Cartas de Buenos Aires: Argentina contra os zoológicos

Cartas de Buenos Aires: Argentina contra os zoológicos

O Prefeito de Buenos Aires decidiu, finalmente, transformar o zoológico em um ecoparque e transferir os animais a refúgios naturais.

Foi um dos Natais mais quentes que passei em Buenos Aires. O calor foi tão intenso que a energia acabou. A demanda de ares-condicionados superava imensamente a oferta de energia. A sensação térmica chegou a 50 graus. A impressão foi a de estar parado ao lado do motor de um caminhão. Era dezembro de 2012.

Foi nesse cenário subsaariano que Winner morreu de hipertermia. O último urso polar do zoológico de Buenos Aires passou suas derradeiras horas com um ataque de pânico causado pelos fogos de artifício e morreu de calor, literalmente.

Há 140 anos o zoológico de Buenos Aires está em um dos centros nervosos do maior bairro da capital argentina, Palermo. Com mais de 1500 animais, prédios históricos em ruínas, o zoológico de Palermo é uma espécie de Jurassic Park portenho. Os animais soltos no terreno às vezes fogem e eventualmente são vítimas de acidentes. No final do ano passado, duas lebres gigantes escaparam e uma delas teve um fim trágico: atordoada, morreu atropelada em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade, as avenidas Scalabrini Ortiz e Santa Fé.

A situação de decadência era evidente. Há anos ONGs pediam o fechamento do zoológico. Sandra, uma orangotango, chegou a ganhar um habeas corpus para ser transferida a um refúgio no Brasil. A juíza entendeu que ela era uma “pessoa não humana” e tinha direito à liberdade.

O Prefeito de Buenos Aires decidiu, finalmente, transformar o zoológico em um ecoparque e transferir os animais a refúgios naturais. O mesmo aconteceu com o zoológico da capital da província de Buenos Aires, La Plata.

Enquanto isso, um dos zoológicos mais polêmicos do continente continuará aberto. O zoológico Luján, freqüentado, em sua maioria, por turistas brasileiros, e que permite a interação de visitantes com animais selvagens (como dar mamadeira na boca de um leão), está na mira de legisladores e ONGs mas, pelo menos por ora, continuará no roteiro dos turistas, que parecem não querer saber como animais selvagens se tornam aptos para o convívio com humanos.

Em Mendoza, o último urso polar do país, Arturo, está com os dias contados. Depois de uma campanha nacional promovida pelo Greenpeace a fim de que ele fosse levado a um refúgio no Canadá, uma junta veterinária decidiu que ele tem poucas chances de sobrevivência, se viajar. Arturo poderá não sair vivo do próximo verão.

O prognostico é ruim para Arturo e todos os outros animais de seu zoológico. Só no começo do ano, mais de 60 animais morreram no zoológico de Mendoza. Vamos ver se a comoção causada pelo calvário dos animais será suficiente para que a Argentina, com o tempo, se transforme no primeiro país da região a, pelo menos, rever o conceito dos zoológicos.

Fonte: O Globo

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