Cães vegetarianos

Por Leonardo Maciel 

Os problemas dermatológicos em cães são um motivo frequente de preocupação dos tutores. As coceiras são a principal queixa e um desafio diagnóstico pela multiplicidade de causas. Podem estar envolvidos desde distúrbios hormonais até os de ordem psicogênica.

A principal causa de prurido é a alergia a picada de pulgas e o controle dos parasitas resolve o problema, porém, nem sempre o diagnóstico é fácil. Existem no mercado testes intradérmicos que verificam a sensibilidade a alergenos, desde o pólen até proteínas de origem animal, com proposta de tratamento de dessensibilização por vacinas. O tratamento é longo e pode ser bastante dispendioso.

Uma proporção significativa de cães têm apresentado alergias de ordem alimentar com sintomas que além do prurido envolvem flatulência, intestino irritado e inconstante, otites, propensão a infecções de pele, secreção ocular abundante e gastrites. Muitos cães têm sido tratados com mudanças drásticas na alimentação com diagnóstico de alergia a algum tipo de proteína de origem animal. A maior parte das rações comerciais são mistas, ou seja, são compostas por proteínas de origem animal de várias espécies, como suínos, aves,bovinos e peixes. Para os que apresentem sensibilidade específica, existem as rações compostas apenas por um tipo de proteína animal, como as rações compostas por carne de frango, cordeiro, peixe ou perú. O que tem sido observado, entretanto é que os animais que consomem as rações com fonte de proteína única, podem se tornarem alérgicos a ela também, levando a frequentes trocas de ração.

Muitos cães, diagnosticados com alergia de causa não determinada têm melhorado significativamente sua qualidade de vida, senão resolvido o problema, com a mudança de alimentação industrializada por alimentação natural, sem carne ou outros produtos de origem animal. Nestes casos supõe-se que o sistema imunológico destes indivíduos reconheça a proteína animal como um alergeno e passe a produzir anticorpos contra esta proteína, porém, estes anticorpos são maléficos para este mesmo indivíduo que os produziu, transformando-se em uma doença imunomediada. Estão sendo disponibilizadas rações que contém a proteína animal hidrolisada, como se fosse pré digerida ou fragmentada, o que dificultaria o reconhecimento do sistema imunológico do cão a estas proteínas.

Há que se supor também que a alergia possa ser devida a outros componentes da ração, como os palatabilizantes, estabilizantes, corantes, conservantes, anti- oxidantes, inibidores de crescimento de fungos e tantos outros.

Existe uma ração vegetariana para cães no mercado, porém ainda com limitações, não pela impossibilidade do cão ser vegetariano, mas pela falta de incentivo à pesquisa de rações, pouca demanda e falta de interesse pela classe veterinária. Sim, o cão e o gato podem consumir ração vegetariana e terem uma vida saudável. A discussão sobre alimentação ética dos animais que estão em nossas famílias é ainda incipiente apesar do grande número de informações das quais dispomos. Eu particularmente acho que deve ser tedioso comer a mesma ração com o mesmo gosto todos os dias, entretanto, em algumas situações ainda é útil, pois temos rações formuladas para diabéticos, hipertensos, nefropatas, hepatopatas e convalescentes de quimioterapia por exemplo. As pesquisas existem, porém não houve ainda interesse em colocá-las em prática e formular rações vegetarianas para as diversas condições clínicas.

Mudar a alimentação do animal sob sua tutela sem a devida orientação pode trazer consequências desastrosas, principalmente para os gatos. A responsabilidade do tutor vegetariano para com seu tutelado não humano deve ser encarada com a mesma responsabilidade com que encara a própria nutrição, com o agravante de que o cão não pode escolher.


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