Casal que vive em reserva em MS testemunha salvamento de animais no ‘ano do fogo’

Casal que vive em reserva em MS testemunha salvamento de animais no ‘ano do fogo’
João e Júlia deixaram a casa no Jardim Cerejeira e moram no Cras há 1 ano e meio (Foto: Henrique Kawaminami)

Quando o caseiro João Alexandre da Silva, 49 anos, se aproxima da jaula, a pequena jaguatirica fica atenta e brinca com ele, pelas grades, como um gatinho. Mesmo filhote, já dava mostras que o instinto falava mais alto. “Quando não tá comendo, ela é de boa, mas quando tá com carne, né, bebê?”.

O animal foi resgatado de canavial no Estado, no 2º semestre deste ano. Este mês, já maior, a jovem jaguatirica foi devolvida à natureza, em Miranda. Os animais que vêm e vão fazem parte da rotina de trabalho de João, caseiro do Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres), em Campo Grande (MS), onde mora há 1 ano e meio com a esposa, Júlia, com quem está casado há 21 anos.

Antes de ser caseiro, João foi tratador por cerca de 2 anos, função que Julia também assumiu quando chegou ao centro. São testemunhas de trabalho desafiado pelas queimadas no Pantanal, que mataram centenas de animais e deixaram outros milhares de feridos pelo caminho.

 “Esse ano a queimada foi devastadora, não é fácil você ver os bichos queimados, morrendo”, conta Julia Garay, 49 anos. Uma das imagens recentes dessa tragédia foi a chegada de anta, em outubro, transportada da Serra do Amolar, no Pantanal.

Anta resgatada na Serra do Amolar, no Pantanal. (Foto/Divulgação)

“A anta chorava, não conseguia colocar a pata no chão; você via aquele animal enorme, todo queimado, sofrendo, difícil. Os veterinários fazem o que podem, mas é muito difícil”, lembra Júlia. Dias depois da chegada, a anta de cerca de 170 quilos morreu de pneumonia, decorrente da fumaça inalada.

Gravidade – A coordenadora do Cras, Aline Bitencourt de Oliveira Duarte, diz que a demanda é naturalmente maior no 2º semestre do ano, época de reprodução dos animais, quando o centro chega a receber cerca de 1,8 mil animais. No primeiro semestre, esse índice médio é de 800 mil. São bichos resgatados de flagrante de tráfico, abandonados em canaviais e das queimadas.

Aline conta que, este ano, o diferencial foi a gravidade dos ferimentos desses animais resgatados das áreas afetadas pelos incêndios. “Eles chegam muito debilitados, exigem maior atendimento, mais cuidado”.

Por isso, nem sempre é possível ter resultado favorável, mesmo depois do resgate. Exemplo é o tamanduá-bandeira adulto, encontrado no dia 9 de novembro na Estrada Parque, em Corumbá, com severas queimaduras nas patas. Morreu dois dias depois. Uma onça pintada macho, localizada na região do Acurizal, na Serra do Amolar, em novembro, também não resistiu aos ferimentos causados pelo fogo e morreu horas após chegar ao Cras.

O outro felino que foi encontrado com a onça ainda está em tratamento no Cras e se recupera bem. O animal teve queimaduras de segundo e terceiro graus e está sendo submetido a aplicações de ozônio nas patas. Deve ser reintegrado à natureza em janeiro.

Resgatada com ferimentos nas patas, onça deverá ser reintegrada à natureza em janeiro. (Foto: Henrique Kawaminami)

Em 2020, o Cras atendeu 30 animais feridos nas queimadas, alguns até de regiões no entorno de Campo Grande, como duas araras que tiveram os ninhos atingidos pelo fogo em reservas.

Rotina – O trabalho de João e Júlia está na porta de casa. Eles moram dentro da reserva do Cras e fazem parte da equipe formada por mais três tratadores, além dos quatro veterinários, dois biólogos e um zootecnista que hoje cuidam de cerca de 250 animais.

Casal mora no Cras e auxilia nos cuidados aos animais. (Foto: Henrique Kawaminami)

Antes do Cras, João trabalhou na construção civil por 16 anos. “Sempre gostei de bicho, criava galinha, pato, essas coisas”. Mesmo assim, o início foi aprendizado. “Eu não sabia segurar gambá, tem que ser pelo pescoço, segurar as pernas; agora eu pego pelo rabo, igual ioiô, para ele não morder” brinca.

Julia era copeira e se mudou para  Cras quando ofereceram a vaga de caseiro para o marido. Hoje, auxilia na cozinha, fazendo a alimentação dos bichos e no trato do biotério, onde ficam os animais de pesquisa. Aos finais de semana, também se encarrega dos filhotes. “Tem que dar mamadeira, eu gosto de todos eles”.

 

João alimenta os animais e, por isso, tem contato diário mais direto. O xodó dele é Anselmo – ou “Oncelmo” – a onça parda que hoje tem 1 ano e meio e foi resgatada ainda filhote de canavial em Rio Negro.  A regra é que os animais não recebam nome, uma forma de evitar apego que logo terá um final. No caso de Anselmo, foi inevitável para João. “É o nosso gatinho, chegou bebezinho”.

O felino é um gatão brincalhão, que se aproxima com facilidade dos seres humanos, um risco, para ele, se estivesse no ambiente natural. Anselmo é exceção, pois o objetivo é reintrodução dos animais à natureza. Mas, para isso, é preciso que parceiros auxiliem no trabalho, que envolve treinamento de caça e monitoramento. É o que vai acontecer com outra onça, que será liberada em janeiro, aos cuidados da Onçafári.

Mesmo se tivesse sido treinado para soltura, há dificuldade em se encontrar quem aceite receber onças pardas. Os fazendeiros cadastrados, proprietários de áreas de reserva, temem que os felinos ataquem seus rebanhos e não aceitam recebê-los. O provável destino de Anselmo é zoológico ou instituição de pesquisa.

A proximidade com animais influenciou até a filha do casal, Ana Cristina, de 19 anos, que está cursando Medicina Veterinária. A jovem mora na casa da família, no Jardim Cerejeira, mas visita os pais e acabou seguindo caminho semelhante.

Julia diz que morar tão perto dos animais mudou sua percepção sobre o meio ambiente. “Gostava de animais, mas não tinha essa visão sobre animal silvestre, você vê com outros olhos, pega amor pelos bichos, hoje eu ouço falar de matar bicho, para mim é inaceitável; você quer ver ele sobreviver, faz de tudo para ele se recuperar”.

Por Silvia Frias 

Fonte: Campo Grande News 

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