Congresso colombiano aprova a proibição das touradas

Congresso colombiano aprova a proibição das touradas
Pedro Suárez Vaca e Alirio Uribe comemoram a aprovação da lei que proíbe as touradas, nesta terça-feira 28. Foto: Câmara de Deputados

A Câmara dos Representantes da Colômbia aprovou esta terça-feira 28 a proibição das touradas. Numa câmara meio preenchida, houve 93 votos a favor e 2 contra —de um total de 188 membros. Agora, o projeto deverá passar por uma conciliação entre o texto aprovado nesta terça e o previamente definido pelo Senado, para depois ser sancionado pelo presidente Gustavo Petro, um de seus defensores. O mais provável é que não haja retrocessos – colapsos na conciliação são incomuns – e que a Colômbia emerja assim do pequeno grupo de oito países no mundo que ainda hoje permitem as touradas.

A proibição das touradas entrará em vigor três anos após a aprovação do projeto, em 2027. O objetivo é que haja um período de transição em que as praças de touros de todo o país se tornem palcos de concertos, peças de teatro, campeonatos de xadrez e feiras de empreendedorismo. “O objetivo desta lei é contribuir para uma transformação cultural que se baseie no reconhecimento e no respeito pela vida animal, e que contribua para o alcance da paz total”, diz a apresentação feita pelo representante Alejandro García, da Aliança Verde, e que se baseia no projeto da senadora Esperanza Hernández, do Pacto Histórico.

García lembrou após a aprovação que a iniciativa passou por vários obstáculos nos últimos meses. “Sabíamos que não seria fácil. Mas nunca imaginamos que seria tão difícil. Esse projeto foi abandonado 14 vezes e agora está perto de virar lei”, afirmou o Risraldense. Da mesma forma, apelou aos toureiros para que participem na conversão das praças de touros em espaços culturais. “Às cidades, Manizales e Cali, digo: esta é uma oportunidade para que estes espaços subutilizados (uma semana por ano) sejam verdadeiros locais de cultura, arte e esporte”, afirmou. “Dizemos ao país que o bem-estar animal é uma prioridade e dizemos ao mundo que a Colômbia está num processo de reconversão cultural.”

Outro dos promotores do projeto, Juan Carlos Losada (Partido Liberal), também destacou que foram “10 anos de luta”. “O que temos aqui hoje é um país que diz que não existe nenhuma forma de tortura que possa ser considerada cultura neste mundo. “A Colômbia é um exemplo para o mundo inteiro porque estamos nos tornando uma sociedade cada vez menos violenta e cada vez mais civilizada”, declarou o bogotano após a votação. “A tortura não é regulamentada, mas proibida”, acrescentou. Minutos depois, os parlamentares explodiram em cantos comemorativos. “Chega de olé”, exclamaram, em referência às expressões usadas nas touradas para encorajar os toureiros.

Os deputados que abandonaram as instalações para não votar a iniciativa pertencem majoritariamente ao Centro Democrático e à Mudança Radical, ambos de direita e opostos ao Governo. O deputado Christian Garcés, que espera que o Tribunal Constitucional derrube o texto aprovado, insistiu até ao último minuto num projeto alternativo para regular as touradas e reduzir o abuso de animais – sem eliminar as mortes. “Não se pode simplesmente proibir porque aqui se criam empregos”, declarou durante a sessão. Por sua vez, Ana María Monsalve, representante das comunidades afro-colombianas, pediu a palavra após a votação e destacou que “centenas de meninos e meninas” serão afetados porque seus pais ficarão sem apoio. “Hoje eles deixam milhares de pessoas sem emprego que nem sequer identificaram”, disse ele.

Vitória para o presidente

Petro havia prometido durante a campanha que acabaria com espetáculos que envolvessem práticas de abuso de animais, como fez em Bogotá quando era prefeito (2012-2015). “Não permitiremos a utilização de locais ou recursos públicos para estes fins”, disse ele em diversas ocasiões antes de ser eleito o primeiro presidente de esquerda em décadas. Uma vez no poder, Petro reiterou o desejo de acabar com as touradas. “Peço aos prefeitos que não autorizem mais espetáculos com morte de pessoas ou animais”, escreveu ele após o desabamento, há dois anos, de uma arquibancada na Plaza de El Espinal, que deixou quatro mortos e mais de 200 feridos.

Nesta terça-feira, o Governo comemorou a vitória no Congresso. O Ministro do Interior, Luis Fernando Velasco, comemorou no local e comentou ao sair que a decisão “é um salto para a modernidade”. “Vamos dar crédito à Câmara por interpretar uma nova cultura, uma nova visão do que o país tem que ser. É entender que existia uma tradição que brincava com a dor dos seres sencientes, dos animais”, declarou à Rádio Caracol. Petro, por sua vez, falou por meio do X. “Parabéns a quem finalmente conseguiu fazer com que a morte não fosse um espetáculo. Quem se diverte com a morte dos animais vai acabar se divertindo com a morte dos seres humanos”, observou.

Por Lucas Reynoso e Juan Miguel Hernández Bonilla / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Fonte: El País