Castração, priorizar machos ou fêmeas?

Por Leonardo Maciel

A superpopulação canina e felina é uma questão urgente a ser resolvida, responsáveis que somos pelos animais que trouxemos para nosso convívio. Os órgãos de saúde pública avaliam o aspecto das zoonoses enquanto as entidades e pessoas que militam na proteção e respeito aos animais tentam minimizar sofrimento e abandono.

Fato é que a educação humanitária e a sensibilização para a causa promovem mais resultado que qualquer programa de castração. O despertar da responsabilidade do tutor é entretanto um processo lento que envolve mudanças de paradigmas de uma geração a outra, e enquanto isto a castração evita muito sofrimento para nossos companheiros não humanos.

A castração de fêmeas, a ovariosalpingohisterectomia, é a abertura da cavidade abdominal para retirada do útero, trompas e ovários, sendo um processo mais delicado e que requer habilidade e prática. A castração do macho, a orquiectomia, é por sua vez, a abertura da bolsa escrotal para retirada dos testículos, e apesar de delicado, o processo é um pouco mais simples, menos oneroso e com menor risco se comparado ao procedimento nas fêmeas. Ambos os processos envolvem anestesia geral ou peridural.

Para o indivíduo, a castração das fêmeas traz os benefícios da diminuição da incidência do câncer de mama, o desconforto da gravidez psicológica, o risco de infecção no útero, o sofrimento na tentativa de alimentar e defender os filhos além de cessar o risco das doenças venéreas. Para os machos, a castração diminui a incidência do câncer de próstata que é raro, evita doenças venéreas além das disputas sangrentas pelas fêmeas. Pelos motivos acima, a castração traria mais benefícios para as fêmeas do que para os machos.

Devido à carência de recursos e à urgência da situação, muitas entidades de proteção animal procuram otimizar recursos e concentrar esforços em castração apenas de fêmeas, o que realmente produz resultados mais imediatos em termos de alívio de sofrimento. É óbvio que se os recursos estiverem disponíveis, castram-se machos e fêmeas igualmente.

Segundo experiências bem sucedidas, algumas expostas pela Organização Mundial de Saúde, para se ter sucesso em um programa de controle populacional de cães e gatos é preciso uma ação de castração de uma parcela significativa da população em questão num espaço muito curto de tempo, pelo menos 20%, para se estabilizar a curva ascendente do crescimento populacional. A partir de então parte-se para um processo contínuo de esterilizações com diminuição gradual da curva populacional. Se os procedimentos iniciais forem muito lentos, o efeito é enxugar gelo.

Uma proposta possível seria realmente, no início de um programa, ou quando a situação é crítica, canalizar os esforços para a castração de fêmeas. Se a opção de utilização de recursos iniciais seria disponibilidade para castrar dez machos ou três fêmeas, estas últimas proporcionariam melhores resultados.

Além disto, como vivemos em uma sociedade onde ainda prevalece a dominância do homem, branco , heterosexual e machista, a castração dos machos ainda enfrenta problemas de convencimento e um grande gasto de energia. A castração de fêmeas por outro lado, encontra menos impedimentos, porque com elas se pode tudo se depender dos homens e as mulheres se sentem solidárias ao saber da possibilidade de ficar livre das alterações hormonais e gestações indesejáveis. Priorizar as fêmeas no começo pode ser apagar o maior foco do incêndio.

A resposta para esta dúvida bastante frequente entre ONGs e protetores, pode estar na avaliação da fase na qual se encontra o processo e na meta estabelecida.

Para o controle populacional de sucesso, as metas devem ser traçadas para períodos curtos de tempo, como dois ou três anos em comunidades pequenas, caso contrário é enxugar gelo. Bastante difícil é saber, de início, a prevalência dos sexos em determinada comunidade ou localidade, pois as “estatísticas “ podem falhar enormemente. Na dúvida, aliviar as fêmeas priorizando-as, com certeza produz melhores resultados.


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