China: retira da farmacopeia tradicional medicamentos à base de pangolim e morcego

China: retira da farmacopeia tradicional medicamentos à base de pangolim e morcego

Mais de seis meses depois da declaração pela OMS da pandemia de Covid-19, com origem num mercado de mariscos e animais selvagens nos subúrbios de Wuhan, na China e cujos vectores para a transmissão humana, seriam o morcego e o pangolim, a China decreta o pangolim espécie protegida e retira-o da farmacopeia tradicional, tal como medicamentos fabricados à base de excrementos de morcegos.


Tráfico internacional de pangolim, um pequeno mamífero, nocturno, solitário e tímido, quase impossível de ser criado em cativeiro, é o mamífero mais contrabandeado no mundo e as suas oito espécies até hoje identificadas – quatro africanas e quatro asiáticas – estão em vias de extinção, devido ao seu tráfico ilegal.

O pangolim, parente próximo dos ursos e dos cães, constitui uma ordem taxinómica própria e se desaparecere, não restará nada de semelhante a eles na Terra, mas é uma espécie muito procurada pela medicina tradicional sudeste asiática, com destaque para a China, pelas suas escamas e carne, apesar dos cientistas não terem provas das suas virtudes terapêuticas.

O comércio internacional do pangolim asiático foi proíbido em 2000, mas desde 2016 todas as espécies são protegidas pela convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção, que proíbiu estritamente o seu comércio e foi aprovada por 183 países, entre os quais a China, que utilisa anualmente 26,6 toneladas de escamas de pangolim, o que representa cerca de 73.000 animais.

O pangolim foi apontado pela OMS como o vector intermediário na transmissão do novo coronavirus Sras-CoV-2 do morcego, hóspede primário, ao homem, pois 96% dos seus genomas são iguais aos que circulam no seu organismo, contra 99% para o pangolim, segundo a imprensa estatal chinesa.

O primeiro caso de Covid-19 foi detectado num mercado de mariscos e animais selvagens nos arredores de Wuhan, no centro da China, que finalmente seis meses depois decidiu retirar da farmacopeia tradicional todos os ingredientes provenientes do pangolim, doravante declarado animal protegido. 

Simultaneamente produtos, como pastilhas e poções fabricadas à base de excrementos de morcegos também foram retirados este ano da lista da farmacopeia tradicional chinesa, mas sem precisar a data de proibição da sua venda, segundo o jornal Health Times.

O pangolim que se alimenta de formigas e térmitas, é o mamífero mais traficados no mundo, as suas escamas compostas por queratina, são reduzidas a pó depois de secas, são utilisadas em pastilhas ou poções na medicina tradicional do sudeste asiatico como afrodisíaco, ou para aliviar as dores provocadas por artrite e reumatismo  e a sua carne é considerada uma iguaria e muito apreciada, sobretudo pelas jovens mães, pois é suposta ter feitos benéficos para o leite materno, pelo que o pangolim é cada vez mais objecto de tráfico a partir do continente africano.

No continente asiático o preço das escamas de pangolim pode atingir no mercado negro 1.000 dólares o quilo e o conjunto do tráfico de espécies protegidas representa 20 mil milhões de dólares no mundo, enquanto as penas pela sua infracção são infímas, comparadas às aplicadas ao tráfico de droga, alerta a ONG norte-americana Eagle.

Desde janeiro a China deixou de reembolsar os medicamentos tradicionais à base de pangolim e desde fevereiro proíbiu a venda e consumo de animais selvagens para consumo alimentar.

Desde 2003 a venda de cães e gatos para consumo é oficialmente proibída na China, devido à epidemia do coronavírus SRAS – Síndroma Resppiratório Agudo e Severo – também transmitido pelo consumo de animais selvagens, mas a sua comercialização retomou rapidamente e estima-se que no solstício de verão em Yulin, na região autónoma de Guangxi, durante o Festival do Cachorro e do Licor de Lichia são anualmente sacrificados e devorados pelos público milhares de cachorros, na sua maioria apanhados nas ruas ou roubados e não vacinados.

Foram igualmente encerrados temporariamente os mercados que vendiam estas espécies, evocando o risco de doenças transmissíveis ao homem, mas o comércio de algumas espécies continua legal, a pretexto de investigação científica e para a medicina tradicional.

Entre 2000 e 2019 cerca de 900.000 pangolins, capturados nas florestas da Ásia e África foram contrabandeados no mundo, segundo a ONG Traffic e são as mesmas redes que traficam marfim, dentes de hipopótamo ou cornos de rinocerente, associadas ao branqueamento de capitais, fraude fiscal e posse ilegal de armas, entre outros crimes.

Também na Malásia, Singapura e Vietname, em apenas dois anos, entre 2017 e 2019 foram confiscadas 96.000 toneladas de escamas deste mamífero, que é também muito utilisado na Tailândia, Laos e na antiga Birmânia.

Pelo menos 67 países e territórios de seis continentes estiveram envolvidos no tráfico de pangolim.

Actualmente a África Ocidental e Central são o principal foco deste tráfico, oriundo de países como Angola que entre outros em agosto de 2018 apreendeu uma tonelada e meia de escamas de pangolim, Moçambique, onde foram detidas uma centena de pessoas em 2019, Gabão, Guiné-Conacri, Zimbabué, Camarões, Togo, RCA ou a Costa do Marfim, onde foram incineradas em março deste ano mais de três toneladas e meia de escamas de pangolim apreendidas pelas autoridades.

Por Isabel Pinto Machado

Fonte: RFI / mantida a grafia lusitana original 

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