Como manter em segurança os elefantes errantes da China?

Como manter em segurança os elefantes errantes da China?
Nesta fotografia aérea, captada no dia 13 de junho, uma manada de elefantes selvagens dormita nos arredores da cidade de Yuxi, no sudoeste da China. No último ano, esta manada de 15 elefantes percorreu cerca de 480 quilómetros desde a sua casa, uma reserva natural. Fotografia de Xinhua Xinhua, Redux

Na China, uma manada de 15 elefantes-asiáticos está numa jornada sem precedentes: no último ano, esses paquidermes percorreram 480 quilómetros desde a sua casa em Xishuangbanna, uma reserva natural na província de Yunnan, no sudoeste da China, em direção a norte. As viagens destes elefantes cativaram a nação. Ninguém sabe por que razão os elefantes começaram a migrar – ou para onde se estão a dirigir nesta que é a migração de elefantes mais longa de que há registo na história da China.

Agora, a família de elefantes – seis fêmeas adultas, três machos adultos e seis juvenis – permanece nos arredores da cidade de Kunming, com mais de oito milhões de pessoas. Nos últimos meses, à medida que se aproximavam da cidade, os animais invadiram povoações humanas, plantações, vaguearam pelas ruas e procuraram comida em pequenas vilas. Os elefantes já invadiram cozinhas e até um lar de idosos. Segundo consta, alguns animais podem ter ficado embriagados com grãos fermentados. Embora a maioria do grupo esteja reunida, um macho abandonou a manada e está agora a aproximadamente 24 quilómetros de distância do grupo.

Os feitos desta manada têm cativado a atenção do público por todo o país, mas os especialistas têm em mãos um desafio complicado: descobrir uma forma de reduzir as interações entre elefantes e pessoas. Becky Shu Chen, especialista em elefantes-asiáticos da Sociedade Zoológica de Londres, que trabalha em estreita colaboração com a equipa na linha da frente que monitoriza os elefantes, diz que “o objetivo é simples: evitar o confronto entre humanos e elefantes”.

Os elefantes, que nesta imagem estão a percorrer Yuxi em junho, chamaram a atenção do país porque destruíram plantações, vaguearam por aldeias e estão a aproximar-se de uma grande cidade. Fotografia de Hu Chao Xinhua, Redux
Os elefantes, que nesta imagem estão a percorrer Yuxi em junho, chamaram a atenção do país porque destruíram plantações, vaguearam por aldeias e estão a aproximar-se de uma grande cidade. Fotografia de Hu Chao Xinhua, Redux

“As pessoas não têm experiência com este tipo de incidentes em Yunnan”, diz Becky. Por isso, as equipas de campo estão a elaborar e a adaptar as suas respostas em tempo real. As autoridades usam drones para rastrear os elefantes e estão focadas principalmente em tentar atraí-los de regresso para sul, usando alimentos e barreiras físicas.

Chen Mingyong, professor na Escola de Ecologia e Ambiente da Universidade de Yunnan, e membro da equipa de especialistas que trabalha na linha da frente, disse à televisão estatal CCTV que a abordagem da equipa passa por “tentar determinar uma rota para os elefantes e, depois, ao longo desse caminho… espalhar alimentos com um aroma forte, como milho, ananás e banana.” Chen acrescenta: “Ao mesmo tempo, estamos a bloquear as estradas que vão dar a vilas e cidades, dando basicamente aos elefantes uma escolha, que é seguirem o trajeto definido por nós.”

No final de maio, o engodo começou a funcionar. Depois de preparar mais de quatro toneladas de comida, a equipa conseguiu fazer com que os elefantes curvassem ligeiramente para sul. Atualmente, a manada está a andar de um lado para o outro dentro dos limites de Yuxi, uma cidade que faz fronteira com a zona sul de Kunming.

Os perigos da realocação

Mas, de acordo com Pan Wenjing, investigadora da Greenpeace sediada em Pequim, que tem um vasta experiência na conservação de elefantes-asiáticos, atrair os animais com comida pode não resultar. “Os elefantes precisam de se sentir seguros, pelo que a comida por si só provavelmente não será suficiente para alterar a sua rota de migração”, diz Pan.

O engodo também acarreta riscos, diz Zhou Jinfeng, secretário-geral da Fundação de Conservação de Biodiversidade e Desenvolvimento Ecológico da China, uma ONG de Pequim. Zhou diz que a moderação é fundamental quando se trata de iscos. “Não podemos permitir que os elefantes se tornem demasiado dependentes de alimentos oferecidos por humanos.”

De acordo com Chen, tentar desviar os animais com cercas elétricas é outra das táticas em consideração.

As cercas elétricas são muito utilizadas para mitigar os conflitos entre humanos e animais, e para manter os elefantes longe de plantações, por exemplo. “Mas neste caso, há vários desafios na utilização de cercas elétricas”, diz Raman Sukumar, professor de ecologia do Instituto Indiano de Ciência e especialista prestigiado em ecologia e comportamento de elefantes-asiáticos.

Raman explica que, conforme os elefantes vagueiam, as cercas precisam de ser rapidamente removidas e reinstaladas em novos pontos ao longo do caminho. Para além de não ser prático, pode ser difícil tentar fazer com que os elefantes regressem para onde vieram – sem saber por que razão partiram – e permanecer no mesmo local, “dada a sua natureza errante e imprevisível”, diz Raman.

Becky Shu Chen, da Sociedade Zoológica de Londres, acredita que estes elefantes já percorreram um caminho demasiado longo para agora caminharem novamente 480 quilómetros de regresso a Xishuangbanna, a reserva natural de onde são originários, mesmo com ajuda.

Alguns especialistas na China, incluindo Zhang Jinshuo, especialista da Academia Chinesa de Ciências, disseram à televisão estatal que a possibilidade de tranquilizar os elefantes com uma anestesia e depois transportá-los de regresso a Xishuangbanna é uma opção em cima da mesa.

Não seria uma operação inédita. Em 2019, as autoridades de Yunnan capturaram um elefante macho que tinha provocado muitos danos depois de vaguear por várias aldeias. As autoridades adormeceram o animal com tranquilizantes e transportaram-no de regresso para o seu habitat. Mas sedar e transportar uma manada de 15 elefantes provavelmente nunca foi tentado na Ásia, diz Raman.

Na África do Sul, diz Raman, foram realizadas realocações em massa de elefantes. Mas a China carece da experiência e infraestrutura para este tipo de operações, e a complexidade geográfica de Yunnan, que é densamente florestada, “tornaria isso muito mais difícil de fazer do que na África do Sul, onde a maior parte da operação foi feita em áreas abertas”. Para além disso, os riscos seriam enormes, sobretudo para as crias mais novas, diz Pan Wenjing, da Greenpeace.

“São uma família muito unida e estão visivelmente alerta para todos os potenciais perigos”, diz Pan. “Tranquilizar um elefante provavelmente irá agitar toda a manada, algo que pode ter consequências inimagináveis.”

Solução sustentável

Os esforços atuais – com engodo e cercas – são todos de curto prazo, diz Shu Chen, e têm o objetivo de prevenir conflitos entre humanos e os animais. Para muitos, contudo, a verdadeira questão passa pela criação de uma solução sustentável a longo prazo para os elefantes.

Zhou acredita que a melhor solução seria criar um novo parque nacional de elefantes perto de Kunming, onde o grupo está neste momento. “Existem muitas reservas naturais nacionais, provinciais e municipais em Yunnan”, diz Zhou. “Muitas delas têm potencial para se tornarem num habitat temporário para estes elefantes, e [depois] permanente.”

Zhou sublinha a importância da construção de corredores ecológicos que liguem as quatro reservas naturais de elefantes existentes em Yunnan, permitindo que os animais migrem com facilidade e em segurança.

Raman concorda. Com base na experiência que adquiriu na Índia, Raman sugere que as autoridades deviam tentar atrair os elefantes para uma pequena área de contenção, onde teriam comida e segurança, enquanto que os especialistas procuram um novo habitat nas proximidades. “Se a China levar a conservação do elefante-asiático a sério, precisa de encontrar um novo lar para esta manada de elefantes”, diz Raman.

Shawn Yuan é jornalista, fotógrafo e Explorador da National Geographic. Tendo trabalhado em mais de 20 países, Shawn divide agora o seu tempo entre o Médio Oriente e a China, e está particularmente interessado em direitos humanos e ambiente. Shawn fala mandarim, cantonês, árabe e inglês.

A National Geographic Society, comprometida em revelar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do Explorador Shawn Yuan. Saiba mais sobre os apoios da National Geographic Society aos Exploradores que destacam e protegem espécies críticas.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Fonte: NatGeo / mantida a grafia lusitana original

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