Cães doentes são obrigados a usar focinheira em hospital municipal veterinário no Rio

Cães doentes são obrigados a usar focinheira em hospital municipal veterinário no Rio

Por Ana Paula Blower

RJ caes focinheira hospital

Os tutores de cachorros que levam seus pets ao Instituto municipal de medicina veterinária Jorge Vaitsman, na Mangueira, Zona Norte do Rio, denunciam que vêm enfrentando uma série de problemas. Além da falta de medicamentos, frequentadores relataram ao GLOBO que a direção do local passou a exigir o uso de focinheiras em cachorros de médio e grande porte. Muitos tutores chegam desavisados e tem de comprar o acessório, perdendo lugar na fila de espera e gastando dinheiro que, muitas vezes, não têm. Com a saúde debilitada e o forte calor, os cães amordaçados ficam com dificuldade de respirar e de se hidratar. As reclamações giram ainda em torno da falta de estrutura e de profissionais. A unidade presta serviços gratuitos de veterinária e atendimentos especializados para animais de estimação a baixo custo.

Quem não consegue comprar o acessório por falta de dinheiro ou para não perder lugar na fila, improvisa. Uma funcionária do local que preferiu não se identificar disse que viu um cão com sobrepeso da raça beagle com o focinho amarrado com fita crepe, sem conseguir respirar. Além dele, a funcionária viu, nesta semana, mais de dois cães na mesma situação, com os focinhos amarrados de forma agressiva.

A dona de casa Cássia Sampaio passou, nesta semana, pelo mesmo problema com sua labradora, de 13 anos, que faz tratamento no local.

— A Pantera está tratando uma leptospirose. Ela ficou das 6h às 16h no calor, com focinheira. Ela não tem os dentes da frente. Qual a necessidade disso? — questiona Cássia.

No mesmo dia, a dona de casa diz que presenciou um cão recém operado ser obrigado por policiais a colocar a focinheira.

— Alguma coisa tem que ser feita. É a única opção que temos para atendimento a baixo custo e tanto os cães quanto os tutores estão passando por constrangimentos.

Ela conta ainda que, na última quinta-feira, foi recepcionada pelos funcionários do local com a notícia de que o instituto estaria sem nenhum medicamento, apenas soro.

Nas redes sociais, as mesmas reclamações. Uma jovem, cujo cão tem epilepsia e fazia tratamento no local, escreveu em seu perfil no Facebook:

“Após ficar um longo período de tempo na fila, (…) um funcionário veio dizendo que cães de médio e grande porte só poderiam entrar com focinheira e aonde vendia. Como assim? Se estamos indo num local público é porque já esperamos o serviço deles e nada de gastar por fora. Além do mais, se eu fosse no tal lugar comprar a focinheira, iria perder meu local na fila. Tive que madrugar para dar de cara com isso? Já que há uma preocupação com a segurança, deveriam disponibilizar as focinheiras. Mas, não. Ao invés de tratar os bichos, criam limitações”.

A veterinária e diretora da ONG Anida, de proteção aos animais, Andrea Lambert, classifica a ação como grave. Ela afirma que a direção do hospital exigiu o uso de focinheiras após uma criança ter sido mordida no local.

— Ali não é para crianças ficarem correndo, é para atendimento de animais. Na unidade, falta também raio-X e profissionais. Nos últimos anos, foram afastados dez veterinários, posições que não foram substituídas.

De acordo com o artigo 27 da lei 4808, o uso de focinheira é necessário apenas se o cão apresentar comportamento agressivo, respeitando a vontade do tutor:

“O cão de qualquer raça que for considerado agressivo na avaliação comportamental estará sujeito às seguintes medidas, ressalvado o direito do proprietário ou do possuidor do animal, que discordar dessa avaliação, de adotar as medidas legais cabíveis: condução em locais públicos com uso de coleira, guia e focinheira que permita total abertura da boca do cão, possibilitando a perda de calor pela via respiratória, independente de raça e tamanho, ou em veículos, com utilização dos equipamentos de contenção necessários a tornar impossível a evasão.

Em agosto de 2013, o decreto 37.490 motivou uma greve geral no Instituto de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman. O decreto, que acabou sendo revogado, restringia o atendimento clínico e cirúrgico da unidade a casos de zoonoses (doenças comuns a homens e animais, como raiva, leishmaniose, leptospirose e sarna) e castrações. Dessa forma, casos como infecções, tumores, fraturas e qualquer outra patologia não associada às zoonoses ficariam sem tratamento, exames ou cirurgias, que eram oferecidos no instituto a preços populares.

Até a publicação desta matéria a prefeitura não se manifestou.

Fonte: Extra

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