Comunidade moral

A ética tradicional, na qual fomos todos educados, considera dignos de atenção, respeito e consideração moral apenas os seres dotados de racionalidade. Por milênios pensou-se que o fato de ser capaz de raciocinar logicamente nos moldes do raciocínio lógico típico dos humanos bastasse para definir quem merecia respeito moral.

Ao longo de mais de vinte séculos nenhum outro critério, além da razão, foi estabelecido para definir quem pertence, ou não, à comunidade moral. Confundiu-se a posse da racionalidade humana com mérito moral. Ora, ser racional não é mérito de ninguém, do mesmo modo que não ser capaz de fazer uso da razão não é demérito de ninguém. Em outras palavras, aprende-se, ou não se aprende, a pensar de modo lógico, a tirar conclusões de modo lógico, a agir de modo lógico. Se a razão fosse algo formatado em nós geneticamente não haveria necessidade de tanto cuidado dos adultos com as crianças e adolescentes, adultos que não tiveram tal capacidade desenvolvida ou a perderam.

Do mesmo modo que se pensava que a racionalidade era a única característica que distinguia humanos de não humanos, também se concluiu que essa era a única distinção que deveria indicar os seres dignos de respeito moral. Tal conclusão não serviu para aprimorar a racionalidade humana, nem para estabelecer a moralidade entre nós. Enquanto ficamos fazendo um esforço imenso para arredar do âmbito da comunidade moral os seres que não raciocinam logicamente nos termos considerados louváveis pelos humanos, não apenas excluímos muitos humanos do círculo dos seres dignos de respeito moral; também mantemos à força, fora desse círculo, todos os seres vivos não humanos.

Mas o que constitui a racionalidade em um humano? Talvez a história da filosofia ocidental, desde os gregos, não tenha feito outra coisa além de elaborar um discurso que sirva de evidência para quem queira demonstrar que humanos são capazes de raciocinar logicamente. Mas, ao contrário do que possa parecer, o raciocínio lógico não implica apenas construir silogismos. Implica também analisar o alcance ou aplicação de cada premissa de um raciocínio, sem negar aos objetos aos quais as premissas se referem o direito de fazerem parte do conceito em apreço. Assim, por exemplo, se afirmamos que todos os seres dotados de sensibilidade e de consciência sentem dor e sofrem, não podemos em seguida construir uma barreira especista com o objetivo de discriminar certos seres, negando o reconhecimento de que são capazes de sentir dor e de sofrer, justificando tal discriminação pelo fato de que eles não têm um formato semelhante ao dos humanos. Uma vez concluído que sensibilidade presente à consciência forma a senciência, já não se pode mais, sem ferir a racionalidade, afirmar que certos seres sencientes têm a capacidade de sofrer, e outros não.

Por isso, o agente racional íntegro expande a aplicação dos conceitos até onde eles permitem, sem medo de alcançar conclusões que o levem a algum desconforto, por exemplo, ao desconforto de reconhecer que, por ser senciente, é um ser “dorente” e “sofrente” (Richard D. Ryder, Painism: A Modern Morality; e, The Political Animal),  portanto, não aprova ações alheias que lhe causem dor ou o façam sofrer. Tal conclusão, racional, compromete o agente moral a não causar dor e sofrimento a qualquer ser senciente, por uma questão de simples coerência. Que isso lhe causa desconforto, é quase certo. Mas, racionalidade moral não tem acordos com a comodidade. Maltratar seres sencientes, para tirar deles benefícios que só deveriam ser buscados com empenho próprio, é algo que a razão humana, quando não se encontra talhada para instrumentalizar os outros, reconhece como injustificável.

A história humana prova que não evoluímos moralmente a não ser quando damos um passo no sentido de ampliar o círculo da moralidade no qual admitimos que seres diferentes de nós são dignos de nossa consideração e apreço morais. Foi assim com os estrangeiros, as mulheres, os negros, as crianças, os deficientes. O desafio, hoje, é ampliar o círculo para admitir o ingresso nele de seres não humanos, animais e ecossistemas, que, embora não sejam capazes de agir racionalmente, vivem à mercê das ações de sujeitos capazes de agirem racionalmente. O que se espera de quem é capaz de agir racionalmente é que amplie o horizonte de seus fins, incluindo o bem próprio de outros seres vivos como alvo das decisões e ações empreendidas. Racionalidade tem a ver com expansividade, não com enrugamento, dobras, pregas e pequenez.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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