Como o muro de Trump proposto ao México irá afetar a população de onças-pintadas ameaçada de extinção

Como o muro de Trump proposto ao México irá afetar a população de onças-pintadas ameaçada de extinção
Foto: Pixabay

Por décadas, talvez até séculos, os humanos vêm contribuindo para o declínio das espécies do nosso planeta. Nós dizimamos habitats naturais em prol do desenvolvimento e da agricultura, destruindo ecossistemas vitais durante esse processo. A caça, legal ou ilegal, e o comércio ilegal de vida selvagem também têm um impacto devastador nas espécies vegetais e animais, levando-as ao risco de eventual extinção, o que está acontecendo em um ritmo mil vezes mais rápido do que deveria por conta das nossas ações.

Inúmeras espécies já estão lutando para sobreviver, e agora uma que está ameaçada nos EUA por mais de três décadas – a onça-pintada – está enfrentando a possibilidade de uma barreira de três mil e duzentos quilômetros que poderia ter um impacto devastador na espécie como um todo. Com uma população quase inexistente nos EUA e em sérias dificuldades no México, a onça-pintada já está pagando o preço por décadas de interferência humana.

O número de onças-pintadas já está perigosamente baixo

Foto: USFWS Southwest

Em 1972, as onças-pintadas foram classificadas oficialmente como ameaçadas sob o Ato de Conservação das Espécies em Risco de Extinção (agora Ato de Espécies em Risco de Extinção). Elas estão também listadas como quase ameaçadas pela União Internacional pela Conservação da Natureza.

As onças-pintadas podem ser encontradas no México e na América Central, bem como nas florestas tropicais da América do Sul. Elas viviam também no Arizona e no Novo México até que a caça e a perda de habitat diminuíram a população. Uma vez que são vistas como ameaça aos rebanhos, os caçadores frequentemente matam as onças para proteger os seus. Em 1963, a última onça fêmea nos EUA foi morta por um caçador e, em 1969, o Arizona tornou a caça à onça-pintada ilegal.

Até recentemente, havia apenas uma onça-pintada selvagem nos Estados Unidos. Ela recebeu o apelido de El Jefe (“o chefe” em espanhol) pelas crianças de uma escola local e vive nas montanhas de Santa Rita, próximo a Tucson, Arizona. Câmeras de monitoramento capturaram imagens dela inúmeras vezes e ela foi capturada em vídeo pela primeira vez em 2016. Uma segunda onça-pintada, que se acredita ser macho, também foi vista no Arizona, dessa vez nas montanhas Huachuca do Arizona. Pouco se sabe sobre a segunda onça, mas para os conservacionistas, isso é prova de que a espécie ainda se move livremente entre o México e os EUA.

A presença de uma segunda onça-pintada traz esperança, mas para uma espécie em luta para sobreviver, a habilidade de migrar entre os EUA e o México é de extrema importância principalmente porque as únicas fêmeas conhecidas estão localizadas no México. Fechar parte do habitat das onças com um muro elimina qualquer chance dos dois machos do Arizona encontrarem um par, o que significa que a população de onças nos EUA poderia em breve desaparecer para sempre.

O impacto de um muro no habitat das onças-pintadas

Os animais viajam por longas distâncias por algum motivo, seja para caçar, demarcar um território ou encontrar um par. A onça é uma espécie que costumava andar livremente por uma vasta área cobrindo a Argentina, a América Central, o México e então os EUA, até que os primeiros habitantes os espantaram de seus habitats.

A Panthera, uma organização que trabalha na proteção de grandes felinos, disse em uma recente declaração que o muro “iria perturbar o movimento natural e dispersar padrões de vida selvagem, incluindo pumas, jaguatiricas e onças, entre o México e os Estados Unidos.” A construção de um muro inteiro ao longo da fronteira entre EUA e México fragmenta habitats naturais, literalmente removendo a vida selvagem de áreas onde ela tipicamente transitava. Isso afeta não somente o seu território e o acasalamento, mas também aumenta a competição por presas com outras espécies.

A Vida Selvagem e Marinha dos EUA publicou em um relatório informativo descrevendo como um muro na fronteira dividindo México e EUA iria fragmentar refúgios de vida selvagem e outros habitats importantes. Isso tem um impacto não apenas nas onças, mas em mais de cem espécies em risco de extinção, incluindo mamíferos, plantas, crustáceos, peixes, répteis e moluscos – além de mais de cem espécies de pássaros migratórios.

Como muros já existentes em fronteiras estão causando problemas à vida selvagem

Barreiras em fronteiras de outros países se mostram problemáticas para populações de vida selvagem. Uma cerca feita de arame farpado foi construída na Eslovênia para prevenir a entrada de refugiados que atravessam a sua fronteira, afetando uma área que serve de caminho migratório para a vida selvagem. Muitos animais ainda tentam migrar através da área, mesmo com a presença da cerca. Infelizmente, eles estão ficando presos à cerca, o que frequentemente resulta em ferimentos sérios ou morte pela perda de sangue.

Há também problemas com muros e cercas que já foram construídos ao longo de 960 quilômetros da fronteira entre México e EUA, que impedem que aproximadamente 49 espécies acessem seu habitat natural, colocando-as em risco e resultando em ecossistemas desequilibrados ou destruídos.

Quando os humanos fazem mudanças drásticas na paisagem natural, isso afeta não somente animais específicos, mas ecossistemas inteiros. Manter habitats, bem como suas conexões, é importantíssimo porque quando uma espécie sofre, todas as espécies sofrem. E já que não podemos controlar tudo o que acontece, podemos usar a nossa voz para educar os outros e ser uma voz para que não podem falar por si mesmos. Também podemos ajudar apoiando organizações que se dedicam a garantir que espécies e habitats sejam protegidos.

Por Arianna Pittman / Tradução de Carla Lorenzatti Venturini

Fonte: One Green Planet 

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