o balanço é dum evento que ocorreu há 16 meses! Levamos o dobro do tempo comparado ao anterior pois quem, por mais pessimista que seja, adivinharia que 17 dias depois da nona edição afundaríamos nesse eterno abismo duma sindemia?! Sabemos que estamos com os piores crápulas no poder, como ano passado reforçado por Thaide no fim do evento, porém, mal poderíamos imaginar esse mundo de mascaras, privações e exclusões ainda mais elevadas, com até hoje mais de meio milhão de pessoas mortas pelo genocida e seus semelhantes, sem contar as sequelas de outras milhões que sobreviveram somado ao desmatamento com agropecuária e caça ainda mais acelerado, e todos os outros milhares de mortos seja por fome ou por grupos de extermínio dos cidadãos de bens. Hoje são mais de 7 mil militares oficialmente no poder, ampliando a manutenção dum pesadelo que parece não ter fim, onde a vida ficou abaixo até mesmo da banalização. E o que é ainda pior, tudo isso naturalizado dia após dia, numa deterioração social. A quem se importa, e tem opção, ficam duras lições que exigem mudanças radicais nos caminhos em organizações sociais, sendo que tudo é política. Uma inevitável remodelação na composição das que se propõe a puxar os rolês, para que cada pessoa se envolva com quem tiver mais afinidade e complementos.

O evento foi cabuloso, num dia de sol ocorrido logo após o último carnaval de rua, em 29 de fevereiro de 2020, com uma pergunta como tema: “Quais as diferenças que somam?”

Teve todas as rodas de bate papo lotadas, com pautas racializadas explicitando a branquialidade como principal alvo na responsabilidade pelos danos acometidos nesse hegemônico projeto implementado de sociedade.

Logo pela manhã tivemos um ponto de encontro de coagricultora(e)s para entrega de cestas com produtos agroecológicos vegetarianos (sem nada animal) produzidos por famílias agricultoras indígenas do centro de formação Tataendy Rupa, do Morro dos Cavalos, Palhoça-SC. Idealização e logística pelo Projeto Bem Viver, iniciada e incentivada nesse local após a nossa oitava edição por ali em 2019.

O Baque Mulher de Floriano-polis abriu nosso evento com toda energia do Maracatu!

Na primeira roda do dia Pedro Makalé, baiano vindo de Curitiba, junto a Denis vindo de SP puxaram papo sobre o racista veganismo. Mas quem preveria que quase um ano depois de ter somado conosco, Denis Durden seria executado a facadas em São Paulo por um branco-vegano?!

Sim, esse é o nosso mais triste e revoltante balanço. Já se passaram quatro messes e o assassino Herbert Prates Rodrigues Lima permanece foragido sobre a negligencia branca-policial de todos os dias #justiçaparadenis

Em sua vida Denis Durden desafiou estatísticas, ele também somava e ainda soma demais para melhorias ao nosso evento. Suas ideias, que não foram poucas, baseadas em vivências permanecerão vivas e atuantes nessa caminhada, e norteiam o modo de produção de nossos próximos eventos. DENIS PRESENTE!

É em memória dele, e de todas as pessoas negras e indígenas exploradas e mortas que não poderemos desistir, não é somente por animais não-humanos, até porque isso seria uma posição contraproducente! Queremos tods essas vivs e bem. As costuras do bazar vão muito além do dia em que ele se manifesta.

Na segunda roda do dia Cintia Cruz contou sobre a sua trajetória diária de luta por autonomia no projeto Revolução dos Baldinhos, tendo que permanentemente lidar com os diversos boicotes que mantem seu território de resistência em péssimas condições. Não adianta nada encher de premiações pra branco usar a imagem dela e de sua comunidade, enquanto o projeto não se mantém economicamente e falta grana/estrutura para as pessoas da perifa “se virarem” podendo se ocupar com autonomia no levante da revolução. Temos o convite e intensão dela para ano que vem somarmos com este bazar cultural na favela onde reside, na comunidade Chico Mendes, um escurecimento do evento que incomoda o sistema branco.

Fernanda, Lais, Diogo, Kara Modou e Monra falaram sobre resgatar suas histórias. Trouxeram suas vivencias, dificuldades e ideias diante da informalidade consequente da desestruturação imposta desde o início da colonização até os dias de hoje, onde a “grana preta” só fica nas mãos de brancos e embranquecidos. Deram Ideias exemplo de práticas vividas em fomentar a economia circular entre a negritude como forma de manter a existência e culturas sabotadas pela falsa meritocracia vigente. Simultaneamente tivemos uma pintura feita pelo aliado Bruno Barbi. Por questões de saúde infelizmente não tivemos também a presença de Luis Antônio BL pra roda que se estendeu devido ao Quilombo Vidal Martins não ter conseguido transporte pra puxar a roda seguinte, fato que vamos reparar pra nossa próxima edição.

Fundamental evidenciar que dentro dessa ilha não temos nenhuma aldeia indígena, que são os verdadeiros nativos daqui. Nativo termo esse roubado por “manézinhos” filhos de portugueses que se apropriaram desde suas primeiras invasões. Aqui temos somente um quilombo, e que não é reconhecido por brancos que visam tomar todos os espaços na ganancia a qual se arquitetam pelo mundo, e ainda mais aqui nesse estado que se auto-proclamam como o “mais europeu” do país.

A única roda do dia com representação no movimento indígena ficou com Geni Nunes. Ela trouxe exatamente as questões de cisgeneridade e privilégios da branquitude, violentadoras violadoras que se naturalizaram. *Problemas ocorridos no calor do evento nos trouxeram outras ideias para materialização de anônimas ações, melhorias à necessária reparação histórica.

A encruzilhada das dádivas nos mostrou sua energia. Tivemos a honra da aderência da Feira AfroArtesanal e do Brechó Pop Rua. Felizes muitas conseguiram acabar com os estoques antes do entardecer, e sem nada de origem animal. Melhoramos nossa relação com os bares nos entornos e com o lixo vindo de fora do evento.

Um dinossauro foi feito com lixos (lixossauro) trazendo atenção sobre o alto volume de lixo mundial ampliado pelo lucro que as empresas tem nessa produção descartável empurrada pra população. Até hoje temos ele guardado e pensamos em leiloar. Leandro Neto do Morro do Mocotó nos deu a ideia e destinar para a crianças da Ocupa Marielle.

Não somos balcão para exposição de empresas, então quem quiser apoiar anonimamente temos uma conta PIX 22 153 125 804

Na outra sala, após a oficina de Jogos Africanos, rolou o “Chá das Mina” espaço de acolhimento e escuta permeado pelas trocas dos saberes e vivências, de intuito a fortalecer a autonomia de mulheres, sejam elas cis, trans ou como melhor se identificarem. O chá é sobretudo uma troca de cuidado na resistência entre manas e monas. Um grupo de apoio mútuo em saúde mental e Redução de Danos também frequentado por mulheres em situação de rua, atividade que já ocorria no espaço, mas que pela primeira vez teve uma vivencia com mesa vegetariana sem nada animal, assim incluindo o respeito as fêmeas não-humanas também mais exploradas no CIStema trancado, desenvolvido e imposto predominantemente por machos brancos. Mesmo ali no próprio evento destinado para tal, mulheres tiveram que reagir a homens que desrespeitaram o espaço. Uma violência estrutural que infelizmente se repete todos os dias por todos os lugares.

Tivemos problemas na instalação do som por uma ramelada duma branquitude que havia dito nos garantir gratuitamente as estruturas pela manhã, mas que só foi concluído no meio da tarde atrapalhando a programação sonora. Então pra nossa próxima edição teremos espaço garantido pro Dj Telinho que ainda conseguiu discotecar um pouquinho com destaque a presença dos Bboys que somaram na cena. Só que, pela correria de tantas atividades simultâneas, infelizmente não temos esse registro conosco, mas muita gente publicou estragrans afora…

O professor Chery deu uma verdadeira aula sobre a revolução haitiana e seu impacto no mundo global. Importante parte da história mundial que propositalmente não é ensinada na maioria dos colégios aqui do Brasil por ainda ditarem políticas eugenistas.

Tivemos uma única branca a puxar roda no dia, tema sugerido por Denis Durden e indicada por membras do MNU-SC, Lia Vainer Schucman levantou a importância sobre brancos lutarem contra o racismo inventado e cometido pela branquitude.

Há mais de dois anos desde que mudamos o evento da privilegiada Lagoa da Conceição para o centrão popular da cidade, convidamos diversos grupos de adoção auto-intitulados como da proteção animal, mas esses coletivos (todos aqui na ilha compostos por brancos), não compareceram. Há indícios e suspeitas de que essa ausência seja por conta de racismo/elitismo, então com uma boa antecedência desafiamos qualquer um desses grupos a comparecer e agregar a nosso evento independente, que não é financiado por shoppings, nem petshops ou agropecuárias.

Insano apresentou sua carreira solo no pré-lançamento do disco Imhotep, e DKG-Dekilograma trouxe muita energia com seu rap, importantíssimo destacar que sem o empenho dele esse evento não teria ocorrido. Valeu poeta vivo, TMJ!

Nas ruas o dia escurece e as cores das pessoas que foram chegando também! Moa com Pretas Power deixaram tudo ainda mais especial, elevando o movimento com suas fortes manifestações!


Franco marcou ótima presença com sua performance solo.

Ana Preta contagiou a tods, e junto a Arnaldo Tifu acompanharam a história viva do hip hop nacional, o nome dele é Thaide que dispensa apresentações, com a discotecagem do residente MonRá, que até então era o único Deejay negro mixando com vinil existente dentro dessa ilha.

Sem palavras poder contar com mais uma das lendas vivas fundadoras de história no hip hop nacional, que na humilde, com sua equipe, vieram de sampa de busão. Uma caminhada pesadíssima de mais de 30 anos. Valeu a todas parcerias que trabalharam conosco pra viabilizar essa vinda, Hudson da Batuk Freak e Ellen Causa Crew.

Uma noite muito especial com alegria estampada nos rostos de muitas pessoas. Em meio a tantos destroços, a felicidade de poder materializar algo não proporcionado pelo estado empresarial. Pode crer!

E O PRÓXIMO EVENTO?

Onze dia após o último evento fizemos uma reunião sobre redução de danos do mesmo para tratar de problemas ocorridos no evento, e com a posterior confirmação da pandemia tivemos que adiar o bazar seguinte que seria em agosto de 2020, e nossa nova data da 10ª edição está definida para sábado 14 de agosto de 2021 tendo e vista de que a maioria de nós nunca tivemos o privilégio de parar e nos isolar, e a certeza de que o bozo e o bozonarismo são mais perigosos do que o vírus. A falta de cultura popular é manutenção da sindemia. Estaremos com mais de 17 meses de experiência respeitando os protocolos de segurança como mascaras, álcool gel, distanciamento e avanço mesmo que lento, da vacinação. Ocorrerá no mesmo local, porém mais arejado sem utilizar as dependências internas do Instituto Arco Iris, ficaremos na área externa, na Travessa Ratcliff com o Calçadão da João Pinto. Nosso evento sempre teve um caráter mais de protesto, contestação e resistência do que festivo, então nos adaptaremos muito bem as necessidades atuais. Somos independentes, ou seja, sem nenhum político, igreja ou empresa por traz, e pela primeira vez será entregue ajuda de custo de 100 reais para cada atividade cultural da programação que já tem sua boa parte confirmada.

Não temos grana e os recursos vêm de apoios anônimos, e se você gostou e quiser nos apoiar segue a nossa conta PIX: 22 153 125 804

EXPOSITORES INTERESSADES: NECESSÁRIO CONTATO COM NOSSA CURADORIA

Já temos em nossa composição algumas expositoras da Feira Afro-Artesanal e dos imigrantes que basicamente são ocupados por sudakas e africanos. Algumas comunidades indígenas também estarão presentes. Para participar é preciso entrar em contato com a Retomada TMJ que coordena esta nova edição Wats 48 991 481 284

email: [email protected]

Fonte: Retomada TMJ @retomadatmj


Nota do Olhar Animal: Diante da natureza deste evento, que reúne diversos movimentos sociais, sentimos a necessidade de fazer aqui uma reflexão sobre a relação entre estes movimentos e o de defesa dos interesses animais não humanos, em especial sobre a relevância da vida de seres sencientes como valor a prevalecer quando confrontado com justificativas culturais ou de qualquer natureza para a continuidade da exploração dos animais e, mais que isso, do especismo. Porém, diante da proximidade da realização da 10ª edição do Bazar Vegano Floripa e atendendo ao pedido da organização do evento para publicarmos este balanço hoje, escreveremos sobre isso um pouco mais adiante, aqui mesmo, em forma de nota, e/ou em matéria à parte.

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