Contra o preconceito, pessoas adotam cães e gatos pretos

Em 1973 a música O Vira, do grupo Secos e Molhados -, cujos primeiros versos estão no título desta reportagem – fazia alusão a uma realidade antiga. De forma descontraída, o conjunto, então liderado pelo cantor Ney Matogrosso, remetia a um assunto sério: a superstição e o preconceito há muito sofrido por animais de pelagem escura. Segundo a lenda, cruzar com um bichano desses na rua seria sinal de mau agouro. A perseguição aos gatos pretos surgiu na Idade Média, período em que eram associados à bruxaria e sacrificados. Os tempos mudaram, mais ainda hoje eles são vítimas da ignorância humana. E não estão sós.

Os cães de mesma cor também são discriminados. Nas ruas, não raramente são as primeiras vítimas de abandono e maus-tratos. Nos abrigos, são a última opção de muitos que optam pela adoção. A chamada Síndrome do Cachorro Preto, constatada por pesquisa realizada pela ONG Lucky Dog Animal Rescue, localizada nos Estados Unidos, revela um misto de preconceito e crueldade. No Brasil, ativistas da causa redobram os cuidados nas datas em que se comemora o Halloween e nas temidas sextas-feiras 13. Períodos em que a doação de gatos pretos é praticamente abolida, para não correr o risco de que sejam mortos em rituais. “Infelizmente, isso ainda é uma realidade em nosso país, contrariando a Declaração Universal dos Direitos dos Animais e o respeito a todas as formas de vida”, diz Gloria Araripe, mentora da ONG Gato Uai.

A motion designer Aline Caldeira adotou a SRD Panqueca: “Muitos a tratam diferente da maneira como agem com animais de raça e de pelo claro”(foto: André Usagi/Divulgação)

Assim como ainda ocorre entre as pessoas, o valor dos bichos também é medido pela cor da pele, ou melhor, pela cor do pelo. Mas, muitos donos garantem que esse tipo de pensamento é tolice. E azar de quem pensa diferente. A fotógrafa Leca Novo, por exemplo, não abre mão do seu pretinho básico. Darth Vader, vira-lata de 4 anos, conquistou o coração da dona e garantiu o seu espaço no sofá. Do tipo sociável e conquistador, é presença obrigatória em seu estúdio fotográfico. De porte imponente, o mestiço de labrador e dog alemão impõe respeito por onde passa e, mesmo sendo de temperamento dócil, sofre julgamentos. “Para alguns, basta ver o Darth para atravessarem a rua”, conta a dona. Ela acredita que parte desse receio esteja ligado ao fato de o cinema vender a imagem de que todos os cães grandes e pretos são maléficos e perigosos. “Muitas vezes, o estereótipo é reforçado em histórias de terror e lendas urbanas”, diz.

O que muitos se esquecem é de que cada animal possui uma personalidade distinta, mesmo quando se trata de uma mesma raça. Segundo os especialistas, a maneira como são criados pelos donos diz muito mais sobre o seu temperamento do que suas heranças genéticas. E, é claro: a preocupação com a cor do pelo diz respeito, na verdade, à vaidade humana. Panqueca que o diga. Vira-lata de 2 anos, teve a irmã branca adotada primeiro. Pouco tempo depois, foi acolhida pela motion designer Aline Caldeira Coelho. Desde então, a filhote preta e desengonçada se transformou em uma cadela elegante e inteligente. Só não venceu mesmo foi o preconceito. “Alguns olham pra ela e dizem com ar crítico: nossa, é até bonita! Como se não pudesse ser, por se tratar de uma cadela preta e sem raça definida”, diz a dona. Outros, afirma, tratam Panqueca diferente da maneira como agem com animais de raça.

A fotógrafa Leca Novo não abre mão do seu pretinho básico, o vira-lata Darth Vader: “Muitas vezes, o estereótipo de que cães pretos e grandes são perigosos e maléficos é reforçado em histórias de terror e lendas urbanas”(foto: Juliano Arantes/Divulgação)

A personal trainer Juliana Lopes Francisco foi surpreendida com um pretinho para lá de charmoso. O gato Igor, SRD de 3 anos, foi presente de Natal do marido, que o adotou. “Quando o Igor chegou, era magrelinho e acuado, mas muito carinhoso”, diz. Não demorou muito para conquistar a todos. “Ele se tornou o meu companheirinho. Para nós, a cor do seu pelo nunca fez diferença”, diz. Grávida de gêmeos e dona de mais um gatinho, diz que a quantidade de filhos dobrou. “Nossa família está só crescendo, sem preconceitos e com muito amor.” 

Por Daniela Costa 

Fonte: Revista Encontro 

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