FILME chimpanzes merlin

Chimpanzés estão prestes a ter seu momento ‘Blackfish’

Por Ari Phillips / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Considerando o tema, os humanos acabaram parecendo surpreendentemente bons no novo documentário da HBO Unlocking the Cage (Destrancando a Jaula) dos renomados documentaristas Chris Hegedeus e Pennebaker. Nós parecemos uma espécie lógica, bem humorada, inteligente e empática que geralmente trabalha em busca do bem maior. Há muito choro e pouca irracionalidade. Que bom seria se a realidade satisfizesse tão facilmente esses padrões no dia a dia.

Entretanto, as verdadeiras estrelas do filme, os chimpanzés, não parecem tão bem. Na maior parte das vezes, eles estão presos atrás de grades, frequentemente sozinhos e claramente perturbados, se não abertamente bravos ou hostis.

Mas a culpa não é deles.

O problema, do ponto de vista de Steven Wise, um intrépido advogado dos direitos dos animais e estrela do documentário, é que os chimpanzés não possuem direitos. Na realidade, nenhum animal não humano possui direitos. Existem leis orientando como os animais devem ser tratados e protegidos, mas essas leis não concedem qualquer tipo de “personalidade” legal para as criaturas. Chimpanzés podem ser mantidos contra a vontade – basicamente como propriedade – por períodos indeterminados e indefinidos de tempo.

Wise quer mudar isso tudo e o documentário acompanha alguns desenvolvimentos recentes emocionantes em seu esforço de 30 anos para redirecionar a lei em benefício dos animais não humanos. Wise e sua equipe legal, o Nonhuman Rights Project (NhRP – Projeto pelos Direitos Não Humanos), tem se encarregado de apresentar as primeiras ações legais buscando transformar um animal, neste caso um chimpanzé, de uma “coisa” sem direitos para uma “pessoa” com direitos legais.

Se tudo der certo, os chimpanzés que estão sendo mantidos em cativeiro de maneira que significativamente inibem seu senso de autonomia e determinação – basicamente chimpanzés mantidos em jaulas com pouca interação social – terão o direito de ser movidos para outras localidades mais acolhedoras, como o santuário de 150 acres Save the Chimps na Flórida, nos EUA. Wise e sua equipe querem que aos chimpanzés e outros animais que atendem padrões cognitivos pré-determinados sejam concedidos certos direitos fundamentais de personalidade que, no mínimo os proteja do abuso físico. E eles estão dispostos a entrar com ações legais, apelar contra as decisões e entrar com mais ações – o que eles estão fazendo com um progresso moderado nos últimos três anos com os produtores acompanhando tudo.

FILME chimpanzes stevewise teko

Antes de ficar empolgado, lembre-se que estamos falando do sistema legal dos EUA. Este se move dolorosamente devagar conforme juízes hesitam em estender o arco da justiça muito mais do que um grau de cada vez. Wise, que passou uma parte considerável do filme falando com a câmera enquanto dirige (estes foram alguns dos momentos mais tensos para mim, em um ponto que um caminhão dos correios entra precariamente na rodovia) ou na frente de uma cética sala de tribunal, diz justamente isso. Os objetivos das ações judiciais, todos feitos em New York, são para fazer com que a conversa comece, para colocar alguma linguagem jurídica sobre animais não humanos nos livros, e começar o processo que possa um dia levar à conquista do planeta pelos bravos símios. Não, espere aí, essa é outra trama, mas você entendeu.

Enquanto Unlocking the Cage possa não ser tão fascinante como qualquer um dos filmes “Planeta dos Macacos”, ele é igualmente cativante e muito mais provocante. Até mesmo as cenas cheias de jargões legais – eu tenho certeza que saberei para sempre o que é habeas corpus – conseguem manter o argumento fluindo em um ritmo que os espectadores podem apreciar tanto pela profundidade como pela contenção.

O que realmente brilha é a inteligência de cair o queixo dos chimpanzés. Eles podem se comunicar em linguagem de sinais, memorizar padrões complexos e navegar certas interfaces de computadores com facilidade. E, minha nossa, como eles sofrem e ficam de luto. Quando Wise visita um chimpanzé idoso três dias após a morte de seu companheiro de longa data, o animal está tão apático que chega a quebrar o coração conforme ele se encolhe no canto de sua área fechada externa. Na viagem de volta, Wise diz que esse sim era um animal “deprimido”.

Animais deprimidos, apesar de poderem nos arrancar lágrimas, não são um argumento legal para conceder direitos de personalidade para animais não humanos e, enquanto os casos se focam em alguns chimpanzés, as cenas da sala de tribunal giram ao redor do debate e das implicações mais amplas. Wise e sua equipe dão de cara com resultados extremamente decepcionantes nos dois primeiros encontros na corte quando os juízes não se deixam influenciar por seus argumentos.

Em uma ocasião, eles são desencorajados pela ideia de dar direitos aos animais sem que eles tivessem qualquer responsabilidade. Wise tenta colocar uma analogia com crianças, mas fica aquém, conforme as diferenças quando escrutinadas se tornam enormes. Uma das cortes de apelação decide que chimpanzés, como uma espécie, não podem ter direitos e responsabilidades – o que é considerado uma qualificação legal para personalidade. Sendo assim, a corte conclui que os chimpanzés não têm direito aos direitos e proteções oferecidas pelo recurso de habeas corpus – um direito que permite que prisioneiros se livrem de uma detenção ilegal. Juízes e advogados no decorrer do filme também se preocupam com a natureza escorregadia dos argumentos, a qual um vídeo de 2014 do programa The Colbert Report resume quando Stephen Colbert pergunta a Wise se seu cão logo será capaz de processá-lo por não poder subir no sofá.

No auge do filme, Wise tem a chance de apresentar seus argumentos para a juíza Barbara Jaffe, na Suprema Corte de New York, em Manhattan. A juíza parece a mais compelida pelo tema do que qualquer outro juiz, mas no final se sente vinculada às conclusões da corte estadual de apelação. Mesmo assim ela diz que “os esforços para estender direitos legais aos chimpanzés são, portanto, compreensíveis; algum dia eles podem conseguir. As cortes, entretanto, são lentas para abraçar a mudança, e ocasionalmente parecem relutantes em se engajarem em interpretações mais amplas e inclusivas da lei”.

Mesmo não sendo uma vitória completa, Wise e sua equipe veem esta decisão como altamente encorajadora.

Com o assunto correndo sobre os direitos dos chimpanzés, o Nonhuman Rights Project está movendo para o segundo pequeno grupo de animais que é considerado possuírem cognição complexa o suficiente para esta fase inicial de navegação legal – os elefantes. Especificamente os elefantes de zoológicos viajantes. Como os chimpanzés, estas ações judiciais serão as primeiras desse tipo. Coincidentemente ou não, o circo Ringling Bros. Circus recentemente aposentou seu show com elefantes após 145 anos e uma enorme pressão dos grupos ativistas pelos direitos dos animais. Os 11 elefantes serão enviados para uma área de conservação na Flórida.

Esta decisão se alinha com a impressão geral de Wise de que suas ideias sobre os direitos dos animais, concebidas 30 anos atrás, estavam bem à frente de seu tempo. Ele postula que a cultura popular está somente agora começando a explicar a inteligência bem impressionante dos animais não humanos e a levar em conta a forma com o qual os humanos os tratam.

Se eu tivesse que apontar um momento quando este movimento realmente deslanchou, seria com o lançamento do filme ‘Blackfish’ de 2012, documentando o modo com o qual o SeaWorld trata suas orcas cativas. Ninguém poderia ter previsto a reação extrema contra a companhia que o filme revoltante produziu, e nos vários anos que o SeaWorld tem tido seus altos e baixos. No movimento mais ousado do SeaWorld para reabilitar sua imagem, a companhia recentemente anunciou que irá oficialmente acabar progressivamente com seus shows com orcas, e que não irá mais reproduzir ou manter orcas em cativeiro.

Certamente Hegedeus e Pennebaker esperam que o lançamento de Unlocking the Cage proporcione um choque similar ao movimento dos direitos dos animais não humanos, e que o filme faça com que as pessoas estejam mais conscientes e mais críticas sobre seus relacionamentos com os animais. Diferentemente dos cachorros e gatos, o tratamento de animais selvagens cativos como orcas, elefantes, e chimpanzés pode frequentemente se tornar presa da mentalidade longe dos olhos, longe do coração. Pode ser necessário um filme convincente que caia bem no meio do momento cultural correto, para galvanizar um impulso suficiente para que qualquer tipo de mudança em longo prazo possa ocorrer.

Afinal de contas, sem a sociedade e todas suas armadilhas todos nós somos somente animais, humanos ou não. Enquanto nós podemos nos esquecer disso, a lei nunca esquece.

“Unlocking the Cage” foi uma seleção oficial do Festival de Filmes Sundance de 2016. Ele será lançado nacionalmente nos EUA em junho.

Fonte: Fusion

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