‘Basta de caça’: campanha quer proibir divulgação de vídeos que incentivam a prática na internet

‘Basta de caça’: campanha quer proibir divulgação de vídeos que incentivam a prática na internet
Tartarugas-da-amazônia foram capturadas durança caça ilegal no Araguaia — Foto: Sema-MT

De acordo com a lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção, atualizada e publicada oficialmente na última quarta-feira, 1.249 animais correm risco de desaparecer da natureza e uma das principais ameaças para muitas dessas espécies é a caça.

Caçar animais silvestres é crime no Brasil. A lei de crimes ambientais 9.605, de 98, é explícita quanto à proibição da prática, que só pode ser implementada ou realizada mediante autorização de órgãos competentes, em casos excepcionais, como a caça de espécies invasoras, por exemplo.

Atualmente a única espécie animal cuja caça no Brasil é permitida é o javali, animal exótico introduzido no país e que causa problemas ambientais ao competir com espécies nativas: a facilidade dos javalis em se adaptar a ambientes diversos e até modificados pelo homem e a ausência de predadores naturais o colocam na lista das 100 piores espécies exóticas invasoras do mundo.

Javali é espécie exótica invasora, única cuja caça é autorizada no país — Foto: Pixabay
Javali é espécie exótica invasora, única cuja caça é autorizada no país — Foto: Pixabay

No entanto, apesar da pena prever detenção e multa, a caça não só continua sendo realizada no país, como também divulgada em plataformas de vídeo na internet: centenas de canais compartilham detalhes de atividades de caça, assim como dicas e táticas para caçar. Acabar com essa prática é o principal objetivo da campanha #bastadecaça, lançada na última sexta-feira pela Renctas, Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres.

“A campanha tem dois grandes objetivos: conscientizar a população brasileira sobre o problema e as consequências da caça e mobilizar as pessoas para que possamos, através de uma petição pública, mudar as políticas das plataformas de vídeos, que hoje consideram a caça como atividade aceita, sem fazer distinção da prática legal e ilegal”, explica o coordenador geral da ONG, Dener Giovanini.

Conteúdos informativos sobre os prejuízos da caça de animais silvestres são compartilhados diariamente nas redes sociais da ONG, que já começou a recolher assinaturas para o abaixo assinado. “Além da campanha virtual e da petição, queremos criar uma corrente que leve a mais pessoas a conscientização sobre como a caça pode afetar a conservação da biodiversidade e, consequentemente, a segurança da própria população, uma vez que muitos animais caçados como iguaria para consumo da carne podem ser vetores de diversas doenças. A gente espera que o governo se preocupe não só com a questão ambiental, mas também sanitária, já que há riscos de possíveis surtos ou até epidemias relacionadas à zoonoses por ingestão de carne animal”, reforça.

Proposta da ONG é chegar aos acionistas da plataforma e alterar a política de conteúdo permitido — Foto: Renctas/Divulgação
Proposta da ONG é chegar aos acionistas da plataforma e alterar a política de conteúdo permitido — Foto: Renctas/Divulgação

Incentivo ao crime

De acordo com Dener, existem centenas de canais e perfis nas plataformas digitais que compartilham vídeos e demais conteúdos explícitos de caça de animais silvestres no Brasil. “Encontramos desde canais pequenos, com dois ou três vídeos, até perfis com milhares de seguidores e visualizações. Essas plataformas se tornaram vitrines onde caçadores se exibem matando macacos, veados, tatus, cotias, antas e diversas espécies de aves, assim como outras da fauna brasileira, com as mais diversas finalidades: caça de iguarias, para consumo da carne; ou mesmo caça esportiva, realizada pura e simplesmente com o objetivo de diversão”, diz.

“Eles estão aproveitando a tolerância da plataforma sobre esses conteúdos para ganhar likes, seguidores e ainda lucrar financeiramente, uma vez que monetizam os vídeos”, completa Dener, que destaca ainda os problemas causados por vídeos que ensinam técnicas de caça. “Eles mostram como fazer emboscadas, como fazer mira e como montar armadilhas. Diversas táticas são compartilhadas com objetivo de fomentar e estimular a caça criminosa, ilegal, que tem dizimado populações inteiras e colocado em risco de extinção várias espécies da nossa fauna,”, completa.

Além do conteúdo de conscientização divulgado pela ONG e da petição pública, a Renctas entrou com ações jurídicas e com representação contra o Youtube ao Ministério Público Federal, com objetivo de tirar imediatamente do ar os conteúdos que incentivam a caça de animais silvestres do Brasil.

Até a publicação desta reportagem o YouTube não se manifestou sobre o caso.

 

 
 
 
 
 
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Os impactos da caça

Dener reforça a dificuldade de estimar os prejuízos causados pela prática criminosa, uma vez que não há controle sobre a atividade ilegal, no entanto, pesquisadores e especialistas indicam que milhares de espécies são vítimas da caça.

“A prática é um dos tipos de tráfico de animais e hoje nossa estimativa é que sejam retirados ilegalmente da natureza brasileira cerca de 38 milhões de animais por ano, para diversos fins, sendo um deles a caça esportiva, a caça para consumo ou para fins terapêuticos (comunidades tradicionais usam partes do corpo dos animais para produção de remédios e tratamentos caseiros sem comprovação científica da eficácia)”.

Apoio à campanha

A iniciativa da ONG repercutiu também nas redes sociais de pelo menos outras 30 instituições ambientais, projetos conservacionistas e nos perfis de biólogos e pesquisadores que movimentam a hashtag #todoscontraacaçayoutube e demais hashtags relacionadas ao tema.

Fonte: g1

Controle populacional de javalis

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