Colocar animais online: Isso protege ou destrói?

Colocar animais online: Isso protege ou destrói?

Mesmo no universo digital, observação e conservação são conflitantes.

Por Tim Maughan / Tradução de Alice Wehrle Gomide

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“Nós ouvimos muito sobre a “internet das coisas”, diz Etienne Benson, “e cada vez mais, algumas delas são seres vivos”.

Benson, do departamento de História e Sociologia da Ciência da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, falou na Animais Digitais, uma conferência de um dia destinada a analisar o que as perspectivas e tecnologias digitais significam para o futuro da proteção animal.

Benson descreveu o sistema de rastreamento Sharksmart, que utiliza dados de tubarões marcados por pesquisadores para proporcionar mapas interativos, alertas e avisos – via seu próprio website com tweets automatizados – sobre a atividade de tubarões perto das praias na Austrália Ocidental.

O sistema fez manchetes no mundo todo recentemente quando decidiram matar um tubarão baseado somente nos dados de marcação que mostraram que ele estava frequentando uma área popular de natação e surfe, apesar de nunca ter havido nenhum sinal visual. A ação despertou revolta em alguns setores da mídia e da comunidade científica – esta última se sentindo traída devido ao modo como os dados foram utilizados para matar os próprios tubarões do estudo.

Para Benson, esse incidente revela uma mudança preocupante na filosofia por trás da marcação de animais. As marcações podem ser incômodas para os animais que as usam, e sempre foram vistas como um sacrifício da parte do animal para o bem maior de sua espécie. Agora, argumenta Benson, pelo menos no caso dos tubarões da Austrália Ocidental, essas se tornaram uma tecnologia de controle e punição.

Áreas de vôo

Thomas Snitch também está rastreando animais, embora por motivos diferentes. Sua companhia, a Air Sheperd, utiliza drones sobrevoando a África Central e do Sul para proteger rinocerontes e elefantes de caçadores.

Snitch, um matemático, trabalhou anteriormente como analista para o exército americano, estudando mapas do Iraque e Afeganistão para determinar áreas mais prováveis onde rebeldes estariam colocando dispositivos explosivos. Os drones são menos importantes que os algoritmos que decidem onde estes devem sobrevoar, ele diz.

Um fluxo contínuo de dados geográficos, scans LIDA R, e os movimentos de animais e caçadores é enviado ao supercomputador pela equipe da Air Sheperd, na Universidade de Maryland. Modelos preditivos são então utilizados para direcionar uma pequena frota de drones ao local certo, na hora certa.

A linguagem militar rude de Snitch pareceu de certa forma até inapropriada em uma conferência de direitos animais, mesmo enquanto ele demonstrava um conhecimento diferenciado dos problemas sociais e econômicos por trás do mercado de marfim. E é difícil discutir com os resultados. Em média, 1200 rinocerontes são mortos por caçadores todos os anos na África. Desde outubro de 2014, nenhum rinoceronte foi morto nas áreas patrulhadas pela Air Sheperd.

Aversão aos animais de estimação

Tecnologias digitais mudam como observamos os animais. Anna Frostic, da Sociedade Protetora dos Animais nos EUA transformou a obsessão da mídia com vídeos de animais fofos em algo sério e, muitas vezes, depressivo, ao explicar o papel que esses desempenham em criar uma demanda por animais exóticos e ameaçados de extinção. Some essa demanda com websites e redes que permitem pessoas comuns e mal equipadas de adquirirem animais que tradicionalmente seriam difíceis de encontrar, e temos uma receita desastrosa.

Atualmente existem mais tigres em cativeiro doméstico nos EUA do que em qualquer lugar na selva. Similarmente, ela apontou uma pesquisa mostrando que pessoas não imaginavam que espécies como chimpanzés eram ameaçadas de extinção porque elas estão acostumadas a vê-los na internet, o que resultou em um impacto devastador na disposição de doarem para instituições de caridade e organizações dedicadas à conservação.

Resta pouca dúvida que a internet pode ajudar a criar consciência sobre os problemas na proteção animal. Porém, a Animais Digitais foi muito mais além, questionando como a mídia digital transformou o modo como vemos, consideramos e tratamos os animais – e considerando os danos inadvertidos que esta tecnologia já causou.

(Conferência sobre Animais Digitais – Universidade de New York, 20 de fevereiro de 2015)

Fonte: NewScientist

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