Cidade México estuda banir animais de circos

Cidade México estuda banir animais de circos

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É mais uma noite sob a tenda do circo. Bebeto Fuentes paira no trapézio, salta sobre um cavalo a trote, fica de olho nos tigres, rodopia na cama elástica e ainda dá expediente como um palhaço melancólico. 

Fora do picadeiro, porém, ele fala ansiosamente e seu rosto jovem denota preocupação. Se uma proibição ao uso de animais em circos entrar em vigor, disse, será o fim para o Circo Irmãos Fuentes Gasca, fundado por seus avós.

“Minha avó ensinou meu pai e ele nos ensinou”, contou Fuentes, 20, que se apresenta com seus irmãos como os Fuentes Boys. “Eu nasci entre os tigres e os macacos.”

A assembleia legislativa da Cidade do México votou recentemente a proibição de que circos apresentem animais. A proibição entrará em vigor um ano após a lei ser publicada no Diário Oficial da cidade. Isso, porém, poderá demorar um pouco, pois a prefeitura concordou em conversar primeiro com proprietários de circos.

A proibição reflete a crescente preocupação, em muitos países, pelos maus-tratos dados a animais de circo, que é alimentada por vídeos feitos sem autorização e divulgados por grupos que defendem os direitos dos animais.

A comunidade de famílias proprietárias de circos no México argumenta que uma cultuada tradição mexicana se extinguiria e dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria da classe trabalhadora pobre, ficariam sem emprego. “É possível montar um espetáculo sem animais, mas as pessoas não teriam interesse em vê-lo”, afirmou Armando Cedeño, presidente do Sindicato Nacional de Proprietários e Artistas de Circo.

Os defensores da proibição dizem que sua meta é restituir a dignidade aos animais.

“Não é natural um urso andar de patins”, comentou Jesús Sesma Suárez, legislador que apresentou o projeto de lei. “Não é natural um tigre saltar no meio de um aro flamejante.”

Seis Estados mexicanos já proibiram o uso de animais em circos, e há proibições totais ou parciais na maioria dos países latino-americanos. Muitos países da Europa proibiram animais selvagens em circos, e alguns proibiram todos os tipos de animais.

Famílias circenses questionam por que a preocupação com animais não se estende às touradas. Segundo Sesma, a tourada é tão enraizada na cultura que essa é uma batalha perdida para seu Partido Ecologista Verde.

Cedeño acha que há um motivo pessoal por trás das campanhas do movimento pelos direitos dos animais. “Eles não são contra touradas, rinhas de galos e corridas de cavalos. Trata-se de um ataque contra o circo mexicano.”

As famílias circenses argumentam ser um alvo fácil, pois seu público não tem poder político. “Esse espetáculo é para quem não tem dinheiro para ir a Las Vegas ver o Cirque du Soleil”, disse Juventino, 23, irmão de Bebeto, referindo-se ao circo canadense que apresenta acrobatas e outros artistas. Uma entrada para o circo Fuentes pode custar US$ 2,30, e a mais cara chega a US$ 15,40. “As pessoas comuns vão ao circo mexicano.”

Os irmãos Fuentes dizem que o público está diminuindo devido à campanha contra eles. E argumentam que ninguém irá ver seu espetáculo se não houver animais. “A imagem mais emblemática do circo são os animais”, disse Bebeto Fuentes.

Antes da apresentação, Bebeto e Juventino Fuentes foram até um cercado com animais atrás da tenda armada perto de um estacionamento.

MEXICO circo 01 230614Um dromedário, duas lhamas, uma zebra e três cavalos estavam em baias forradas com serragem fresca. Por perto, havia pequenas jaulas com cinco tigres siberianos, que estavam sonolentos após o almoço. “A melhor proteção contra os tigres é mantê-los de barriga cheia”, explicou Juventino Fuentes.

Como espaço é algo raro na Cidade do México, os tigres ficam confinados em jaulas na maior parte do tempo, mas, quando o circo está no interior, os animais ganham cercados mais amplos, disse Juventino.

Na hora do show, eles estão sonolentos e têm de ser persuadidos com comandos a entrar no picadeiro. Eles se sentam em banquetas e rugem para Alex Fuentes, 30, outro dos irmãos que é o treinador dos animais. Eles dão dois saltos através de aros flamejantes, então se retiram pelo túnel.

Os números com animais representam menos de um quarto do espetáculo, que dura duas horas. No final, crianças radiantes cercam os irmãos Fuentes na entrada, enquanto seus pais tiram fotos. Dentro de uma hora, Bebeto Fuentes fará tudo de novo, no segundo espetáculo da noite, o que faz parte de sua rotina enquanto o circo sobreviver.

“No dia em que as coisas estiverem ruins”, disse ele, “meus animais comerão antes de mim.”

Fonte: Gazeta do Povo

Nota do Olhar Animal: Justificar o abuso e os maus-tratos inerentes à exploração dos animais por circos com o argumento de que “haverá desemprego” é insustentável. É como, por exemplo, alguém tentar justificar a legalidade e manutenção violências contra os humanos para que criminosos não percam seus rendimentos. Ambas as atividades causam danos e ferem direitos morais fundamentais de seres sencientes. Neste aspecto, a diferença é apenas a vítima. Que as pessoas que dependem financeiramente desta exploração sejam capacitadas para outras atividades dentro (ou fora) dos circos, deixando os animais em paz. Outro argumento frágil usado pelos circenses é o da “tradição“, como se toda as tradições fossem moralmente corretas. Basta lembrar a tradição da mutilação genital feminina ou a do canibalismo entre humanos para jogar por terra esta tese. Sobre o tema, vale a leitura do artigo “O Argumento da Tradição“, do filósofo Luciano Carlos Cunha, disponível no Olhar Animal.

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