Companhia aérea africana proíbe o transporte de animais mortos pela caça turística

Companhia aérea africana proíbe o transporte de animais mortos pela caça turística

Tradução de Alice Wehrle Gomide

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Exemplos de companhias multinacionais renunciando a negócios baseados puramente na ética são raros. Apesar das belas palavras, corporações querem, por natureza, obter lucro máximo. Sua missão é ganhar dinheiro dentro da legalidade; separar o certo do errado, eles frequentemente argumentam, é trabalho dos governos e legisladores. Mesmo assim, há ocasiões em que uma prática perfeitamente legal é tão desagradável ao público, e qualquer associação com ela prejudica tanto a marca, que a moralidade se torna difícil de ignorar.

Foi isso o que aconteceu em 2005, quando a companhia aérea British Airways parou de transportar animais destinados a experimentos científicos. Apesar de colocar em risco um relacionamento lucrativo com GlaxoSmithKline, uma empresa farmacêutica britânica, a ameaça de boicote por clientes foi considerada muito grave. E aconteceu de novo no mês passado, quando South African Airways (SAA) discretamente proibiu o transporte de troféus de animais vítimas da caça – especialmente rinocerontes, elefantes, leões e tigres – no seu avião.

Atirar em uma maravilha da natureza e enviar sua carcaça para casa parece uma prática estranha para muitas pessoas. Mas os negócios nessa área estão rugindo. Aproximadamente 1.000 leões que vivem em cativeiro são mortos anualmente por, principalmente, turistas americanos e europeus nos ranchos sul-africanos. Isso é quase o dobro do número de leões selvagens abatidos no continente inteiro. Matar animais selvagens em propriedades privadas e cercadas é mais fácil que caçá-los no seu ambiente. E também é muito mais barato: turistas podem pagar U$ 20.000 por um macho cativo, comparado com U$ 75.000 por um selvagem. A expansão da indústria da “caça enlatada” – que cria leões isolando as mães de seus filhotes para estimular a ovulação – elevou as receitas da caça africana para U$ 200 milhões por ano.

Para SAA, ganhar dinheiro com esta prática em expansão seria tão fácil como pescar peixes em um barril. Os turistas têm poucas opções, devendo carregar seus “troféus” em aviões para uma viagem final, fornecendo à companhia aérea lucrativas taxas – tanto na área de passageiros, como abaixo dela. O transporte de cargas pode aumentar uma em até 10% os lucros de uma companhia aérea que faz transporte de passageiros. Em uma indústria em que a média anual de lucro gira em torno de 1-2%, esta adição não é de se ignorar. O transporte de carga também é um dos aspectos que menos geram problemas para a companhia: uma carga não reclama quando é jogada por aí; e a maioria dos custos fixos para colocar um avião no ar não muda, independente de quanta carga o avião leva. A SAA, que está com problemas financeiros, mal pode negar esse dinheiro fácil.

Os argumentos éticos contra esse tipo de caça também são motivos de debate. Apoiadores da prática dizem que ela reduz a demanda pela caça selvagem; que os programas de criação intensiva mantêm um pool de genes já em declínio em um nível saudável; e que as comunidades rurais se beneficiam com a prática. Outros respondem que a população de leões selvagens na África reduziu de 200 mil para 30 mil nas últimas décadas, sugerindo que os humanos têm um péssimo histórico em ajudar as espécies. E um estudo, comissionado por grupos ativistas, descobriu que somente 3% da renda dessa prática chega ao bolso dos moradores locais.

Não importa quão lucrativo ou defensável, a SAA decidiu que a carga de troféus de caça é péssimo negócio. A empresa quer anular uma tempestade de má publicidade antes mesmo que esta chegue. O embargo pode ser legalmente oportuno, também. A SAA enfrentou problemas recentemente, quando um de seus passageiros não declarou um lote ilegal de presas de elefante. A empresa chegou à conclusão de que o único jeito de evitar esses mesmos problemas é banindo toda a carga de troféus de caça, e, com isso, acabar com o transtorno de distinguir as carcaças legais das ilegais.

De qualquer forma, a SAA deve ser reconhecida por sua atitude. A British Airways foi aplaudida por recusar o transporte de animais destinados à mesa de vivissecção. O fato de muitas pessoas reconhecerem a necessidade ética dos experimentos animais não valeu nada; emoção supera razão quando dilemas morais se tornam pessoais. Poucos passageiros poderiam sentar confortavelmente sabendo que macacos aterrorizados estão tremendo bem abaixo dos seus pés. A única companhia aérea que continua fortemente a favor do transporte animal, Air France, está sendo submetida a campanhas sem fim pela PETA, um grupo de direitos animais, resultando em prejudicial atenção na mídia.

Alguns meses atrás, Gulliver visitou Ukutula, um parque de leões perto de Johannesburgo, que também cria esses animais majestosos para a indústria turística. Mas em vez de vender o direito de matá-los, o parque vende o direito de fotografar e interagir com eles. O parque também conduz pesquisas com a Universidade de Pretoria. Ativistas não são nada fãs desses estabelecimentos. Mas esse modelo de negócio ilustra um ponto importante: a fauna africana tem valor comercial com os animas vivos, também. Existem outras maneiras bem melhores para construir uma economia baseada no turismo – e para conservar os grandes animais na natureza – do que através do cano de uma arma. A decisão da SAA é um passo na direção certa. Agora, mais governos deveriam seguir a atitude da Austrália e proibir a importação de troféus de caça.

Fonte: The Economist

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