Circo Ringling Bros é um pesadelo para os tigres, dizem especialistas

O bem-estar dos elefantes do circo Ringling Bros vem sendo um tema de preocupação há tempos. Mas um novo relatório mostra que os grandes felinos do circo podem estar sofrendo tanto quanto.
Jay Pratte, um treinador de animais com 25 anos de experiência, observou recentemente duas apresentações do circo Ringling Bros em Lincoln, Nebraska, EUA. O que ele viu foi um pesadelo para os tigres.

“Os anunciantes, treinadores, e funcionários declaram que os animais são manejados com recompensas e através da confiança”, Pratte apontou em seu relatório, que foi publicado pela organização PETA. “Entretanto, o que realmente está acontecendo é uma negligência ambiental e fisiológica, abuso psicológico e a coerção de tigres para que eles se comportem através da dominância e de técnicas baseadas em medo”.

Treinamento

Enquanto o Ringling Bros prega que seus métodos de treinamento são humanos e amigáveis para com os animais, Pratte disse, eles não são nada disso. “Os grandes felinos… são manejados através do medo, da coerção e da punição”, ele explicou.

“A principal forma que eu observei no Ringling Bros para coagir os felinos a responder de uma maneira desejada é gritar com eles, bater em suas jaulas, e usar aguilhões longos ou chicotes para forçá-los a se mover em uma direção específica ou se afastar quando se aproximarem muito de outro animal ou humano”, Pratte disse. “Esses aguilhões são onipresentes. Eles estão nas mãos dos treinadores, os assistentes os carregam, e eles são deixados estrategicamente perto dos felinos para que fiquem prontamente disponíveis”.

Infelizmente, as alegações de Pratte não são nem um pouco surpreendentes. Enquanto o Ringling Bros há tempos alegava que seus métodos de treinamentos de elefantes são baseados em recompensa – até mesmo declarando em sua última apresentação com elefantes antes de aposentar os animais que “Nós temos a manada mais saudável, feliz e fisicamente apta do mundo” – as fotos divulgadas dos antigos campos de treinamento do circo mostram que os filhotes eram torturados para se apresentarem.

Os antigos métodos de treinamentos de elefantes no Ringling Bros. (Foto: Sam Haddock/PETA)
Os antigos métodos de treinamentos de elefantes no Ringling Bros. (Foto: Sam Haddock/PETA)

Após serem separados de suas mães somente horas após o nascimento, os bebês elefantes eram amarrados com cordas e fisicamente forçados nas posições nada naturais que os treinadores queriam. As fotos ecoam o brutal “treinamento de quebra” que os elefantes na Ásia são submetidos para torná-los manejáveis – chamado dessa forma porque ele quebra o espírito do animal.

No caso dos felinos, Pratte disse, seu medo era palpável tanto em seus recintos como durante os shows.

“As posturas dos felinos enquanto nas arenas com o treinador são indicativos de um medo das consequências se eles não se apresentarem conforme foram coagidos”, Pratte disse. “Os ombros caídos, a posição das orelhas para trás, são antecipatórios de conflito ou tensão. Mudanças sutis então indicam medo ou potencial agressão, mas esta linguagem corporal era consistente durante ambos os shows, indicando estresse, medo e coação psicológica”.

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Um tigre apresentando as orelhas posicionadas para trás, indicativas de medo.

“Quando os aguilhões ou chicotes são erguidos, os felinos recuam todas às vezes”, ele acrescentou. “Quando os animais se movem para frente como se fossem atacar ou reagir, os treinadores gritam com eles ou eles são rapidamente atingidos ou assustados com o som dos chicotes no ar ou no chão perto dos animais”.

Este tipo de treinamento, Pratte disse, não é somente torturante psicologicamente para os animais, mas também os tornam ainda mais perigosos, já que a confiança entre seus cuidadores e eles está destruída.

“Eu observei múltiplas situações nas quais os tigres exibiam agressão definida para com um de seus treinadores”, ele disse. “Estes animais não possuem um relacionamento de confiança com os funcionários e suportam este ambiente punitivo e adverso diariamente”.

Os felinos eram tanto amedrontados como antagonicamente enfrentavam seus treinadores.
Os felinos eram tanto amedrontados como antagonicamente enfrentavam seus treinadores.

Um treinador mostrou a ele várias cicatrizes, Pratte disse, e falou que “Nós recebemos muitas mordidas e arranhões”.

“Ironicamente, durante os anúncios antes dos shows, o apresentador anuncia que os animais são todos treinados usando ‘recompensa e repetição’”, Pratte disse. “Eu observei somente duas ou três ocasiões separadas de uma recompensa com comida sendo oferecida para um dos tigres. Os felinos conhecem somente medo, dominância e punição”.

Habitação

Quando os animais não estão sendo amedrontados nas apresentações, Pratte disse, suas vidas não são muito melhores. Eles passam a maior parte do seu tempo na estrada, contidos em caixas ou vagões (vários anos atrás, um jovem leão morreu após ter sido deixado em um vagão do Ringling no calor escaldante sem água).

Quando eles não estão viajando, suas habitações são severamente pobres, Pratte disse. Na natureza, os tigres estariam vivendo em habitats exuberantes, cercados de árvores e fontes de água. Quando Pratte os visitou, os tigres estavam confinados em um estacionamento dentro de pequenas jaulas. O dia estava quente, mas não havia nenhuma sombra por toda aquela manhã. Eles não tinham piscinas para nadar, apesar de serem naturalmente animais aquáticos. Os recintos eram áridos, sem nenhum brinquedo ou aprimoramento além de “um par de pequenos troncos”.

Os felinos estavam confinados em jaulas áridas em um estacionamento.
Os felinos estavam confinados em jaulas áridas em um estacionamento.

Quando Pratte perguntou a dois treinadores sobre a falta de aprimoramento para os animais, ele disse, eles responderam que não tinham tempo para montar os recintos apropriados para os felinos já que eles não iam ficar muito tempo na cidade, apesar de uma estadia de quase uma semana. “Este é um período de cinco ou seis dias sem nenhum estímulo”, Pratte disse. “E é razoável suspeitar que os animais não recebam nenhuma melhoria durante o transporte”.

E apesar dos tigres serem normalmente animais solitários, eles são frequentemente mantidos com ao menos duas outras companhias em seus pequenos recintos. “Era impossível para eles evitarem uns aos outros quando conflitos por espaço ou sociais ocorriam”, Pratte disse. “A inabilidade de se retirar de um conflito (ou fazer o intruso ir embora) resultará em aumentos significativos no estresse, potenciais lesões e problemas psicológicos em longo prazo… Na hora que antecedia cada show, eu testemunhei várias brigas entre os felinos”.

Dois tigres durante uma briga, de acordo com Pratte.
Dois tigres durante uma briga, de acordo com Pratte.

Saúde física

Muitos dos felinos também tinham lesões de briga – a qual era exacerbada ao colocar tantos animais tão perto. Durante as três brigas que Pratte testemunhou, ele disse, ele viu um tigre se cortar e os outros receberam perfurações e perderam tufos de pelos.

“Também há pequenas cicatrizes cobrindo os corpos de vários tigres”, ele disse. “Muitas já estão curadas e algumas tinham formado casca. Estas são provavelmente pela habitação inadequada desses tigres em grupos”.

Um tigre branco coberto de cicatrizes.
Um tigre branco coberto de cicatrizes.

Muitos dos felinos também estavam notavelmente acima do peso, Pratte disse. Seu peso os coloca em risco para condições como falência dos órgãos, artrite, problemas respiratórios e doenças cardíacas – das quais Pratte viu sinais claros.

“Eu observei vários felinos mancando, andando devagar, tentando evitar impactos dolorosos e com dificuldades para até conseguirem ficar de pé ou fazer os comportamentos necessários durante o show”, ele disse. “Os felinos mais pesados estavam ofegantes constantemente durante o dia e claramente enfrentando um sofrimento físico aumentado”.

Um tigre visivelmente acima do peso em um estacionamento.
Um tigre visivelmente acima do peso em um estacionamento.

O peso dos felinos também fez com que deitar no chão de concreto, algo já perigoso para suas articulações, fosse mais danoso ainda.

“Alguns deles tinham higromas (uma inflamação cheia de fluídos que se desenvolve em pontos de pressão) em suas articulações, alguns sendo bem graves”, Pratte disse. “Eles são causados por trauma repetitivo ao deitarem em superfícies duras”.

Um tigre branco com um higroma em sua pata dianteira.
Um tigre branco com um higroma em sua pata dianteira.

Muitos deles também possuíam patas rachadas, ele relatou, como resultado de viverem em chãos duros, particularmente quando eles são lavados com mangueira e ficam molhados por um longo tempo. “Essas rachaduras também irão secar e são extremamente dolorosas para os animais quando eles se movem – e até mesmo quando eles estão descansando”, Pratte disse. “Rachaduras graves também podem infeccionar, causando mais dano à pele e ao tecido”.

Um tigre com patas rachadas.
Um tigre com patas rachadas.

“Mordidas de moscas e mosquitos eram visíveis durante o dia, e em nenhum momento eu observei qualquer tipo de tratamento preventivo sendo administrado aos animais e nem tinha nenhuma prevenção ambiental visível”, ele acrescentou.

Saúde mental

Sem nenhuma surpresa, as pobres condições de habitação e o treinamento duro tiveram um efeito no bem-estar mental dos animais, Pratte disse. Alguns dos felinos foram vistos expressando comportamentos estereotipados – movimentos repetitivos e irracionais que os animais desenvolvem como uma forma de lidar com o estresse do cativeiro.

Pratte testemunhou dois tigres andando de um lado para o outro em suas jaulas, um sintoma comum de estresse de cativeiro e problemas psicológicos. “Após anos de experiência, eu posso identificar quando um felino ‘apagou’ e está engajado em comportamentos estereotipados para se excluir do mundo”, ele disse. “Com o tempo, essas ações se tornam habituais e aumentam os níveis de estresse do animal e acompanham problemas físicos”.

Um tigre andando pela sua jaula.
Um tigre andando pela sua jaula.

“Eu também observei felinos lambendo suas patas continuamente, aumentando as rachaduras, e um estava de forma estereotipada cuidando em excesso de sua cauda”, ele acrescentou. “Esses são comportamento estereotipados bem documentados em grandes felinos, e são indicativos de bem-estar pobre e uma falta de estímulo psicológico”.

Ele também disse que um treinador lhe contou que o Ringling Bros obtém seus felinos ainda filhotes, quando eles são separados de suas mães, e que os funcionários são encorajados a brincar com eles quando ainda bebês – uma perda maternal precoce não natural, e uma interferência humana ainda mais não natural, que podem levar a uma vida inteira de confusão psicológica para os animais selvagens.

Tigres durante uma briga.
Tigres durante uma briga.

“Filhotes carnívoros com menos de um ou dois anos de idade estão em uma fase crítica de aprendizado, quando eles deveriam estar aprendendo as habilidades de vida necessárias de suas mães e habilidades sociais adequadas de suas mães e irmãos”, Pratte disse. Ele explicou que os filhotes criados por humanos podem desenvolver um número de problemas, incluindo agressão excessiva para com outros animais e humanos, e “traços depressivos em longo prazo”.

“Estas observações não são uma lista exaustiva de negligência e trauma psicológicos que estes felinos suportam diariamente”, Pratte disse. “Eles indicam sim bem-estar pobre e negligência animal por parte do Ringling Bros”.

Um futuro questionável

Para Pratte, os resultados de sua visita ao Ringling Bros foram claros – assim como o futuro desses felinos se nada for feito para melhorar seu bem-estar.

“Os tigres que eu observei estão sob constante sofrimento psicológico, o que resulta em problemas médicos agudos e crônicos para esses animais”, ele disse. “Os efeitos cumulativos do estresse provavelmente irão encurtar as vidas desses animais e, em casos severos, causar miopatia, lesões, ou até mesmo a morte”.

Uma funcionária com um aguilhão em mãos.
Uma funcionária com um aguilhão em mãos.

Pratte, que também é professor adjunto na Universidade de Nebraska e trabalha como consultor de bem-estar animal para uma gama de organizações bem conhecidas, incluindo a Associação dos Zoos e Aquários (AZA, o principal grupo de certificação de zoos nos EUA) e o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), observou que as condições que ele viu no Ringling Bros estão muito longe dos padrões tanto da AZA como do USDA – apesar de que vários grupos do bem-estar dos animais consideram os padrões da USDA não suficientes.

“É minha opinião profissional e de especialista que os tigres que eu observei antes e durante os shows do Ringling Bros Red Unit estão sofrendo de negligência, assim como presentes traumas físicos e psicológicos, e não estão recebendo o cuidado adequado”, Pratte disse. “Se as condições não podem ser melhoradas… então os grandes felinos estariam melhores vivendo em uma instituição certificada ou acreditada”.

Tufos de pelos após uma briga entre os tigres.
Tufos de pelos após uma briga entre os tigres.

Apesar da revolta pública sobre os elefantes do Ringling Bros ter forçado o circo a retirar os animais das apresentações no início deste ano, poucas pessoas percebem que os leões e tigres estão sofrendo tanto quanto. Enquanto é improvável que o Ringling Bros mude suas práticas por sua própria conta, Platte espera que o público  perceba quão prejudicial o Ringling Bros, e outras companhias como essa, realmente são.

“Os circos não promovem a conservação, a educação ou o avanço do bem-estar ou técnicas de gerenciamento de animais”, Platte disse. “Eles são uma relíquia cruel da história humana”.

Tigres na arena.
Tigres na arena.

Quer ajudar os felinos do Ringling Bros e outros como eles? Antes de tudo, evite qualquer circo ou show onde grandes felinos estejam se apresentando. Você pode assinar a petição aqui pedindo ao Ringling Bros que aposente seus animais em santuários – ou entre em contato diretamente com a Feld Entertainment, a companhia por trás do circo, aqui.

Você também pode fazer uma doação à Sociedade pelo Bem-Estar dos Animais de Shows, um santuário e grupo de resgate que é lar de vários antigos animais do Ringling.

Por Ameena Schelling / Tradução de Alice Wehrle Gomide

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