Circo é acusado de crueldade contra hipopótamos

Circo é acusado de crueldade contra hipopótamos
Ativistas alegam que o hipopótamo Jumbo saía apenas meia hora por dia.

Um circo francês está sendo processado por supostos maus-tratos a um hipopótamo mantido em cativeiro para espetáculos. Ativistas dos direitos dos animais esperam que esta seja um caso piloto importante.

Segundo a One Voice, associação que denunciou o circo Müller à polícia, um hipopótamo chamado Jumbo é maltratado e mantido em condições que podem causar sofrimento.

A associação afirma que o caso do hipopótamo é emblemático, porque esses animais têm necessidades especiais que, segundo a lei francesa, incluem clima quente, muito espaço e acesso a uma piscina aquecida.

A One Voice tentou, por meio de uma ação nos Tribunais Administrativos, obter a permissão do circo para o afastamento do hipopótamo, mas falhou.

O caso atual em Valence, Drôme, é um processo criminal que ocorre em paralelo. Os funcionários que visitaram o circo encontraram evidências de que pode haver não conformidade com as regras.

Ao contrário de muitos outros países europeus, o uso de animais selvagens em circos (ou seja, espécies não domesticadas como leões e ursos, muitos dos quais nascem em cativeiro) é permitido na França, motivo de revolta para muitos amantes de animais, que apontam o ambiente circense como inadequado ao bem-estar destes. No entanto, os circos “tradicionais” que usam animais alegam que os altos padrões franceses tornam a prática aceitável.

As negociações estão em andamento entre circos, ativistas e o governo.

De acordo com a lei francesa, os animais usados em espetáculos itinerantes devem ser mantidos em condições que atendam às suas necessidades biológicas e comportamentais e garantam sua segurança, bem-estar e saúde.

“Nós focamos em Jumbo como prioridade, porque seu sofrimento é maior do que de outros animais selvagens mantidos em circos”, informou Muriel Arnal, fundadora e presidente da One Voice, ao jornal Le Monde. 

Arnal esclareceu que o hipopótamo, por causa de seu tamanho, deveria passar a maior parte do tempo submerso na água para sustentar suas articulações, mas Jumbo “nunca está na piscina dele”. As regras francesas alegam que os hipopótamos precisam de acesso constante a uma piscina, com pelo menos 22°C, 30 m² e 1,5 m de profundidade, além do transporte.

Eles também devem permanecer em ambientes acima de 16°C e ter pelo menos 16 m² de espaço por animal durante o transporte ou 30 m² em outros ambientes fechados. Quando não estiverem viajando, eles devem ter acesso a ao menos parte de sua acomodação aquecida acima de 25°C e devem ter um cercado ao ar livre de no mínimo 200 m² por animal.

Segundo as investigações da One Voice ao longo de dois anos, Jumbo era mantido em um caminhão e saía apenas meia hora por dia.

Contudo, o advogado do circo argumentou que “ninguém pode observar 24 horas por dia durante dois anos, e Jumbo, obviamente, tem acesso a uma piscina”.

“A única coisa que a One Voice realmente tem contra o circo é que o hipopótamo não está em seu ambiente natural. Bem, é claro que não, mas isso não significa que seja maltratado ou torturado.”

“Eles usam o animal como mascote em uma campanha política, mas nunca enviaram um veterinário para examiná-lo.”

Isso ocorre também devido à controvérsia em relação às condições em que ursos e outros animais eram mantidos por dois treinadores para apresentações em shows na França.

Um urso, Micha, foi afastado de sua parceira para tratamento em um refúgio de animais, após ser encontrado enfrentando sérias condições de saúde. Ele morreu pouco depois.

Micha estava abaixo do peso, tinha vermes no nariz e nos pés, dificuldades respiratórias e problemas no pescoço, possivelmente relacionados ao uso de uma corrente, e partes dos pés estavam apodrecendo.

Recentemente, o jornal Le Figaro revelou uma necropsia indicativa de que Misha sofria não apenas de problemas relacionados a más condições e negligência, incluindo condições pulmonares decorrentes de ferrugem no recinto, mas também evidências de grandes ferimentos inflamados, que sugerem golpes repetidos na bochecha e no traseiro.

Dois outros ursos mantidos pelos Poliakovs foram levados a um refúgio para atendimento após terem sofrido problemas, incluindo cáries dentárias dolorosas e um tumor ocular cancerígeno.

Muriel Arnal, da One Voice, disse ao site Connexion: “É importante que aprendamos com a morte de Micha e acabemos com essa crueldade. Ele teve uma vida horrível, e é importante ajudarmos os outros animais agora”.

“Ele passou dez anos em um caminhão, morando em uma gaiola minúscula, constantemente em transporte e sendo solto apenas para o espetáculo”, acrescentou. “Depois de resgatado, passou os últimos dois meses cercado por pessoas que cuidavam dele. Essa foi a primeira vez em sua vida.”

“O mais cruel dos circos para os animais são as viagens. Esses animais são mantidos em caminhões, em gaiolas minúsculas, porque se deslocam de cidade em cidade. Nestas jaulas, eles não têm onde se esconder. Estes são animais selvagens. Eles têm muito medo das pessoas.”

Os métodos de treinamento também podem ser cruéis, afirmou ela. “É uma tradição de muito tempo atrás e deve terminar agora.”

Em uma entrevista anterior do Connexion, entretanto, Christian Caffy, da Fédération des Cirques de Tradition, informou que uma proibição total de animais selvagens em shows itinerantes poderia causar a perda de 3.000 empregos. Ele alegou que muitos animais provavelmente seriam eutanasiados, pois é improvável que encontrassem locais de refúgio para todos.

“Também não é possível soltar na natureza animais acostumados a viver com seres humanos”, comentou Caffy.

Foi informado que o governo voltou a se reunir nos últimos dias com proprietários de circos, que falaram do “difícil contexto econômico”.

Espera-se que seja realizado um anúncio antes do final do ano sobre o bem-estar dos animais de circo. No entanto, é possível que se inclua medidas protetivas em vez de proibição.

Arnal comparou o progresso dos casos na França com os da Inglaterra, onde se espera, finalmente, uma proibição total no início do próximo ano.

“Foi muito difícil, especialmente se comparado à Inglaterra, onde eles veem um problema e agem em seguida.”

“Isso não quer dizer que não haja animais que sofrem na Inglaterra, mas aqui na França estamos apenas dando murro em ponta de faca”.

“A Inglaterra sempre foi uma inspiração para nós na luta pelos animais. Eles estão muito à nossa frente, e foi uma grande festa quando confirmaram a proibição total.”

Tradução de Jéssica Beck 

Fonte: The Connexion

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