Cerca de 200 gatos estão em situação de abandono em Piatã, Salvador, BA

Cerca de 200 gatos estão em situação de abandono em Piatã, Salvador, BA

Na orla de Piatã, em Salvador, a cena chama a atenção de quem passa. Inúmeros gatos abandonados passeiam pela grama e calçada, próximo à ciclovia e à pista de carros. Se misturando ao mato que cerca a areia da praia, casinhas, gaiolas, caixas de sapato, proteção contra a chuva, brinquedos, potes de ração e de água. Essa é a colônia de gatos de Piatã, mantida por moradores da região e protetores dos animais, que pedem socorro ao poder público. Segundo eles, o local já conta com cerca de 200 gatos.

A colônia parece atração turística. Quem vem se exercitando acaba parando para ver os bichinhos. Alguns se aproximam para brincar com eles e acariciar. As crianças pedem para tirar foto com os animais. Para muitos, não há nenhum problema, mas abandono de animais é crime. Os gatos ficam expostos a diversos riscos e ainda podem transmitir doenças para os seres humanos.  

A protetora dos animais Patruska Barreiro atua em diversas colônias de gatos de Salvador, inclusive a de Piatã. Segundo ela, os casos de abandono são diários e a situação é insustentável. “A maioria são bebês muito pequenos, indefesos, e o destino, infelizmente, é a morte. Porque ali tem uma pista de carros altamente movimentada, os gatos ficam sujeitos às intempéries do ambiente, como calor, frio e chuva. Eles acabam adoecendo, atropelados ou mortos pelos próprios cães que ficam no local”, explica ela.

Patruska conta que, nesta segunda-feira (15), uma senhora tentou abandonar 53 gatos no local. “A protetora que estava no local na hora chamou a polícia, que chegou e não quis fazer nada. Isso foi uma recusa da Polícia Militar de atuar num crime de flagrante”, completa.

A protetora diz que a situação só poderá mudar com a união de esforços do poder público e dos protetores dos animais. “Os protetores tentam, de certa forma, manter a alimentação e saúde desses animais e, na medida do possível, a gente vai retirando os filhotes das ruas e levando, quando há espaço, para as nossas residências. Tem protetores que hoje têm mais de 50 gatos em casa, eu tenho 150”, pontua ela.

“A gente vai fazendo o papel de cuidar, que é do poder público. Quem é protetor não recebe dinheiro, salário, verba pública nenhuma para fazer esse trabalho, a gente faz porque a gente ama os animais e não quer ver eles nessa situação de sofrimento. Mas a gente não tem como absorver 200 gatos, não tem para onde levar. Até porque, se eu tirar hoje esses 200 gatos de lá, amanhã já tem 50, porque ninguém fiscaliza e as pessoas continuam despejando os animais nesses locais”, finaliza. 

Ciclo vicioso

De acordo com a moradora da região Ingrid Loureiro, de 24 anos, que passava pelo local e decidiu brincar com os gatinhos, os casos de abandono são recorrentes e já acontecem há anos porque quem comete o crime sabe que existem voluntários para cuidar dos bichos. 

“A quantidade é muito grande e sempre vai aumentando. Tem gente que já tem gatos e, quando a fêmea está prenha, larga aqui porque sabe que tem ONGs que trazem comida e água. Sempre soltam gatos aqui; teve até uma época que estavam matando alguns, aí algumas ONGs levaram eles daqui, mas não adianta, sempre chegam mais”, relata ela.

O servidor público Francisco Lessa, de 44 anos, conta que já passou diversas vezes pelo local e percebeu a situação de abandono. Ele foi com a filha, Beatriz, de 14 anos, levar ração para os gatos na tarde desta terça-feira. “Ontem eu passei aqui e vi uma gatinha idêntica à nossa, que era de rua e a gente adotou, aí isso me tocou e eu chamei minha filha caçula para a gente vir aqui. É uma situação delicada aqui, mas de fome eles não podem morrer”, diz.

Gatos à solta

A brigada K9 do Corpo de Bombeiros, criada e liderada pelo comandante França, informou que, desde o início da pandemia, o abandono dos felinos é quase cinco vezes maior.

Segundo José Eduardo Ungar, que é presidente da Comissão de Saúde Pública do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-BA), o mapeamento do abandono de gatos se torna mais difícil que o dos cães pelo seu instinto animal. Circunstâncias como a alta reprodutividade e a capacidade de se adaptarem às vias públicas dificulta a identificação desses animais, o que não acontece tanto com os cachorros de rua.

“A população felina tende a crescer muito mais rápido e isso se torna mais grave por conta dos abandonos de animais não castrados, principalmente dos mais jovens. Além de poder procriar a cada três meses, a gata entra no cio a partir do quarto mês de vida”, aponta Ungar. 

De quem é a culpa?

Procurada pelo CORREIO, a Diretoria de Promoção à Saúde e Proteção Animal (DIPA), alegou que atua na área de cuidado com os bichos e que a responsabilidade pela fiscalização e punição é da polícia. Em entrevista por telefone, a diretora da pasta, Tainara Ferreira, informou que a diretoria está tentando viabilizar uma parceria com a  Companhia de Polícia de Proteção Ambiental  (COPPA) para a prevenção de novos abandonos. 

“A gente vai colocar o castramóvel lá para dar um suporte melhor para a castração desses animais. E estamos em parceria com os protetores, que vão cuidar do pós-operatório, para tentar controlar a população que vive ali. Mas o importante também é a conscientização para que não haja abandonos”, disse. 

O castramóvel vai estar no local a partir da próxima segunda-feira (22), visando o controle populacional desses animais e a prevenção de doenças. O funcionamento é a partir das 8h e o agendamento pode ser feito através do e-mail da Diretoria [email protected] 

Na tarde desta terça-feira (16), placas de conscientização foram instaladas nos postes próximos à colônia de gatos. “Abandono de animais é crime!”, diz o aviso. 

O CORREIO procurou a Polícia Militar da Bahia para falar sobre o assunto. Em resposta, a PM recomendou que o contato fosse feito com o poder público municipal responsável.

Vale ressaltar que, para aqueles que desejam realizar a adoção responsável, o processo passa por procurar sempre os abrigos, porque são locais que fazem a triagem dos bichanos e se certificam de que não espalharão doenças que podem afetar até os humanos. Nos casos dos animais de rua, antes de levá-los para casa, se certifique da saúde dele em uma unidade veterinária. 

Abandono de animais é crime!

Segundo a advogada Marilena Galvão, presidente da Comissão Especial de Defesa dos Animais (Ceda) da Ordem dos Advogados da Bahia (OAB-BA), abandonar ou maltratar animais é crime previsto pela Lei Federal nº 9.605/98. Além disso, uma nova legislação, a Lei Federal nº 14.064/20, sancionada em setembro do ano passado, aumentou a pena de detenção que era de até um ano para até cinco anos para quem cometer este crime e vale tanto para pessoas físicas como jurídicas.

Marilena ressalta que não há uma ação eficaz capaz de fiscalizar e punir adequadamente. “Realmente é um jogo dos poderes constituídos empurrando a responsabilidade um para o outro, até porque, acima de tudo, não existem políticas públicas no Brasil, na Bahia e nem em Salvador, eficazes e como a lei manda, para proteger e cuidar dos animais”, pontua.

De acordo com a advogada, a situação é preocupante. “As ONGs estão lotadas. Com a pandemia, infelizmente, a coisa piorou muito por conta da diminuição do poder aquisitivo das pessoas e também porque muita gente está ficando mais em casa e tendo que dividir espaço com os bichos”, explica. Ela ainda faz o alerta: “É uma questão de saúde pública. Os animais são soltos nas ruas de qualquer forma e se proliferam, sem vermifugação e sem vacinação, transmitindo doenças”.

Quem for testemunha de qualquer tipo de violência contra animais, pode denunciar pelos números (71) 3235-000 (Salvador), 181 (interior), ou diretamente à polícia pelo 190.

Para casos sem flagrantes, o recomendável é reunir o máximo de informações sobre o agressor e a situação do animal, através de imagens, por exemplo. A testemunha deve se dirigir à delegacia mais próxima, fazer a denúncia e aguardar o Boletim de Ocorrência (B.O.) para acompanhar o caso. Também é possível procurar o Ministério Público Estadual e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para registrar a denúncia.

Por Carolina Cerqueira, com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

Fonte: Correio 24 Horas 

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